Aliado de Trump no governo ajuda a si mesmo e a amigos bilionários do Vale do Silício

David Sacks, cofundador do PayPal, tem influenciado políticas sobre tecnologia, setor onde investe, mas nega ter se beneficiado

Cecilia Kang Tripp Mickle Ryan Mac David Yaffe-Bellany Theodore Schleifer The New York Times

David Sacks, assessor poderoso da administração Trump para IA e criptomoedas (Foto: Stephanie Diani/The New York Times/Aquivo)
David Sacks, assessor poderoso da administração Trump para IA e criptomoedas (Foto: Stephanie Diani/The New York Times/Aquivo)

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WASHINGTON — Em julho, David Sacks, uma das principais autoridades de tecnologia do governo Trump, sorriu enquanto caminhava para o palco em um auditório neoclássico a poucos quarteirões da Casa Branca. Ele havia reunido autoridades de alto escalão e executivos do Vale do Silício para um fórum sobre o explosivo mercado da inteligência artificial.

O convidado de honra era o presidente Donald Trump, que revelou um “Plano de Ação para IA” elaborado em parte por Sacks, um investidor veterano. Em um discurso de quase uma hora, Trump declarou que a IA era “uma das revoluções tecnológicas mais importantes da história do mundo”. Depois ele pegou uma caneta e assinou ordens executivas para acelerar o setor.

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Quase todos os presentes na plateia — incluindo os CEOs das fabricantes de chips Nvidia e AMD, assim como amigos, colegas e parceiros de negócios de Sacks — estavam prestes a lucrar com as diretrizes de Trump.

Entre os vencedores estava o próprio Sacks.

Desde janeiro, Sacks, de 53 anos, ocupa um dos cargos paralelos mais vantajosos do governo federal, influenciando políticas sobre o Vale do Silício em Washington enquanto, ao mesmo tempo, atua no Vale do Silício como investidor. Entre suas ações como “czar” da inteligência artificial e de criptoativos na Casa Branca estão as seguintes:

— Sacks ofereceu um acesso surpreendente à Casa Branca para seus aliados na indústria de tecnologia e pressionou para eliminar barreiras governamentais enfrentadas por empresas de IA. Isso abriu caminho para gigantes como Nvidia faturarem até cerca de US$ 200 bilhões em novas vendas.

— Ele impulsionou políticas de IA que às vezes contrariaram recomendações de segurança nacional, alarmando alguns de seus colegas na Casa Branca e levantando dúvidas sobre suas prioridades.

— Sacks se posicionou para se beneficiar pessoalmente. Ele tem 708 investimentos em tecnologia, incluindo pelo menos 449 participações em empresas ligadas à inteligência artificial que podem ser auxiliadas direta ou indiretamente por suas políticas, segundo uma análise do The New York Times baseada em suas declarações financeiras.

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— Seus registros públicos classificam 438 de seus investimentos em tecnologia como empresas de software ou hardware, apesar de essas organizações se promoverem como negócios de IA, oferecerem serviços de IA ou terem IA em seus nomes, constatou o Times.

— Sacks elevou a visibilidade de seu podcast semanal, All-In, usando seu cargo no governo, e ampliou seus negócios.

Nenhum evento exemplifica melhor as complexidades éticas de Sacks — e como seus interesses entrelaçados se encontraram — do que a cúpula de IA de julho.

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Inicialmente, Sacks planejou que o fórum fosse hospedado pelo All-In, que ele comanda com outros investidores de tecnologia.

O podcast pediu a patrocinadores potenciais que pagassem US$ 1 milhão cada um para acesso a uma recepção privada e outros eventos na cúpula “reunindo o presidente Donald Trump e os principais inovadores em IA”, segundo uma proposta obtida pelo Times.

O plano preocupou tanto alguns funcionários que Susie Wiles, chefe de gabinete da Casa Branca, interveio para impedir que o All-In fosse o anfitrião exclusivo do fórum, segundo duas pessoas com conhecimento do episódio.

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Steve Bannon, ex-assessor de Trump e crítico de bilionários do Vale do Silício, disse que Sacks era um exemplo clássico de conflito ético em uma administração onde “os caras da tecnologia estão fora de controle”.

“Eles estão guiando a Casa Branca para a perdição com essa oligarquia tecnocrática ascendente”, disse ele.

Sacks pôde trabalhar no governo enquanto atuava no setor privado porque é um “funcionário governamental especial”, título que a Casa Branca costuma conceder a especialistas que atuam temporariamente como conselheiros. Ele não é remunerado pelo governo.

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Em março, a Casa Branca considerou duas vezes que Sacks não tinha conflito de interesses. O argumento foi que ele estava vendendo ou já havia vendido a maior parte de seus ativos em cripto e IA. Seus investimentos restantes, segundo as duas decisões, “não eram tão substanciais” a ponto de influenciar seu serviço público.

Mas Sacks se destaca como funcionário especial do governo por seus centenas de investimentos em empresas de tecnologia, que podem se beneficiar das políticas que ele influencia.

Seus registros éticos públicos — baseados em declarações voluntárias — não revelam o valor de seus investimentos restantes ligados a cripto e IA. Tampouco indicam quando ele vendeu os ativos que disse ter se desfeito, dificultando determinar se ele lucrou com o cargo.

