Guerra, liberdade e o Bitcoin

Só damos valor a algumas coisas quando somos privados delas

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(Bianca Holland/Pixabay)

Esta semana, mais precisamente após a quinta-feira, ficará marcada pelo início da incursão Russa em território ucraniano. Todos os holofotes passaram da pandemia para o que está acontecendo naquele pedaço do mundo.

No momento em que escrevo, pouco se tem de concreto sobre um auxílio do mundo com tropas, armas etc., para o povo ucraniano, mas as sanções à Rússia no campo econômicos já estão em funcionamento e com possibilidade de serem aumentadas.

Eu estou longe de ser um expert em geopolítica para visualizar qual rumo, ou possíveis rumos, esse conflito pode tomar, mas já está claro que embargos econômicos à Rússia serão formas de retaliação utilizadas pelo ocidente.

Se essa guerra se prolongar e as sanções à Rússia escalarem, uma das cartas na mesa é tirar toda a economia Russa do SWIFT, que é o sistema internacional de pagamentos por onde praticamente todas as transações financeiras transfronteiriças são feitas. O objetivo seria deixar a Rússia “fora” do mundo, sem poder pagar ou receber de nenhum outro país.

Uma penalização enorme, mas que já tem sua saída pensada no campo dos sistemas tradicionais, via o sistema existente entre Rússia e China. Por meio dele, a China poderia triangular as operações para a Rússia e fazer o dinheiro entrar e sair no mercado russo.

Como ouvi um analista comentando, se o Irã que é o Irã enfrenta sanções há vários anos e ainda consegue vender petróleo para o mundo, isso não deveria ser problema para a Rússia. Além de que por volta de 1/3 da matriz energética alemã é dependente do gás que vem da Rússia. Se Alemanha não consegue pagar o gás, também não o recebe.

Outra forma de se fazer esses pagamentos entre os países é a utilização das redes de blockchain públicas (Bitcoin, Ethereum, etc…). Elas estão aí para qualquer pessoa, empresa ou país usar. E por que não a Rússia poderia começar a receber e pagar tudo em Bitcoin?

Do ponto de vista prático é muito fácil de se fazer. Qualquer um que já tenha feito uma transação utilizando a rede Bitcoin sabe disso. O problema é um governo, que emite uma moeda fiduciária relevante, começar a fazer isso de modo persistente.

Quais os impactos disso na sua moeda? Será que a política monetária se enfraquece? Seria essa utilização do Bitcoin somente pelo fato da rede ser não-censurável? Entrando fiat de um lado para comprar Bitcoin e transferir e vendê-lo do outro lado por outra fiat? Será que seria feito via bitcoins ou via uma stablecoin (USDC, USDT, etc), que retiraria o fator volatilidade de preço do “veículo” a ser comprado e vendido? Vários pontos têm que ser levados em consideração e com respostas não-triviais. Abrirá a Rússia essa caixa de pandora? A ver.

Há um outro aspecto que vem sendo levantado que é a neutralidades dessas blockchain públicas. Vitalik, que é certamente a maior referência da rede Ethereum (ETH), por exemplo, condenou veementemente a incursão russa, o que gerou uma situação delicada para a Ethereum e fez com que ele, não muito tempo depois, fizesse uma outra declaração deixando claro que a rede Ethereum era neutra em relação a isso, mas ele não.

A discussão nos bastidores tem a ver com a forma de funcionamento das redes. As redes Bitcoin (BTC) e Ethereum, com seus processos de mineração de prova de trabalho (PoW), têm uma boa distribuição e consequente independência/neutralidade da rede, mas isso ocorre em detrimento de escalabilidade e com grande utilização de energia.

No caso do processo de mineração de prova de controle (proof of stake – POS), a escalabilidade é maior, e o gasto de energia menor, mas a possibilidade de controle é maior. A Ethereum está em um processo longo de migração para POS.

Outro prisma a discutir Bitcoin nessas situações tem a ver com ele ser não-censurável. O caso dos bloqueios às contas de ajuda aos caminhoneiros que faziam um movimento na fronteira entre Canadá e USA no início desse ano foi um bom exemplo.

O governo canadense bloqueou toda e qualquer conta no mercado financeiro tradicional de ajuda ao movimento deles. O resultado foi que eles migraram todos os auxílios para o Bitcoin, fugindo assim desse controle do Estado.

Por mais que o Canadá tentasse bloquear as contas de Bitcoin em algumas exchanges centralizadas (CEX), a estrutura da rede Bitcoin permitiu que operações continuassem sendo feitas e que o dinheiro, aqui sem entrar no mérito de qual dinheiro, tenha chegado ao seu destino.

  • Assista: Bitcoin resiste a colapso em meio à guerra na Ucrânia. O que vem agora?

Há também a utilização de cripto no campo individual dos afetados por essa guerra. Por exemplo, o preço do Tether (USDT), stablecoin que tem uma paridade de 1:1 com o dólar, chegou a ser negociado nas exchanges da Ucrânia por até 1.20 USD/USDT.

Por que isso? Muita gente na Ucrânia querendo comprar Tether para ter o controle do seu dinheiro e não ficar dependente do mercado financeiro tradicional, governo, ou outro órgão. O Tether é majoritariamente negociado na rede Ethereum e funciona 24/7, 365 dias por ano, diferente dos bancos na Ucrânia, que estão todos fechados há alguns dias.

O preço descola do 1:1 devido a oferta e demanda. As vias de comunicação do mundo cripto, internamente entre os vários silos cripto (várias redes, várias CEX, etc…) e externamente com o mercado financeiro tradicional ainda não são eficientes o suficiente para assimilar movimentos bruscos de oferta e demanda, gerando diferenciais como esse.

Além da população da Ucrânia a rede do Bitcoin também está disponível para a população da Rússia, caso o embargo ao SWIFT ocorra e algum russo queira mandar dinheiro para fora para pagar o aluguel de um filho no exterior. Isso vale para os ucranianos, russos ou qualquer outro cidadão do mundo.

E tem mais, assim como no caso dos caminhoneiros, onde um grupo se organizou para levantar dinheiro via cripto para o movimento deles, já há iniciativas similares para tentar ajudar o financiamento do governo ucraniano atual.

Curioso notar que nos exemplos que descrevi temos a rede do Bitcoin ou Ethereum sendo utilizada por lados muito diferentes, e até antagônicos.

No caso dos caminhoneiros, estamos falando de liberdades individuais, ou de um pequeno grupo, de financiar movimentos a despeito do que o governo permite ou quer. No caso da Rússia, é o próprio governo que pode vir a utilizar para sair de sanções impostas por outros governos. No caso dos indivíduos russos ou ucranianos estamos falando de pessoas de lados opostos.

Neutralidade de rede é isso. Está aí para todos usarem, independente de quem.

Restrições financeiras, na figura de dar acesso, é uma forma muito usual de impor a vontade de setores, governos e pessoas dominantes, sobre outros, e é nesse momento que as redes de blockchain públicas, aqui representadas pelas maiores (Bitcoin e Ethereum), mas não restrita a somente elas, aparecem.

Muitas coisas só damos valor quando somos privados delas. Que bom que cripto está aí para auxiliar nesses e em outros inúmeros casos em que somos privados na nossa vida financeira.

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Gustavo Cunha

Sócio da gestora de ativos digitais Resetfunds, e do portal de educação Fintrender. Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro, foi ex-diretor do Rabobank Brasil, e está há mais de 5 anos no mercado cripto. Escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É um experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal)