McKinsey alerta que domínio chinês de terras raras ameaça indústria e defesa dos EUA

Essenciais para carros elétricos, mísseis, turbinas e caças, esses minerais se tornaram uma arma estratégica de Pequim

Nick Lichtenberg Fortune

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping (Foto: Brendan Smialowski/Pool/Getty Images/Fortune)
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping (Foto: Brendan Smialowski/Pool/Getty Images/Fortune)

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A história do calcanhar de Aquiles não começa com uma flecha. Começa com uma mãe que acreditava poder criar a invulnerabilidade.

Tétis mergulhou o filho recém-nascido no rio Estige para torná-lo imortal, segurando-o pelo calcanhar — o único ponto que a água nunca tocou. Aquiles cresceu e se tornou o maior guerreiro de sua época, com uma armadura impenetrável e inimigos derrotados. Ninguém se preocupava com o calcanhar. Por que se preocupar? Todo o resto funcionava tão bem.

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A história industrial dos Estados Unidos segue o mesmo roteiro. Décadas de liderança em semicondutores, fabricação aeroespacial sem rival e a cadeia de suprimentos de defesa mais sofisticada da história — e, por baixo de tudo isso, um único tendão exposto.

As terras raras: os 17 elementos quimicamente semelhantes que fazem motores elétricos girarem com eficiência, mantêm estáveis as aletas de direção de mísseis em velocidades supersônicas e estão dentro de cada F-35, de cada sistema de propulsão de veículos elétricos e de cada nacele de turbina eólica. Durante anos, quase ninguém se preocupou com isso. Todo o resto funcionava tão bem.

Analistas da McKinsey & Company passaram os últimos anos desenhando o contorno dessa ferida. A consultoria projeta um déficit de até 30% no fornecimento global de terras raras magnéticas até 2035 — a menos que a China amplie drasticamente sua produção ou o restante do mundo acelere fortemente a oferta.

No caso do disprósio e do térbio, as terras raras pesadas que impedem a desmagnetização de ímãs em motores elétricos e sistemas de orientação de mísseis, os números são ainda piores: produtores fora da China devem atender menos de 20% da demanda global por esses dois elementos até 2035. Estimativas semelhantes vêm da CRU Group e da Benchmark Mineral Intelligence.

O rio usado por Tétis não era mágico. Era estratégia.

Como a China passou a dominar

Terras raras não são particularmente escassas na crosta terrestre — o nome é enganoso. O que as torna insubstituíveis é o fato de serem quase impossíveis de separar umas das outras e das rochas ao redor de maneira limpa.

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A química necessária é tóxica, cara e tecnicamente complexa. A China não venceu a corrida das terras raras por ter mais minério. Venceu por dominar o refino — e por decidir, décadas atrás, que queria fazer isso.

Essa decisão tinha nome. A doutrina da “dupla circulação” do presidente Xi Jinping — tornar o mundo dependente da China enquanto protege a própria China da dependência externa — encontrou nas terras raras e nos ímãs permanentes sua prova de conceito muito antes de virar política oficial.

“Eles não chegaram a isso por acaso”, disse a economista Soumaya Keynes à Fortune no início deste mês. “Eles estudaram essas cadeias de suprimentos. Tinham uma estratégia para se tornar líderes mundiais.”

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Keynes e seu coautor Chad Bown, pesquisador sênior do Peterson Institute for International Economics, defendem essa tese em “How to Win a Trade War” (Como ganhar uma guerra comercial, em tradução literal), livro lançado nesta primavera no hemisfério norte. Enquanto os Estados Unidos reforçavam todo o resto, a China estudava o calcanhar.

Aquiles foi para a batalha mesmo assim. A indústria americana também.

Durante uma geração, Washington seguiu uma versão da lógica de Aquiles: a armadura era boa o bastante. Os Estados Unidos despejaram bilhões no Chips Act para ampliar a produção doméstica de semicondutores, mas nunca obrigaram ninguém a comprar os chips.

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“Eles não forçaram ninguém a realmente comprar os chips que a Intel produziria”, disse Keynes. “E isso foi um problema.” A história das terras raras repete essa falha estrutural, mas em um nível estratégico ainda maior: a oferta recebeu financiamento, a demanda foi presumida e a cadeia nunca se fechou completamente.

