Cook deixa cargo de CEO, mas seguirá influente na Apple como o “encantador de Trump”

Mesmo após deixar o comando da Apple, executivo permanecerá como presidente do conselho executivo, responsável por conduzir as relações da empresa com Donald Trump e o governo chinês

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o então CEO da Apple, Tim Cook, durante uma reunião na Casa Branca em 2019. Cook acabaria ganhando um apelido à altura de sua relação com o presidente: “o encantador de Trump” (Trump whisperer). Foto: Al Drago/Bloomberg/Getty Images
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o então CEO da Apple, Tim Cook, durante uma reunião na Casa Branca em 2019. Cook acabaria ganhando um apelido à altura de sua relação com o presidente: “o encantador de Trump” (Trump whisperer). Foto: Al Drago/Bloomberg/Getty Images

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Tim Cook pode ter deixado o comando da Apple, mas a empresa não pretende afastar seu executivo mais longevo tão rápido.

Cook, que transferiu o cargo de CEO para o veterano chefe de hardware John Ternus na terça-feira (1º), permanecerá como presidente executivo (executive chair) da companhia, recebendo um salário anual de US$ 2 milhões a partir de 26 de setembro. No novo cargo, ele continuará auxiliando a Apple em algumas frentes estratégicas, incluindo o relacionamento com formuladores de políticas públicas ao redor do mundo, informou a empresa quando anunciou a mudança, em abril.

Parte da razão para a permanência de Cook é que, ao longo de seus 15 anos à frente da Apple, ele se tornou uma espécie de “encantador de Trump” (Trump whisperer), desempenhando papel-chave na gestão da relação da empresa com o presidente dos Estados Unidos. O apelido surgiu por sua habilidade em negociar acordos e manter uma relação estável com Trump, algo que ficou evidente tanto nas negociações sobre tarifas quanto durante o processo de sucessão na companhia.

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Segundo a Bloomberg, Cook continuará administrando não apenas o relacionamento com Trump, mas também com o governo chinês. Essas conexões se tornaram cada vez mais importantes para a Apple, cuja extensa cadeia de suprimentos na Ásia a coloca no centro dos esforços de Trump para trazer mais manufatura aos Estados Unidos, ao mesmo tempo que a obriga a navegar pelas tensões entre Washington e Pequim.

Sua remuneração não se limitará ao salário anual de US$ 2 milhões. De acordo com documentos regulatórios, Cook também recebeu uma concessão de ações com valor-alvo de US$ 45 milhões.

Cook deixou o cargo de CEO após 15 anos no comando da Apple. Ele assumiu a liderança da empresa pouco antes da morte do cofundador Steve Jobs, em 2011. Durante sua gestão, o valor de mercado da companhia saltou de cerca de US$ 347 bilhões para US$ 4,6 trilhões, enquanto a empresa enfrentava desafios ligados a produtos, operações e, cada vez mais, questões governamentais.

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Como Tim Cook se tornou o “encantador de Trump”

Cook descobriu cedo como obter acesso direto ao presidente.

“Ele é quem me liga”, disse Trump a jornalistas em 2019, ao ser questionado sobre por que tinha uma relação melhor com Cook do que com outros executivos de tecnologia.

Na época, as tarifas comerciais eram um problema. Trump afirmou que Cook argumentava que sobretaxas sobre produtos da Apple fabricados na China colocariam a empresa em desvantagem frente à concorrente sul-coreana Samsung.

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Essa relação voltou a ser testada após o retorno de Trump à Casa Branca. Em fevereiro de 2025, a Apple anunciou um plano para investir US$ 500 bilhões nos Estados Unidos ao longo de quatro anos, incluindo a contratação de 20 mil trabalhadores.

Mas o acesso privilegiado de Cook não significava que a Apple sempre conseguia o que queria. Em maio de 2025, Trump passou a criticar a companhia à medida que ela ampliava a produção de iPhones na Índia, parte de sua estratégia para reduzir a dependência da China.

“Tive um pequeno problema com Tim Cook ontem”, afirmou Trump na época, ao relatar uma conversa com o CEO.

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O presidente disse ter informado a Cook que não queria ver a Apple expandindo a produção na Índia e preferia que a empresa fabricasse mais produtos nos Estados Unidos. Poucos dias depois, Trump ameaçou impor uma tarifa de pelo menos 25% sobre iPhones vendidos no mercado americano, mas fabricados fora do país.

Três meses depois, Cook estava novamente no Salão Oval ao lado de Trump. Na ocasião, entregou ao presidente uma placa de vidro personalizada com a inscrição “Made in USA”, montada sobre uma base de ouro 24 quilates.

Em agosto de 2025, a Apple anunciou mais US$ 100 bilhões em investimentos na indústria americana, elevando seu compromisso total para US$ 600 bilhões ao longo de quatro anos.

O momento foi decisivo. Trump preparava uma tarifa de cerca de 100% sobre semicondutores importados, mas afirmou, durante o evento na Casa Branca, que empresas que investissem nos Estados Unidos ficariam isentas da cobrança.

Relação vai além da Casa Branca

O trabalho de Cook não se limita ao governo americano. Apesar de ter transferido parte de sua produção para outros países asiáticos, a Apple continua dependente da Ásia para manufatura.

Isso torna a empresa sensível à relação entre as duas maiores economias do mundo. Cook passou anos administrando os laços da Apple com Pequim e, neste ano, esteve entre os executivos americanos cotados para acompanhar Trump em uma viagem à China durante um encontro com o presidente Xi Jinping.

O próprio Trump já explicou por que acredita que a relação entre os dois perdurou.

Quando Cook anunciou, em abril, que deixaria o cargo de CEO, o presidente relembrou a primeira ligação que recebeu do executivo durante seu primeiro mandato.

“Quando recebi a ligação, pensei: ‘Uau, é o Tim Apple (Cook!) me ligando’”, escreveu Trump na rede Truth Social, fazendo referência ao episódio em que se referiu erroneamente ao executivo como “Tim Apple”.

Trump disse que aquele foi o início de “uma longa e muito boa relação”. Segundo ele, Cook continuou ligando ao longo dos anos, mas “sem exageros”, e sempre contou com sua disposição para ajudar quando possível.

“O que eu faço é atuar em políticas públicas, não em política partidária”, disse Cook ao programa Good Morning America, da ABC, em março deste ano. “Meu foco são as políticas.”

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