Beagles que não causam alergia? Conheça a nova era da engenharia genética para pets

Tecnologias como o CRISPR estão nos dando novas formas de criar os cães dos nossos sonhos e, ao mesmo tempo, motivos para revisitar os erros que cometemos no passado

A Kindred não detectou nenhum traço do alérgeno em Alfie ou Bailey, e o Dr. Matt Walker, que adotou Bailey, afirma não ter apresentado reações alérgicas. Crédito: Kindred Companion Sciences
A Kindred não detectou nenhum traço do alérgeno em Alfie ou Bailey, e o Dr. Matt Walker, que adotou Bailey, afirma não ter apresentado reações alérgicas. Crédito: Kindred Companion Sciences

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Durante milhares de anos, tentamos criar os cães ideais para nos fazer companhia. Aperfeiçoamos suas habilidades para executar uma grande variedade de tarefas específicas, desde recuperar aves aquáticas abatidas até conduzir ovelhas desgarradas. Também remodelamos e refinamos seus corpos, criando dachshunds em formato de salsicha, dálmatas pintados de manchas, schnauzers de sobrancelhas espessas e shar-peis cobertos de rugas.

E fizemos tudo isso usando nada mais sofisticado do que a tradicional seleção genética por cruzamento.

Agora, porém, nossos esforços de engenharia canina estão entrando em uma nova era. No início deste mês, a Kindred Companion Sciences, uma startup de biotecnologia de Nova York, revelou ter utilizado a técnica conhecida como CRISPR para criar os primeiros cães hipoalergênicos editados geneticamente. Graças a uma única alteração genética, os animais, dois adoráveis beagles, aparentemente são incapazes de produzir uma proteína que causa olhos lacrimejantes e crises alérgicas em algumas pessoas.

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Ainda assim, o caminho entre o laboratório e o colo dos donos de pets nos Estados Unidos é longo. Já se passaram dois anos e meio desde que cientistas anunciaram um gato hipoalergênico editado geneticamente, mas esses felinos ainda não estão disponíveis ao público. Especialistas afirmam que será necessário mais tempo e mais dados para verificar se a Kindred realmente cumpriu sua promessa. Uma única edição genética consegue, de forma confiável, impedir reações alérgicas em humanos?

Há uma questão ainda mais importante: o que isso significa para os cães? Será que nossa tentativa de criar animais de estimação mais convenientes para os humanos pode trazer consequências inesperadas para a saúde deles?

A história não é animadora. Desde a Era Vitoriana, quando criadores começaram a desenvolver e padronizar as raças modernas, nossa busca pelo cão perfeito produziu animais com elevada consanguinidade, propensos a doenças e marcados por características físicas extremas, como focinhos excessivamente achatados e colunas muito alongadas, comprometendo seu bem-estar.

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“Criamos uma enorme quantidade de doenças hereditárias em cães, muitas vezes sem intenção, por causa da nossa busca por características que consideramos atraentes”, afirmou Rowena Packer, especialista em bem-estar de animais de companhia do Royal Veterinary College, em Londres. “Acredito que temos uma responsabilidade muito maior de refletir criticamente sobre os cães que estamos criando.”

Kindred Companion Sciences

O design dos cães

Apesar da enorme diversidade canina produzida pela seleção genética, um cão realmente hipoalergênico continua sendo uma espécie de Santo Graal. Criadores desenvolveram cães que soltam menos pelos e diversas raças vendidas como hipoalergênicas, como o labradoodle e seus inúmeros descendentes. Mas esses animais ainda produzem proteínas presentes na pele, saliva e urina capazes de desencadear alergias em humanos.

A edição genética oferece uma solução “simples e elegante” para atacar o problema na origem, disse Matt Walker, cofundador e CEO da Kindred, que sofre de alergia a cães desde a infância.

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A empresa começou utilizando células caninas e empregou a tecnologia CRISPR para desativar um gene chamado Can f 1, responsável por codificar um dos principais alérgenos produzidos pelos cães. Em seguida, os cientistas usaram técnicas de clonagem para transferir os genomas editados para embriões caninos.

Esses embriões foram implantados em uma fêmea beagle que serviu como barriga de aluguel. Ela deu à luz dois filhotes: Alfie e Bailey, que hoje estão perto de completar dois anos.

Segundo a empresa, não foi detectado nenhum traço do alérgeno em nenhum dos dois cães. Walker, que adotou Bailey, afirma não ter apresentado qualquer reação alérgica. Alfie foi adotado por um colega do executivo. Os dois animais parecem estar se desenvolvendo normalmente.

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“Sem sinais de alerta, nem amarelos nem vermelhos. Até agora, os animais parecem completamente saudáveis”, disse Walker. “Mas este é apenas o começo do nosso trabalho.”

