Startups: Ex-Rappi cria startup de IA para digitalizar oficinas mecânicas

A mexicana Pitz quer ser o “sistema operacional” de oficinas automotivas, reunindo diagnóstico, gestão, marketplace de peças e logística em uma única plataforma

Startups Gabriela Del Carmen

Natália Salcedo, fundadora e CEO da Pitz (Crédito: Divulgação/Pitz)
Natália Salcedo, fundadora e CEO da Pitz (Crédito: Divulgação/Pitz)

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A startup mexicana Pitz desembarcou oficialmente no Brasil com a proposta de digitalizar oficinas mecânicas usando inteligência artificial. Fundada pela ex-executiva da Rappi Natália Salcedo, a empresa quer se tornar uma espécie de “sistema operacional” para oficinas automotivas, reunindo diagnóstico, gestão, marketplace de peças e logística em uma única plataforma.

A operação brasileira começou oficialmente em outubro do ano passado e, neste primeiro momento, está concentrada na região metropolitana de São Paulo. A startup atende oficinas na capital paulista, ABC, Guarulhos, Osasco e Jundiaí. Ao todo, são 13 funcionários no Brasil e cerca de 20 pessoas na equipe mexicana.

A chegada ao país faz parte da estratégia de expansão da companhia, que nasceu no México e vê o Brasil como um dos mercados mais importantes – e mais desafiadores – da América Latina. “O Brasil tem uma complexidade geográfica e cultural muito diferente”, diz Natália, em entrevista ao Startups. “Se conseguirmos fazer esse produto funcionar aqui, conseguimos fazer funcionar em qualquer lugar do mundo.”

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O movimento foi impulsionado por uma rodada de US$ 2,1 milhões anunciada há cerca de sete meses. O investimento foi feito por fundos globais como Hustle Fund, Marathon Ventures, 500 Startups e Cracks Fund, além de investidores-anjo ligados ao automobilismo, incluindo nomes da Fórmula 1.

Segundo a executiva, novas rodadas estão no radar, embora detalhes sobre valores, investidores e timing sigam guardados a sete chaves. Entre risadas e respostas cuidadosamente contidas, Natália preferiu não entrar no assunto, mas deixou escapar um “vocês vão saber em breve”, sugerindo que novidades podem ser anunciadas nas próximas semanas.

Construindo o produto

A tese da Pitz é centralizar operações que normalmente ficam espalhadas em diferentes sistemas. A startup combina software de gestão, marketplace de peças, soluções de logística, assistente por voz e comunicação com clientes em uma única plataforma.

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Segundo Natália, o problema do setor automotivo hoje não está apenas na baixa digitalização, mas também na fragmentação das ferramentas usadas pelas oficinas. “Muitas vezes o mecânico precisa usar uma plataforma para gestão do cliente, outra para nota fiscal, outra para encontrar peças e outra para logística. A gente faz o processo end-to-end”, explica.

A startup atende desde oficinas independentes até grandes redes automotivas, além de revendedores e fabricantes de peças. Ao todo, são mais de 1.400 oficinas cadastradas e um catálogo com mais de 1 milhão de SKUs automotivos. Para 2026, a meta é ultrapassar 8 mil oficinas conectadas à plataforma e ampliar ainda mais a operação de marketplace.

A inteligência artificial aparece como peça central da estratégia da startup, com o objetivo de reduzir o tempo de diagnóstico dos veículos e diminuir erros nos reparos. A plataforma usa um assistente virtual chamado João, criado para conversar diretamente com os mecânicos durante o processo de análise do veículo. A ideia é transformar interações por voz em diagnósticos mais rápidos e precisos.

“O mecânico sempre está com as mãos ocupadas. Então, para ele, é muito mais fácil simplesmente falar”, afirma a executiva. “Você conversa com o sistema, faz o diagnóstico, encontra as peças e organiza o processo inteiro.”

Além do diagnóstico, a startup também atua na busca e entrega de peças automotivas. No México, a companhia opera uma logística própria após adquirir uma empresa local do setor. No Brasil, porém, a distribuição é feita por meio de parceiros. Dependendo da região, a empresa afirma conseguir entregar peças em até 90 minutos.

Rumo à internacionalização

Antes de empreender, Natália trabalhou em operações internacionais da Rappi e da Jokr (startup de entregas rápidas que opera como a Daki no Brasil) – experiências que influenciaram a forma como a Pitz conduz sua expansão internacional.

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Segundo a executiva, um dos erros mais comuns de empresas latino-americanas é tentar replicar modelos de um país para outro sem adaptação cultural. Ela relembra, por exemplo, situações vividas na Rappi em que produtos eram simplesmente “copiados” entre mercados sem considerar hábitos locais. “Você não pode chegar em outro país achando que já sabe como tudo funciona”, afirma.

Por isso, a Pitz opera com equipes locais em cada mercado. Segundo Natália, toda a equipe brasileira é formada por profissionais do país, enquanto o time mexicano também passa por treinamento em português para facilitar a integração.

Agora consolidada nos maiores mercados latino-americanos, a startup já definiu seu próximo alvo internacional: o mercado norte-americano. “É um mercado ainda maior e mais complexo, mas é um próximo passo natural”, diz.

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Transformando o ecossistema

Fundadora solo da Pitz, Natália diz que construir uma startup na América Latina também envolve enfrentar barreiras estruturais do ecossistema de tecnologia. Segundo a executiva, apenas cerca de 2% do capital de venture capital global vai para mulheres – e, quando o recorte considera mulheres latinas, esse percentual se aproxima de zero. Para ela, abrir espaço para outras empreendedoras da região se tornou uma das principais motivações da companhia.

A inspiração inicial para atuar no setor veio da Fórmula 1. Natália conta que começou a se interessar pelo tema enquanto assistia ao documentário sobre Ayrton Senna e ficou impressionada com a capacidade do piloto de identificar problemas no carro apenas pelo som do motor. A partir disso, passou a investigar se existia alguma tecnologia capaz de reproduzir esse tipo de diagnóstico para mecânicos comuns – ideia que mais tarde daria origem à Pitz.

A escolha pelo setor automotivo adiciona outra camada ao desafio. Tradicionalmente masculino, o mercado de oficinas ainda enfrenta problemas de confiança e transparência na relação com consumidores. Por isso, a startup deseja criar uma espécie de selo de confiabilidade para as oficinas parceiras, em um modelo que a Natália compara ao posicionamento da Verisure no mercado de segurança residencial. A proposta é usar tecnologia e padronização para ampliar a transparência dos serviços prestados.

Startups

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