Todo mundo usa IA no currículo — e o RH já não sabe quem é quem

Tecnologia democratizou o acesso a currículos mais bem escritos, mas criou um novo problema para recrutadores: identificar quem realmente possui as competências descritas no papel

Marcelo Monteiro

IA criou uma uma espécie de "padronização algorítmica" do mercado de trabalho (Foto: Inteligência Artificial)
IA criou uma uma espécie de "padronização algorítmica" do mercado de trabalho (Foto: Inteligência Artificial)

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A inteligência artificial resolveu um dos maiores desafios de quem procura emprego: produzir um currículo profissional, bem estruturado e alinhado às exigências das vagas.

Mas, ao fazer isso, criou um problema inédito para recrutadores e empresas. Agora, praticamente todos os candidatos parecem bons.

Dados da pesquisa Talent Trends 2026, da Michael Page, mostram que 73% dos candidatos brasileiros utilizam inteligência artificial para adaptar currículos às vagas desejadas.

Ao mesmo tempo, 55% dos gestores também recorrem à tecnologia para apoiar etapas dos processos de recrutamento.

O resultado é uma espécie de “padronização algorítmica” do mercado de trabalho.

Segundo o levantamento, 39% dos gestores afirmam não ter certeza se os currículos recebidos foram produzidos ou editados por IA.

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Inteligência artificial já é parte da rotina

O fenômeno ocorre em um momento em que a inteligência artificial já se tornou parte da rotina profissional.

Globalmente, 64% dos trabalhadores utilizam IA no trabalho. No Brasil, esse percentual sobe para 71%.

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Na prática, recrutadores começam a enfrentar um desafio oposto ao observado poucos anos atrás.

Se antes era comum descartar candidatos por currículos mal elaborados, hoje a dificuldade é identificar quais profissionais realmente possuem as competências descritas nos documentos.

“O currículo deixou de ser um diferencial”, resume a tendência apontada pela pesquisa.

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O RH procura novas formas de avaliação

Diante desse cenário, empresas vêm ampliando o uso de avaliações práticas, simulações de situações reais de trabalho e entrevistas mais estruturadas.

A mudança acontece justamente porque o currículo tradicional perde capacidade de distinguir candidatos.

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O movimento é reforçado por outra descoberta do estudo: a maior dificuldade das empresas já não é encontrar profissionais com formação adequada, mas pessoas com habilidades humanas consideradas difíceis de reproduzir por algoritmos.

Entre os gestores brasileiros, 57% apontam a escassez de habilidades como principal desafio de contratação. Globalmente, esse índice é de 39%.

As competências mais procuradas atualmente são comunicação (49%), adaptabilidade (48%) e habilidades interpessoais (45%).

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A conclusão é simbólica.

Enquanto a tecnologia ajuda milhões de profissionais a escrever melhor, organizar experiências e estruturar argumentos, as empresas passam a valorizar justamente características que não aparecem facilmente em um currículo.

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O fim da carreira linear

A pesquisa aponta que o mercado de trabalho atravessa uma transformação estrutural impulsionada por três forças simultâneas: o avanço acelerado da inteligência artificial, a escassez de habilidades críticas e a mudança nas prioridades dos profissionais.

No total, foram ouvidos 60 mil profissionais em 36 países, incluindo o Brasil.

Nesse contexto, cresce a valorização de competências ligadas à capacidade de aprender, se adaptar e lidar com ambientes em constante mudança.

Apesar disso, o Brasil ainda está atrás de outros mercados nessa transformação.

Apenas 21% dos líderes brasileiros afirmam priorizar competências em detrimento da formação acadêmica ou do histórico profissional.

No mundo, 98% das empresas que adotam modelos de contratação baseados em competências relatam benefícios concretos.

O cenário sugere que o futuro do recrutamento poderá depender menos de currículos impecáveis e mais da capacidade das empresas de identificar talentos reais em meio a uma crescente massa de candidatos auxiliados por inteligência artificial.

A ironia é que a mesma tecnologia que ajudou milhões de profissionais a melhorar seus currículos pode acabar acelerando o declínio do currículo como principal ferramenta de seleção.

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Marcelo Monteiro

Formado em Jornalismo pela UFSM, Marcelo Monteiro atua há mais de 30 anos na imprensa. Trabalhou em veículos como Zero Hora, Correio Braziliense, Gazeta Mercantil, Hoje em Dia e Diário Catarinense. É autor dos livros "U-507" (2012) e "U-93" (2014) e dirigiu os documentários "Delírios" (2021) e "Além do Limite" (2022).