De fato, apesar da precisão atribuída à tecnologia, a edição genética pode gerar consequências imprevisíveis. Problemas de saúde podem surgir mais tarde na vida dos animais ou quando a empresa começar a produzir um número maior de cães, tornando possíveis efeitos colaterais raros mais visíveis.

A Kindred não detectou nenhum traço do alérgeno em Alfie ou Bailey, e o Dr. Matt Walker, que adotou Bailey, afirma não ter apresentado reações alérgicas. Crédito: Kindred Companion Sciences

Ou os cães podem simplesmente permanecer saudáveis. Ainda é cedo para afirmar qualquer coisa. O mais provável é que vejamos novos esforços para criar cães geneticamente editados no futuro. A pergunta é: onde queremos traçar os limites éticos?

Há cerca de 30 anos, quando a engenharia genética ainda engatinhava, o filósofo Bernard Rollin propôs um princípio ético chamado “conservação do bem-estar”. Segundo a ideia, os seres humanos não deveriam modificar o genoma dos animais de forma que eles acabassem em condições piores, sofrendo mais do que seus antepassados não modificados.

É um ponto de partida razoável. Mas representa um padrão mínimo. E não resolve todas as implicações éticas envolvidas na criação de cães geneticamente modificados, um processo que pode exigir o uso de outros animais como cobaias, doadores de óvulos e mães de aluguel.

“Às vezes ficamos tão empolgados com aquilo que a tecnologia pode resolver, especialmente a biotecnologia, que nos esquecemos de que normalmente utilizamos muitos animais para chegar ao produto final”, observou Lisa Moses, veterinária e bioeticista da Universidade Harvard.

Especialistas em ética também questionam se faz sentido introduzir cães geneticamente editados em um mundo que já possui mais cães do que consegue cuidar adequadamente, sobretudo quando o objetivo não é criar animais mais saudáveis, mas animais mais adequados às necessidades humanas.

Boa criação

Amantes de cães podem, de boa-fé, chegar a conclusões diferentes sobre a proposta da Kindred. Mas especialistas concordam que, se pretendemos discutir a ética da criação de cães, precisamos fazer perguntas difíceis não apenas sobre as novas ferramentas de edição genética, mas também sobre as práticas tradicionais de cruzamento.

“No fim das contas, ambos os métodos produzem animais para companhia humana”, disse Alison Van Eenennaam, especialista em genômica animal e biotecnologia da Universidade da Califórnia em Davis. “Não é a tecnologia em si que cria os problemas éticos.”

Os humanos já causaram muitos danos aos cães sem qualquer ajuda da biotecnologia moderna. E a edição genética pode, em alguns casos, melhorar a qualidade de vida dos animais e até corrigir problemas gerados pela própria seleção artificial.

Em um estudo publicado em 2022, cientistas demonstraram que seria tecnicamente possível usar edição genética para corrigir uma mutação associada a problemas de quadril em labradores.

Porém, essas condições decorrem de uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Especialistas alertam que a maioria das doenças caninas provavelmente não poderá ser resolvida pela edição de um único gene.

Melhorar o bem-estar dos cães exigirá uma combinação de estratégias. Entre elas estão a revisão dos padrões raciais, a ampliação da diversidade genética das populações reprodutivas, a adoção de exames genéticos em larga escala e campanhas educativas para conscientizar o público sobre os custos de bem-estar associados a determinadas características físicas.

Especialistas defendem essas reformas há anos, com resultados limitados. Ainda assim, elas são necessárias se quisermos alinhar nossas ações aos valores que dizemos defender.

Afinal, vivemos em uma sociedade tão apaixonada por cães que já financia startups dedicadas a desenvolver medicamentos para aumentar sua longevidade e agora investe em edição genética para permitir que pessoas alérgicas convivam com animais que normalmente lhes causariam urticária.

A vida com Bailey tem sido “incrível”, disse Walker.

“Eu nunca tinha compreendido realmente o que as pessoas querem dizer quando afirmam que os animais de estimação fazem parte da família. Mas ela realmente faz parte da nossa.”

Sua esposa cresceu cercada por cães e lamentava constantemente suas alergias.

“Ela sempre dizia que essa era a única coisa em mim que ela gostaria de poder mudar”, contou.

Quando a notícia dos cães hipoalergênicos da Kindred se espalhou pela internet neste mês, um usuário do Facebook levantou exatamente essa possibilidade:

“Por que ele não modifica a si mesmo em vez dos beagles?”

Infelizmente, ainda não conseguimos editar geneticamente nossas próprias alergias a cães.

Mas isso não significa que não possamos evoluir.

c.2026 The New York Times Company