Brasil x China: Uma Questão de Eficiência

Muitas vezes è a necessidade de revisão de diretrizes políticas ou de mudanças nos parâmetros de planejamento e gestão, incluindo o balizamento legal e regulamentar, que resulta na interminável postergação de investimentos já consensados e aguardados pela sociedade.

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São incríveis a nossa morosidade, lerdeza e falta de eficiência na implementação das grandes obras e dos investimentos estratégicos exigidos pelo desenvolvimento nacional ou para espantar a paralisia que nos assola. Nem sempre são os empreendimentos em si que andam no ritmo de lesma. Muitas vezes è a necessidade de revisão de diretrizes políticas ou de mudanças nos parâmetros de planejamento e gestão, incluindo o balizamento legal e regulamentar, que resulta na interminável postergação de investimentos já consensados e aguardados pela sociedade. Exemplos não faltam e dariam para encher muitas laudas, mesmo que se tentasse listar apenas empreendimentos atrasados em muitas décadas: rodoanel de São Paulo, metrô de Belo Horizonte, ampliação e melhoria do Porto de Santos, duplicação e modernização da rodovia BR-381, etc. É preciso que o fantasma do racionamento energético volte a nos assombrar para lembrarmos que nenhum passo concreto foi dado adiante na revisão da nossa política setorial e na remoção dos empecilhos que destaquei neste mesmo blog, nos tópicos “Insegurança Hidrelétrica (1) e (2)”.

Por trás de tudo isso, está uma inexplicável dificuldade de gestão dos empreendimentos públicos, incluindo a remoção da infernal burocracia, a continuidade das metas e prioridades de Estado em mandatos sucessivos (nos níveis federal, estadual e municipal), a fiscalização e o controle orçamentário rigoroso da execução das obras e a elaboração prévia de bons projetos (com a tecnologia adequada e com o detalhamento necessário).

Embora esses problemas não sejam uma exclusividade nacional, as coisas estão muito piores por aqui. Já tive a oportunidade de examinar neste espaço, alguns resultados do cotejo entre a nossa realidade nacional e a de países em nível superior de desenvolvimento, como os da União Européia, o Japão, a Coréia do Sul, os EUA e o Canadá. Para que não se considere que as nossas mazelas só aparecem no confronto com países de economia tradicionalmente capitalista e que se apóiam na existência do livre mercado, resolvi destacar, desta vez, o cotejo da nossa situação com a da China, que ainda se declara formalmente comunista e onde o Estado tem uma presença fortíssima.

Em visita recente à China interessei-me especialmente por esse aspecto, qual seja, a rapidez na consecução dos empreendimentos que materializam o estágio de desenvolvimento alcançado por aquele país. Na medida do possível, pesquisei esse assunto in loco. Constatei que a grande maioria deles foi completamente executada segundo cronogramas muito mais exigentes e curtos do que os nossos. E não estou me referido apenas às obras executadas para abrigar as Olimpíadas de Pequim. Esse mesmo padrão estava sendo observado, também, após o evento esportivo mundial, em grandes sistemas ferroviários, na construção de importantes canais de navegação interior ou intercostal, e na edificação de hidrelétricas e aeroportos, entre outros investimentos.

A característica ou explicação para esse sucesso era quase sempre uma unanimidade: a forte determinação política e a gestão rigorosa dos empreendimentos. Pude averiguar, também, que boa parte dos investimentos mais significativos era concebida por empresas de engenharia europeias, americanas e canadenses ou por escritórios de arquitetura de renome mundial, fazendo com que as obras resultassem na incorporação das tecnologias mais avançadas.

Temos que refletir sobre o exemplo chinês, não só porque, num primeiro momento, a simples execução desses investimentos estimula o crescimento imediato do PIB, como também pelo fato de que, a sua conclusão aumenta sustentavelmente a produtividade da economia e a competitividade da indústria local. Em resumo, independentemente da matriz política ou doutrinária dos diversos países, os mais bem sucedidos são sempre aqueles que buscam a conclusão dos seus empreendimentos com determinação, vontade política e eficiência de gestão.

Rubens Menin