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TÓQUIO — Por mais de três décadas, Noboru Watanabe vestiu o uniforme do assalariado japonês: calças, camisa engomada, paletó e gravata.
Mas, na semana passada, Watanabe, de 53 anos, funcionário da área ambiental em Tóquio, trocou esse traje por algo antes inimaginável: uma camiseta e um par de shorts cáqui. Ele estava aproveitando uma nova política do governo de Tóquio que permite aos funcionários usar shorts no escritório, após sucessivos verões de calor recorde.

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“Todo mundo diz que eu pareço mais jovem”, afirmou Watanabe, perto de sua mesa, em uma tarde recente. “Parece que sou mais acessível. Sinto que estou ajudando a deixar o escritório inteiro mais descontraído.”
A política é a mais recente tentativa de autoridades japonesas de convencer os milhões de trabalhadores de escritório do país a se vestirem de forma mais casual no verão, para tornar a rotina mais confortável, reduzir o uso de ar-condicionado e economizar energia.
Dentro da iniciativa “Cool Biz”, o governo incentiva os trabalhadores a deixarem de lado os ternos pesados e optarem por camisas polo, peças de linho e tênis durante o clima quente.
Mas os shorts, liberados neste verão, são um passo longe demais para alguns. A medida gerou debate no Japão — e inspirou conversas delicadas nos escritórios sobre etiqueta e sobre como lidar com a visão das pernas peludas de colegas.
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A imprensa japonesa chegou a cunhar um novo termo — sune-hara, ou “assédio dos pelos da perna” — para descrever o sentimento de incômodo que algumas mulheres relatam ao serem obrigadas a ver as pernas de seus colegas homens.
Ruai Sajiki, de 23 anos, funcionária do governo de Tóquio, reconheceu que ver pernas à mostra em um ambiente profissional pode ser desconcertante para algumas mulheres. Mas deu sua aprovação quando Watanabe, seu supervisor, perguntou se ela se importaria caso ele usasse shorts no escritório.
“Eu já vi as pernas do meu próprio pai, então pessoalmente não me incomoda”, disse ela. “Não tem como evitar que existam muitas opiniões, e algumas mulheres sintam resistência.”
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Alguns comentaristas argumentam que a política, embora oficialmente valha tanto para homens quanto para mulheres, é injusta. Enquanto os homens raramente são julgados pelo que vestem no trabalho, as mulheres ainda enfrentam pressão para cobrir as pernas com meia-calça — ainda comum no Japão — ou saias longas.
Atsuko Tamada, professora de literatura francesa na Universidade Chubu, no Japão, e comentarista online, disse que se espera que as mulheres gastem tempo e dinheiro consideráveis com depilação, cuidados com os pés e vestuário.
“Se agora os homens são incentivados a usar shorts ou sandálias”, disse ela, “os mesmos padrões de aparência deveriam se aplicar a eles?”
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O “Cool Biz” foi introduzido pelo Ministério do Meio Ambiente do país em 2005 e hoje se espalhou por quase todos os locais de trabalho no Japão, com diferentes níveis de entusiasmo. A iniciativa coincidiu com os compromissos assumidos pelo Japão no âmbito do Protocolo de Kyoto, o acordo internacional de 1997 para reduzir gases de efeito estufa.
Yuriko Koike, que comandava o ministério na época e foi eleita governadora de Tóquio em 2016, disse que a medida é importante por causa do aumento acelerado das temperaturas e das interrupções no fornecimento de energia causadas pela guerra no Irã.
“Gradualmente ficamos sem camadas para tirar”, afirmou ela em uma entrevista coletiva em abril, “até chegarmos ao ponto de usar shorts.”
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No Japão, os ambientes de trabalho do governo ajustam os termostatos para 28 graus Celsius, em linha com os padrões nacionais, entre maio e setembro. O verão passado foi o mais quente já registrado, com temperaturas cerca de 4 graus acima das médias históricas. Neste ano, a Agência Meteorológica do Japão introduziu um novo termo para dias sufocantes acima de 40 graus Celcius: kokushobi, ou “dias cruelmente quentes”.
A adesão aos shorts trouxe benefícios ao varejo. Algumas lojas começaram a vender shorts especificamente para o escritório, com tecidos leves, cortes formais e cores neutras.
A Yofuku no Aoyama, importante varejista japonesa de roupas sociais, está promovendo neste verão uma linha de roupas “Cool Biz”, incluindo shorts de náilon.
Yui Hamano, porta-voz da empresa, disse que a companhia tomou cuidado especial para garantir que os shorts fossem apropriados para o escritório, testando inclusive como ficariam quando a pessoa estivesse sentada.
“Prestamos muita atenção ao comprimento para garantir que não mostrassem pele demais”, disse ela.
Autoridades reconhecem que levará tempo até que os shorts sejam amplamente aceitos nos escritórios do Japão. Durante uma visita recente a um escritório no prédio do Governo Metropolitano de Tóquio, em uma tarde abafada, apenas 11 dos 70 funcionários homens usavam a peça.
Toshio Suzuki, de 57 anos, está entre os que adotam uma postura cautelosa.
Suzuki, funcionário da área de relações públicas, foi trabalhar recentemente usando uma calça esportiva ajustada. Ele disse ter raspado as partes dos tornozelos que ficavam expostas, para mostrar que se preocupava com higiene e aparência.
Suzuki afirmou que ainda não se atreve a usar shorts porque não quer ofender as colegas mulheres. Suas escolhas de vestuário são orientadas pela esposa, disse ele, que o aconselha a manter cuidados adequados com a pele e a se vestir de maneira apropriada para sua idade.
“No Japão, as pessoas não têm uma imagem positiva, máscula, de pernas peludas”, afirmou. “Eu não sou muito peludo. Mas tomo cuidado. Não quero parecer desleixado.”
c.2026 The New York Times Company