EUA e Brasil: crise afeta orçamento e muda planos de aposentadoria da população

No Brasil, movimento de adiar aposentadoria não foi delineado por crise, mas é reforçado por ela, diz planejador financeiro

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SÃO PAULO – A crise financeira mexe direta ou indiretamente com o bolso da população. Com menos dinheiro disponível ou com entraves ao mercado consumidor – como o encarecimento do crédito -, o que se percebe é que as pessoas passam a alongar o tempo de trabalho, postergando a aposentadoria para poder arcar com suas despesas.

Nos EUA, devido à crise financeira internacional, os aposentados que planejavam ‘pendurar as chuteiras’ irão adiar a decisão. Pelo menos é isso que aponta pesquisa realizada pela associação de aposentados do país (AARP), entre os dias 3 e 21 de setembro, com um grupo de 1.628 profissionais com mais de 45 anos de idade.

No Brasil, de acordo com o planejador financeiro pessoal Augusto Saboia, o movimento de postergar a saída do mercado de trabalho “não foi delineado pela crise”. Porém, deve ser incentivado por ela.

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“Aqui, é um grande problema manter a pessoa de 65 anos empregada, e a de 17 anos também. O mais novo não está conseguindo entrar no mercado de trabalho porque o de 65 anos não está saindo. Ele pode render com tranqüilidade mais 10 anos. Esse cara não se sente confortável em ficar em casa”. O motivo para isso é a situação financeira.

Realidade Brasil

Há muitos anos, o Brasil viveu com uma inflação que não permitia às pessoas pensarem no longo prazo. O dinheiro perdia valor rápido. Não compensava guardá-lo. Por isso, poucas são as pessoas no País com idade de se aposentar que realmente poderão contar com uma situação financeira tranqüila na vida pós-trabalho, porque têm um investimento garantido.

A situação é diferente para quem, por exemplo, comprou imóveis para alugar ou sempre trabalhou na esfera pública, que dá garantias de uma aposentadoria mais robusta. “As pessoas têm a Previdência Social, mas ela funciona apenas para quem ganha até R$ 2 mil. Quanto mais distante o salário é do benefício, mais se precisa de um complemento”, disse Saboia.

Exatamente por estes problemas financeiros é que muitos brasileiros buscam alternativas depois da aposentadoria. Alguns se mantêm no emprego que ocupavam. Outros abrem empresas. Neste caso, a crise afeta pela dificuldade de obtenção de crédito, tanto para quem quer abrir quanto para quem já está com ela em funcionamento.

Aqueles que foram para o lado das consultorias, por sua vez, presenciam uma situação de projetos parados por parte das empresas. “Muitos processos das empresas estão suspensos até o final do ano. Então, este grupo também está com dificuldades por causa da crise”, afirmou o planejador financeiro pessoal.

A crise e o bolso

A decisão de continuar no mercado de trabalho é acentuada pela crise por dois grandes motivos, na opinião de Saboia. O primeiro deles é que quem investia, ou ainda investe, em renda variável teve perdas muito grandes. “A pessoa que estava na Bolsa de Valores está de 30% a 40% mais pobre do que a que não estava”, ponderou.

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O segundo é por meio de empregos. A crise, de certa maneira, deve desacelerar a criação de novos postos de trabalho já no próximo ano. Por isso, quem tem emprego garantido na família terá a função de ajudar financeiramente os demais.

Assim, até quem tinha condições de sair do mercado de trabalho e desfrutar do merecido descanso acaba ficando preso a ele, por causa da situação financeira pessoal ou da família.

A situação nos EUA

Nos EUA, o desafio de se preparar adequadamente para a aposentadoria estava sendo vencido com dificuldade nos últimos anos, devido à maior expectativa de vida, ao menor número de empresas oferecendo benefícios e Wall Street preparando surpresas. Este desafio se tornou ainda mais difícil, quando começou a turbulência.

Para se ter uma idéia, de acordo com a pesquisa feita pela associação de aposentados do país, se a economia não crescer significantemente, seis em dez pessoas com idade acima de 45 anos disseram que irão gastar menos na aposentadoria, mesma proporção dos que irão adiar a aposentadoria e trabalhar mais. Outros 37% disseram que irão guardar mais para a aposentadoria.

Por causa das mudanças na economia, nos 12 meses que se passaram, 24% dos profissionais com mais de 45 anos aumentaram as horas de trabalho e 20% deixaram de colocar dinheiro em suas contas de aposentadoria. Mais da metade dos respondentes disseram que não guardaram o suficiente para viver com tranqüilidade, depois de pararem de trabalhar.

Enfim, 63% dos profissionais que trabalham em um local que não oferece um plano de aposentadoria disseram que eles usariam o plano, se o empregador o disponibilizasse.