A Versão e o Fato

Os mercados nem sempre são racionais e, no momento atual, a irracionalidade de algumas atitudes econômicas aceitas globalmente como a moda da estação embute um enorme perigo potencial para o nosso país.

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Não posso deixar de aproveitar o espaço deste blog para aduzir um pequeno comentário sobre a proverbial racionalidade dos mercados, sustentada apaixonadamente por muitos desde que veio a lume, em 1776, o celebrado livro “Uma Investigação Sobre a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações”, do escocês Adam Smith. Os mercados nem sempre são racionais e, no momento atual, a irracionalidade de algumas atitudes econômicas aceitas globalmente como a moda da estação embute um enorme perigo potencial para o nosso país.

É interessante compararmos, como expectadores internos – portanto privilegiados e bem informados agentes – dois episódios sucessivos que demonstram que a versão da estória muitas vezes é mais efetiva, difundida e dominadora do que a realidade daquilo que se está contando. Daí o potencial de dano ou de prejuízo, já que, algumas vezes até conseguimos corrigir os fatos ou dar-lhes outro curso, mas, quase nunca está ao nosso alcance modificar uma versão alardeada aos quatro ventos, com roupagem de verdade incontestável ou científica (como se espera da racionalidade dos mercados).

Em 2001, o economista inglês Jim O’ Neill criou a sigla BRIC para agregar, sob uma denominação comum, o Brasil, a Rússia, a Índia e a China, países que se apresentavam, no início do novo século, como aqueles mais credenciados a exibirem forte crescimento e taxas elevadas de expansão econômica. Dez anos depois, por iniciativa dos próprios países englobados na denominação, a sigla original foi ampliada para BRICS de modo a integrar, também, a África do Sul (South Africa) em um grupo formal de cooperação mútua e de ação política coordenada.

Durante algum tempo, os BRICS se converteram em símbolo de pujança e vitalidade econômica, reconhecido em todo o globo. Não era raro o noticiário internacional que distinguia os BRICS com a explicação “os cinco grandes do mundo emergente” ou outras formas assemelhadas de lhes reconhecer o status e a importância. Os membros desse seleto grupo eram apontados como os campeões do novo século, cujos problemas internos eram minimizados ou acobertados para não lhes atrapalhar a condição de alvo preferencial dos investimentos e das apostas internacionais. Mais do que o fato, valeu aqui a versão. Enquanto puderam, os BRICS tiraram enorme proveito dessa propaganda transformada em presente inesperado. Recebemos investimentos fartos. Nós, brasileiros, sabíamos que essa estória estava muito mais dourada do que a realidade concreta, mas aderimos ao “oba, oba” pois, afinal, éramos os beneficiários dessa irracionalidade dos mercados.

Não demorou para que surgisse outra irracionalidade semelhante, com versão muito distinta do fato que pretendia retratar, apontando em sentido contrário ao que se seguia anteriormente. Dessa vez, na pressa de englobar países e buscar explicações generalizadas, o Morgan Stanley (o maior banco de investimentos do mundo) cunhou outra expressão: “The Fragile Five” – ou os cinco frágeis – para englobar Brasil, África do Sul, Índia, Indonésia e Turquia, países em desenvolvimento cujas economias estariam em desordem e que, portanto, deveriam ser evitados como destino dos investimentos globalizados.

A criação apressada desse novo clube já está fazendo grandes estragos por aqui. Transformada em verdade científica dos mercados e, como tal, aceita rapidamente pelos grandes investidores internacionais, essa nova irracionalidade afugenta a entrada de capitais externos e cria novos embaraços para as contas nacionais. É um jogo pesado, mas cujo desenrolar não poderemos assistir passivamente desta vez. Especialmente porque, como expectadores privilegiados e bem informados, mais uma vez, sabemos que a nossa realidade não é tão ruim como a versão posta a circular. Ainda temos alguns fundamentos econômicos razoavelmente sólidos, apesar da nossa desaceleração econômica momentânea. Além disso, como mostrei no tópico antecedente deste blog, a desvalorização cambial (fenômeno comum aos “Cinco Frágeis”) certamente será um estímulo à nossa competitividade industrial. 

Rubens Menin