Busca por rentabilidade sem recuperação econômica irá reduzir salários, diz analista

Visando bons resultados, empresas poderão segurar ordenados de seus funcionários; "situação social ficará ruim"

SÃO PAULO – Se os investidores não começarem a se contentar com retornos menores nas ações, a situação ficará difícil nas sociedades dos EUA, Europa e Japão. A frase, de Patrick Artus, fornece uma visão diferente sobre a recuperação das bolsas, passando a olhar sob o ponto de vista do mercado de trabalho.

De acordo com o analista econômico da Natixis, caso a demanda por retorno das ações continue no mesmo patamar de antes da crise, a duradoura desaceleração da economia forçará as empresas a reduzir ainda mais seus custos, de forma a manter a rentabilidade.

Como ocorrido no Japão e na Alemanha na última década, o espaço para se readequar a essas maiores exigências de rendimento costuma ser aberto através do mercado de trabalho, ampliando a demissão de funcionários e organizando novos cortes nos salários.

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“Isso deixará o quadro social ainda mais difícil nos EUA, Europa e no Japão”, ressaltou Patrick Artus, que defendeu que a única maneira de não ocorrer tal distorção seria os acionistas diminuírem suas demandas por retorno nas ações, pelo menos enquanto a economia real não se recuperar por completo nas principais regiões do globo.

Combinação possível

“Percebo que, de certo modo, o crescimento econômico está sendo subjulgado”, comentou o analista, que explicou: “quando o crescimento é anêmico, a inércia nos custos fixos normalmente significa que a lucratividade das empresas é baixa, a menos que ocorra uma redução nos salários”.

Patrick Artus lembra que dois exemplos podem comprovar a teoria, já tendo passado por uma situação semelhante: tanto no Japão, quanto na Alemanha desde 1995 o aumento na lucratividade das empresas ocorreu contrário à queda do PIB (Produto Interno Bruto) e foi coadjuvante à redução nos ordenados médios.

“Essa é definitivamente a única maneira de manter a rentabilidade alta nas empresas em tempos de estagnação”, completou o analista econômico.