“A diversificação significativa levará mais tempo do que muitos imaginam”, disse Michel Van Hoey, sócio sênior da McKinsey responsável pela área de metais e mineração da empresa, à Bloomberg no início deste mês.

Qualquer indústria nascente de terras raras nos Estados Unidos é pequena o suficiente para que Pequim simplesmente inunde o mercado com material barato e espere os concorrentes desistirem.

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Essa tática levou ao fim da Molycorp — antes considerada a grande esperança da independência americana em terras raras — cuja mina de Mountain Pass pediu recuperação judicial em 2015, antes de o Pentágono compreender plenamente o que havia perdido.

Os produtores chineses de terras raras, muitos deles estatais, não buscam maximizar retornos trimestrais. Eles executam objetivos nacionais.

“Essas empresas não estão apenas maximizando lucros”, disse Bown à Fortune. “Elas estão alcançando outros objetivos em nome do governo chinês.”

Aquiles tinha inimigos que o estudavam. Os Estados Unidos têm um rival que estudou a cadeia de suprimentos.

Washington finalmente se move

Então veio a flecha.

A China controla cerca de 70% da mineração global de terras raras e quase 90% da capacidade de refino e processamento — o verdadeiro gargalo.

Quando Pequim impôs controles de exportação sobre samário, disprósio e térbio em resposta às tarifas do presidente Donald Trump no ano passado, montadoras americanas alertaram que estavam a poucas semanas de interromper linhas de produção.

Uma trégua em novembro afrouxou parcialmente o fluxo. Mas novas restrições contra o Japão no início de 2026, após declarações da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi sobre Taiwan, provocaram outro abalo nas cadeias de suprimento de ímãs que abastecem desde caças F-35 até picapes Ford F-150 Lightning.

A flecha, quando finalmente veio, atingiu exatamente o ponto sobre o qual todos haviam sido avisados para não se preocupar.

O veterano da mineração Mick McMullen resumiu a situação à Fortune durante um fórum sobre minerais críticos em Singapura, em março: “Claramente, a China é a líder, e os Estados Unidos estão muito atrás. É um pouco inacreditável que tenha levado tanto tempo para todos perceberem que talvez devêssemos produzir algumas dessas coisas dentro de casa.”

Aquiles, no fim, tentou continuar lutando.

Washington começou a reagir — agressivamente, pelos seus próprios padrões. O Departamento de Defesa agora é o maior acionista da MP Materials, operadora da única mina ativa de terras raras dos Estados Unidos, em Mountain Pass — o mesmo local na Califórnia abandonado pela Molycorp.

O governo assinou um acordo de US$ 8,5 bilhões em terras raras com a Austrália em outubro, fechou acordos com a Malásia e a Tailândia e, segundo relatos, avalia redirecionar US$ 2 bilhões de recursos do Chips Act para minerais.

Trump ampliou os créditos tributários do Chips Act de 25% para 35% e adquiriu participações acionárias em empresas privadas, incluindo a Intel — uma estratégia industrial fragmentada que Keynes e Bown descrevem como efetiva, mas tardia.

O problema continua sendo o mesmo: tempo. Extrair o minério é a parte fácil. A cadeia de suprimentos vai da mina ao britador, dos tanques de lixiviação às colunas de extração por solvente, dos fornos de redução metálica às prensas de sinterização — cada etapa exige uma instalação diferente, uma força de trabalho especializada diferente e um ciclo de capital diferente.

Os Estados Unidos estão, no máximo, duas ou três etapas adiante. “Não vivemos em um mundo perfeito”, disse Keynes. Os países precisam usar “ferramentas imperfeitas” para proteger seus interesses e administrar as consequências da melhor maneira possível.

A questão é se Washington conseguirá agir rápido o bastante — ou se, como afirmou Keynes, “vamos ficar presos nisso por muito, muito tempo”.

McMullen disse à Fortune que duvida que a diferença possa ser eliminada dentro de um único governo.

O mito, claro, termina no campo de batalha. Aquiles não morre porque a flecha é poderosa. Ele morre porque o calcanhar sempre esteve ali e, em algum momento, alguém com paciência suficiente mirou nele.

Pequim teve paciência.

Para esta reportagem, jornalistas da Fortune usaram IA generativa como ferramenta de pesquisa. Um editor verificou a precisão das informações antes da publicação.

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