Uma IA para cada um: plataformas especializadas para profissionais ganham espaço

IAs criadas para médicos, advogados e arquitetos têm permitido que profissionais aumentem produtividade e possam focar em tarefas mais sofisticadas

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Entre as companhias desenvolvedoras de ferramentas de inteligência artificial, como OpenAI e Anthropic, a corrida da inteligência artificial parece que só será ganha quando uma delas chegar no nível mais avançado de desenvolvimento: uma IA que se atualize e aprimore sozinha. A ideia é que, uma vez alcançado isso, todas as outras ficariam para trás.

No entanto, no cenário atual, ainda longe de uma “Super IA”, a possibilidade de que usuários optem por apenas uma ferramenta parece cada vez mais distante, já que as diferenças de habilidade entre cada uma delas torna a escolha cada vez mais ligada à tarefa que será executada.

É comum ouvir de usuários a troca de plataforma para elaboração de um texto, a organização de uma planilha ou, ainda, a geração de um convite de aniversário, por exemplos.

Segundo analistas, a ideia de que o uso de ferramentas múltiplas se torna cada vez mais parte do cotidiano de cada usuário, seja para organização de vida pessoal ou apoio para realização de tarefas profissionais.

Por isso, a especificidade de cada plataforma tem se tornado um diferencial para que diferentes profissionais possam otimizar tarefas operacionais. Aqui, menos do que terceirização, é a produtividade, medida por realizar tarefas em menos tempo (e não mais tarefas, necessariamente), que entra em campo.

A tendência acompanha a evolução do mercado de IA, que passa a oferecer soluções verticais para segmentos específicos. A proposta principal é automatizar atividades administrativas, liberando tempo para funções estratégicas, criativas e de relacionamento com clientes.

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Apoio ao raciocínio

Advogados, por exemplo, vem encontrando formas de tornar o trabalho mais fluido e também mais eficiente. Entre diversas plataformas que surgiram com esse intuito, a LawAgent, criada para atender escritórios e departamentos jurídicos, surgiu a partir de uma preocupação comum entre profissionais do Direito: evitar erros de fundamentação em documentos jurídicos.

“A LawAgent nasceu de um problema concreto e específico: a elaboração de peças na área tributária, onde um único precedente inventado ou uma citação incorreta pode comprometer uma tese inteira”, afirma Bruno Abreu, advogado tributarista e cofundador da startup jurídica.

A plataforma foi desenvolvida para auxiliar na pesquisa, elaboração, revisão de peças e análise de documentos, com uso apenas de fontes verificáveis e com um sistema claro de sinalização sobre informações que não podem ser confirmadas pela ferramenta. A ideia é que a IA funcione como uma camada de apoio ao raciocínio jurídico, sem retirar do advogado a responsabilidade pela validação final do trabalho.

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Segundo Abreu, o diferencial em relação a ferramentas de inteligência artificial de uso geral está justamente nos mecanismos de controle e rastreabilidade. “Uma ferramenta genérica responde a um comando; a LawAgent conduz um processo jurídico com controles de fundamentação, ancoragem na base do escritório e rastreabilidade de fontes”, diz.

A startup está atualmente em fase de testes e conta com 45 advogados cadastrados. O modelo de cobrança também busca se diferenciar de concorrentes internacionais ao adotar pagamento por consumo, sem custo de implementação, em vez de licenças corporativas por usuário.

Gargalos na arquitetura

No mercado de arquitetura, a inteligência artificial ANA nasceu para atacar o excesso de tarefas administrativas e documentais ao longo do desenvolvimento de um projeto, gargalo de longa data já conhecido por grande parte dos profissionais do ramo.

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Criada pela arquiteta e empresária Renata Pocztaruk, fundadora da ArqExpress, a plataforma começou como uma solução de renderização de imagens com inteligência artificial, mas evoluiu para um sistema mais amplo de gestão de escritórios de arquitetura.

“A inteligência artificial não cria organização do zero. Ela potencializa escritórios que já possuem processos estruturados”, afirma Renata.

Hoje, a ANA reúne ferramentas para geração de imagens, produção de vídeos, criação de moodboards, elaboração de documentos técnicos, controle de projetos, gestão financeira e acompanhamento operacional do escritório.

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Além da automação de tarefas como memoriais descritivos e planilhas de quantitativos, a plataforma usa IA para revisar projetos e identificar possíveis incompatibilidades entre diferentes disciplinas, como arquitetura, marcenaria e instalações, antes do início da execução da obra.

Segundo a fundadora, a principal vantagem está na integração de processos. “Pela primeira vez, o arquiteto consegue concentrar criação, documentação, gestão e operação em um único ambiente, eliminando retrabalho e aumentando significativamente a produtividade.”

Em menos de um ano, a plataforma alcançou mais de 2.500 usuários e gera cerca de 100 mil renders por mês.

Mais atenção ao paciente

Na medicina, a aposta é usar inteligência artificial para reduzir o tempo gasto com registros clínicos e atividades administrativas. Foi a partir dessa necessidade que surgiu o Freud IA, desenvolvido pela Fill Tecnologia.

O projeto nasceu a partir de uma experiência pessoal dos fundadores. Fernando Juriati, responsável pela estratégia da empresa, observou o impacto da documentação manual das consultas na rotina da esposa, a médica psiquiatra Lauren Juriati. Juntos, decidiram criar uma ferramenta que atuasse como um assistente digital para os profissionais de saúde.

A plataforma funciona em três frentes. A primeira realiza a transcrição automática das consultas e organiza o conteúdo em prontuários estruturados. A segunda oferece apoio à tomada de decisão clínica com base em protocolos e evidências médicas. Já a terceira utiliza IA para atendimento de pacientes por WhatsApp e telefone, auxiliando em agendamentos e na recuperação de pacientes inativos.

O conceito é operar como um “assistente invisível”. Enquanto o médico conduz a consulta normalmente, a tecnologia registra e organiza as informações em segundo plano. Ao final do atendimento, a evolução clínica já está pronta para revisão e validação do profissional.

A empresa afirma que o sistema foi desenvolvido para atender exigências regulatórias do setor de saúde e reforça que a decisão clínica continua sendo exclusiva do médico. “A IA sugere e organiza, mas quem decide, valida e assina é sempre o profissional”, afirma Juriati.

Atualmente em fase beta, o Freud IA já está disponível para médicos de especialidades como psiquiatria, neurologia, endocrinologia e oftalmologia.

Apesar das diferenças entre os setores, os três casos refletem um movimento comum: o uso de inteligência artificial automatizar tarefas de baixo valor agregado e aumentar a produtividade. Em vez de substituir profissionais qualificados, as empresas apostam em soluções especializadas capazes de ampliar a eficiência e liberar tempo para atividades em que a atuação humana continua sendo fundamental.

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Camille Bocanegra
Mercados | Mundo | Onde Investir

Camille é jornalista do InfoMoney e atua como repórter de mercados e do Ibovespa Ao Vivo, cobrindo ações brasileiras e internacionais, além de acompanhar o mercado de câmbio. Antes disso, trabalhou na divisão editorial do Research da XP e possui graduação em Direito.