Investir em DeFi é mesmo tão diferente quanto pensam? Auditoria, custódia e fundo garantidor de crédito

Será uma questão de nos adaptarmos ou de DeFi se adaptar a nós?

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Um dos grandes entraves para as pessoas ingressarem em cripto e investirem em estruturas descentralizadas de DeFi é o fato dessas estruturas carecerem ainda de muito do que estamos acostumados quando investimos.

Mas, as coisas estão evoluindo de maneira muito acelerada para que isso não seja mais um entrave, seja do ponto de vista da plataforma ou da forma como as sociedades vão se remodelando.

A seguir, analiso três desses pontos: sistema de garantias para investidores, custódia e auditoria. Vamos a eles:

Garantia ao investidor (FGC)

O fundo garantidor de crédito (FGC) é uma estrutura que existe em praticamente todos os países para salvaguardar o investidor dos bancos.

No Brasil ele é gerenciado por um pool de bancos que recolhem um pedaço da rentabilidade de alguns produtos para o fundo do FGC e, caso algum banco brasileiro venha a inadimplir seus compromissos, o fundo entra para ressarcir o investidor.

Visto de uma forma simplista, o FGC é um mecanismo de seguro para o investidor caso o banco no qual ele está a investir venha a dar default em seus títulos. E, como um seguro, tem um prêmio pago pelo banco que está emitindo aquele título.

Quanto é esse prêmio? As regras estão no estatuto do FGC e aprovadas pelo Banco Central e, ao mesmo tempo que dá para qualquer um analisar e calcular, ela não está expressa quando você compra o produto do banco e, portanto, você não sabe qual é. Mas ela está lá.

Toda vez que você compra um CDB, por exemplo, um pedaço do valor investido vai para o FGC, como se fosse um prêmio de seguro que você paga.

Agora migremos para DeFi. Existe FGC ou um conjunto de bancos ou empresas para garantir um pedaço do seu investimento? Não. Mas já há formas de comprar seguro.

Vários protocolos oferecem isso. Armour, Nexus e Insurace são apenas alguns exemplos. Através deles, é possível comprar seguro para vários protocolos e várias situações que podem acontecer com os seus investimentos em cripto.

Alguns deles atuam de forma similar ao FGC, com o risco sendo distribuído entre investidores que estão dispostos a correr o risco dos protocolos, outros de forma mais centralizada, mas, no fim, o objetivo deles é o mesmo: vender um seguro para que os investimentos do comprador estejam cobertos caso haja algum problema com o protocolo, rede, ou qualquer outro risco que descrito na apólice.

Os preços desses seguros ainda são altos e não dá para negar que há o risco de crédito de quem está lhe vendendo o seguro também.

Diferentemente das seguradoras tradicionais, onde os governos vêm ao seu socorro caso necessário, tal qual aconteceu com a AIG durante a crise de 2008, aqui não há emprestador de última instância, como é o caso dos Banco Centrais, para cobrir esses riscos.

Então é quase que trocar um risco por outro. Em alguns casos, pode valer a pena, mas está longe de ser um caso genérico como o FGC- no caso do FGC, o prêmio de se investir em um banco pequeno deveria ser muito diferente do que o de se investir nos três maiores bancos brasileiros, mas você não tem controle sobre isso.

Custódia

Outro ponto que todos do mercado financeiro tradicional reclamam quando começam a investir em cripto é a necessidade de criar controles para organizar suas chaves privadas (“senhas”), e o risco de perder e nunca mais tem acesso ao dinheiro.

Isso, como tudo na vida, tem prós e contras.

A imensa maioria dos investimentos das pessoas é hoje custodiada por terceiros e esses têm, por necessidade ou regulamentação, que montar os sistemas de controle para que o dinheiro não suma. O investidor não tem esse fardo ou risco, mas (e aqui vale um MAS maiúsculo) ele também não tem a posse e controle sobre seu dinheiro.

A abertura da caixa de pandora que ocorreu recentemente com o ocidente cortando a Rússia e, consequentemente todos os seus cidadãos, do Swift demonstra isso claramente. Em um dia, você é um cidadão com todos os seus investimentos custodiados em um banco enorme russo (como por exemplo o Sberbank, que tem tamanho similar ao Itaú ou Bradesco); no outro, você não consegue sacar dinheiro para comprar pão, ou para enviar ao seu filho que está estudando no exterior.

Se isso não o fez pensar em ter o controle sobre ao menos parte do dinheiro que você tem, o que mais o fará?

Por outro lado, vejo também cada vez mais mecanismos para buscar um controle melhor sobre a nossa custódia: carteiras como a Metamask e as hard wallets da Trezor e Ledger, entre outras.

Não estou dizendo que é preciso trocar a custódia de parte dos seus investimentos dos bancos ou corretoras tradicionais para as exchanges de cripto. Essas últimas estão sendo cada vez mais reguladas e, em termos de controle do seu dinheiro, em um futuro não tão longínquo, elas estarão sobre a mesma tutela e regulação que o mercado financeiro tradicional. Se olharmos hoje, é certamente um risco maior ter custódia em uma exchange do que em um grande banco.

Auditoria

Auditoria em cripto tem um foco diferente do que as auditorias de balanço que KPMG, Deloitte, PwC e Ernst&Young fazem nos balanços das empresas do mercado financeiro. O foco das auditorias de DeFi é no código, para tentar encontrar falhas que possam fazê-lo não atuar como deveria ou brechas para agentes se utilizarem para atacá-lo.

Já há uma lista de empresas que fazem isso, além dos “white hackers”, que tentam encontrar falhas e ajudar os protocolos a se ajustarem. Em cripto é tudo código aberto, o que quer dizer que qualquer pessoa do mundo que entenda de código pode olhar e testar.

Um ambiente aberto como esse é muito mais propenso a ser resiliente e se adaptar no longo prazo. O fato de já existirem empresas especializadas para fazer essas auditorias e termos tudo aberto para o mundo ver ajuda muito.

Quem quiser entender mais sobre questões de cybersecurity, ligadas inclusive a cyberwar entre países, aconselho assistir à entrevista do Lex com a jornalista Nicole Perlroth.

Se já temos algo parecido com o FGC, custódia não é um ponto e auditoria já existe (ou é implícita ao processo), então por que esse mercado não tem um crescimento exponencial?

Bem, quem disse que ele não está tendo?

O valor total bloqueado em estruturas que envolvam DeFi já é superior a US$ 200 bilhões, vindo de pouco mais de US$ 25 bilhões no início de 2021.

Ainda há muito a fazer e para crescer. O tempo fará com que muito disso se desenvolva. A experiência do usuário é ainda um desafio importante, assim como as pessoas perceberem que o risco nesta nova infraestrutura do mercado financeiro que DeFi está construindo não é tão maior do que os riscos que temos no mercado financeiro tradicional – ou, ao menos, os riscos são diferentes e devem ser diversificados.

É, antes de tudo, uma forma de expressão da nossa liberdade.

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Bases para este artigo:

Nicole Perlroth: Cybersecurity and the Weapons of Cyberwar | Lex Fridman Podcast #266 – YouTube
Top 10 Blockchain Security and Smart Contract Audit Companies (boxmining.com)
DefiLlama – DeFi Dashboard
InsurAce DeFi Insurance
Nexus Mutual | A decentralised alternative to insurance
Armor.Fi

Gustavo Cunha

Sócio da gestora de ativos digitais Resetfunds, e do portal de educação Fintrender. Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro, foi ex-diretor do Rabobank Brasil, e está há mais de 5 anos no mercado cripto. Escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É um experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal)