Filantropia e Legado entre Gerações

A sociedade norte-americana é singular em sua forma de entender a educação e de tratar as instituições que se dedicam à importantíssima tarefa de preparar e formar a população daquele país. Há, entre os hábitos, costumes e regras vigentes nos EUA, pelo menos três que são emblemáticos, conforme resumirei a seguir:

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A sociedade norte-americana é singular em sua forma de entender a educação e de tratar as instituições que se dedicam à importantíssima tarefa de preparar e formar a população daquele país. Há, entre os hábitos, costumes e regras vigentes nos EUA, pelo menos três que são emblemáticos, conforme resumirei a seguir:

1) Os norte-americanos aceitam como obrigação natural dos cidadãos residentes em cada comunidade (bairro, cidade, condado, etc.) o custeio das escolas públicas de nível básico, pago na forma de “tuition”, ou seja, independente do orçamento governamental, simplesmente para tê-las disponíveis para quem delas vier a precisar, no presente ou no futuro.

2)  Naquele país, as famílias têm por hábito generalizado, formar uma poupança progressiva para os filhos, religiosamente preservada mesmo em situações de dificuldade financeira severa, com a finalidade específica de custeio da caríssima educação colegial e acadêmica em instituições não públicas.

3)  Os profissionais bem-sucedidos no mercado norte-americano têm por hábito fazer significativas doações, patrimoniais ou financeiras, às universidades em que se formaram, para que elas continuem a existir e possam educar novas gerações de alunos com o mesmo padrão de excelência.

Embora os três exemplos de atitude sejam, todos, frutos do mesmo espírito de legar à geração seguinte uma situação garantida e da importância atribuída à educação pela ampla maioria dos cidadãos norte-americanos, quero examinar o último deles, em mais detalhe, neste espaço. Esse hábito evidencia, pelo menos, duas características comportamentais importantes: um padrão de generosidade muito maior do que aquele que costumamos ver em nosso país e, ao mesmo tempo, a disposição para conduzir diretamente a solução de um problema sem esperar ou depender da ação governamental.

Nesse interessante modelo de compromisso entre os profissionais bem-sucedidos e as universidades em que eles se formaram, além de retribuírem um pouco pelo muito que receberam, os ex-alunos viabilizam com suas doações, a educação de gerações subsequentes. Ao contrário do que se costuma pensar por aqui, as principais universidades norte-americanas (Harvard, Columbia, Yale, etc.), embora sejam instituições privadas, são constituídas como fundações sem fins lucrativos, não têm donos, não distribuem dividendos ou lucros e não dependem de verbas públicas. Em geral, são dirigidas por um Conselho de Curadores sem nenhum interesse financeiro direto e cujos membros estão comprometidos, unicamente, com a sobrevivência exitosa das instituições que dirigem. Algumas dessas instituições, antigas de quase quatro séculos, já acumulam fundos patrimoniais (originários de doações de mecenas e ex-alunos) que, somados, são equivalentes ao PIB de pequenos países. Harvard, por exemplo, administra um patrimônio superior a US$ 30 bilhões. Yale, por sua vez, acumula um patrimônio operacional da ordem de US$ 15 bilhões.

Esse modelo de sustentação permite que continue a ser formado, naquelas instituições, um número elevado de profissionais, com um padrão de excelência que os habilita a serem candidatos frequentes ao Prêmio Nobel ou ao destaque no mundo científico, acadêmico, empresarial e político. Não fosse isso e, por consequência, as bolsas totais ou parciais que as universidades podem oferecer, quantos norte-americanos poderiam custear despesas (entre matrícula, mensalidades, alojamento e alimentação) que frequentemente superam um milhão de dólares por aluno-ano nos cursos de graduação? 

Rubens Menin