Mesmo desconfiada, baixa renda movimenta R$ 620 bilhões por ano no comércio

Para Renato Meirelles, esses brasileiros ainda têm pontecial de se tornar consumidores, mas ainda temem contrair dívidas

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SÃO PAULO – “O Brasil vem sofrendo mudanças profundas em sua estrutura de consumo. A inversão da pirâmide de renda colocou milhões de brasileiros no universo da compra”. Esses brasileiros são considerados de baixa renda, mas, quando se fala em consumo, os números ganham corpo, afinal, esses consumidores representam 76% do consumo geral, 79% do consumo de alimentos e movimentam com compras, por ano, R$ 620 bilhões.

A afirmação e os dados são do publicitário e sócio-diretor da agência Avenida Brasil, Renato Meirelles, que discutiu as questões do consumidor de baixa renda em seminário realizado e organizado pelo Canal Executivo na última quarta-feira (25), em São Paulo.

O publicitário coordenou uma pesquisa que detectou que a nova classe média brasileira pertence às camadas C, D e E, mas quem puxa o consumo e sustenta esse novo cenário é a classe C, cuja renda média mensal é de R$ 1,9 mil. “A classe C ganhou 20 milhões de pessoas nos últimos anos”, afirma Meirelles.

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Por isso, ele atenta para o fator de que investir na potencialidade desse consumidor é o caminho para qualquer ramo do varejo. É preciso, para isso, destacar as diferenças no comportamento desses brasileiros com relação ao consumo. “A alta renda compra para ser diferente. A baixa renda consome para fazer parte, é uma forma de sociabilização, ela tem necessidade de inclusão”.

Um consumidor desconfiado

A dificuldade em ter uma renda que supra suas necessidades básicas fez desses brasileiros consumidores mais conservadores. Para Meirelles, eles são naturalmente desconfiados.

Esse temor aumenta em tempos de crise. Sinal disso é a menor demanda por crédito. “O problema do crédito no Brasil não é falta de oferta, mas a queda da demanda”, afirma.

Outro dado que reflete essa desconfiança está relacionado aos cartões de crédito. Cerca de 69% dos cartões estão nas mãos desses consumidores; são mais de 86 milhões de cartões. No entanto, Meirelles constatou que eles temem em utilizar a moeda de plástico.

Essa desconfiança tem um fundamento básico: o medo de contrair dívidas. Para barrar essa desconfiança, Meirelles atenta que o varejo, de forma, geral, deve dar alternativas. “Esses consumidores precisam de estímulo para consumir”.

Um consumidor em potencial

Para Meirelles, esses brasileiros ainda têm alto potencial para se tornarem consumidores ativos. Ele lembra que, além do crédito, a alta dos rendimentos acima da inflação e os programas de distribuição de renda são ferramentas que ajudam esses brasileiros a consumir.

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Somente neste ano, o aumento de 12% do salário mínimo injetou quase R$ 21 bilhões a mais na economia brasileira. O programa Bolsa Família, injetou em 2008 outros R$ 11 bilhões. Meirelles lembra que essas medidas, que atingem com maior intensidade as classes mais baixas, estimulam o consumo.

Segundo ele, no entanto, apesar do montante que movimentam, esses brasileiros ainda não sabem consumir. “Eles estão tendo dificuldades em consumir, ninguém ensinou isso a eles. Milhões já têm bolso de classe média, mas cabeça de baixa renda”, constata.