Uma porta-voz da Casa Branca, Liz Huston, disse que Sacks tratou adequadamente possíveis conflitos. Seus conhecimentos eram “um recurso inestimável para a agenda do presidente Trump de garantir a supremacia tecnológica americana”, afirmou ela.

Jessica Hoffman, porta-voz de Sacks, disse que “essa narrativa de conflito de interesse é falsa”. Sacks seguiu as regras aplicáveis a funcionários governamentais especiais, e o Escritório de Ética Governamental concluiu que ele deveria vender investimentos em certos tipos de empresa de IA, mas não em outras, disse ela. Segundo Hoffman, seu trabalho no governo o prejudicou financeiramente — não o beneficiou.

Em um jantar da Casa Branca com executivos de tecnologia em setembro, Sacks disse estar agradecido por trabalhar tanto em tecnologia quanto no governo. Era “uma grande honra ter um pé em cada um desses mundos”, afirmou.

“A Casa de David”

A trajetória de Sacks até a Casa Branca começou no Vale do Silício.

Ele chegou ao centro da tecnologia em 1990 como universitário em Stanford, onde conheceu estudantes como Peter Thiel. Sacks depois se juntou a Thiel em uma startup que se tornou a empresa de pagamentos eletrônicos PayPal, ao lado de Elon Musk.

Após o PayPal ser comprado pelo eBay por US$ 1,5 bilhão em 2002, o grupo passou a investir uns nos outros. Sacks ajudou a financiar a SpaceX, de Musk, e a Palantir, empresa de análise de dados cofundada por Thiel. Em troca, Thiel apoiou a Yammer, a startup de comunicação corporativa fundada por Sacks, vendida à Microsoft em 2012 por US$ 1,2 bilhão.

Em 2017, Sacks fundou a Craft Ventures, empresa que investiu em centenas de startups, incluindo algumas pertencentes a seus amigos. Três anos depois, ele lançou o podcast All-In com os amigos e investidores Jason Calacanis, Chamath Palihapitiya e David Friedberg.

Sacks se tornou uma figura relevante na política republicana em 2022, quando doou US$ 1 milhão a um comitê de ação política que apoiava a candidatura ao Senado de JD Vance, ex-investidor de tecnologia que trabalhou com Thiel.

No ano passado, Sacks organizou um evento de arrecadação de US$ 12 milhões para Trump em sua mansão em São Francisco. O jantar marcou o então candidato.

“Eu amo a casa do David”, Trump disse no All-In duas semanas depois. “Que casa.”

Após a eleição, a equipe de Trump convidou Sacks para integrar o governo. Ele aceitou, com uma condição: que pudesse continuar trabalhando na Craft — pedido que foi atendido.

“É exatamente o que pedi”, disse Sacks sobre seu cargo duplo em dezembro.

Aliança com a Nvidia

Sacks abriu as portas da Casa Branca para líderes do Vale do Silício. Entre os visitantes mais influentes, estava Jensen Huang, CEO da Nvidia.

Sacks e Huang — que não se conheciam antes de Sacks assumir o cargo — criaram uma forte conexão neste ano, disseram três pessoas próximas aos dois, não autorizadas a falar publicamente.

Ambos tinham a ganhar. Huang, de 62 anos, queria autorização do governo para vender seus cobiçados chips de IA ao redor do mundo, apesar das preocupações de segurança de que eles pudessem fortalecer a economia e a capacidade militar da China.

Huang argumentou que restringir as exportações acabaria incentivando empresas chinesas a criar alternativas mais poderosas. Além disso, difundir a tecnologia Nvidia ajudaria a expandir o setor de IA — o que beneficiaria investimentos de Sacks e seus amigos.

Nas reuniões da Casa Branca, Sacks repetiu as ideias de Huang: a melhor forma de derrotar a China seria inundar o mundo com tecnologia americana. Sacks trabalhou para eliminar restrições impostas por Biden à venda de chips para outros países.

Ele também se opôs a regras que dificultariam que empresas estrangeiras comprassem chips americanos para data centers internacionais, segundo cinco pessoas com conhecimento dessas discussões.

Sem essas restrições, Sacks voou para o Oriente Médio em maio e fechou um acordo para enviar 500 mil chips americanos de IA — em sua maioria da Nvidia — para os Emirados Árabes Unidos. O volume alarmou algumas autoridades da Casa Branca, que temiam que a China — aliada dos Emirados — obtivesse acesso à tecnologia.

Mas o acordo representou uma vitória monumental para a Nvidia. Analistas estimaram que a empresa poderia faturar até US$ 200 bilhões com a venda dos chips.

Hoffman disse que Sacks formou sua visão ouvindo muitas pessoas — não apenas Huang — e que ele “quer que todo o ecossistema tecnológico americano vença”. Nenhum de seus investimentos se beneficiou diretamente do acordo com os Emirados, ela afirmou.

Mylene Mangalindan, porta-voz da Nvidia, disse que o secretário do Comércio, Howard Lutnick, era o principal contato da empresa para vendas internacionais de chips de IA.

Em maio, Sacks comemorou o acordo com os Emirados no All-In. “Eu definiria vitória como o mundo inteiro se consolidando em torno das empresas americanas de IA”, disse ele.

Restava um último obstáculo para esse objetivo: remover a proibição dos EUA para vendas diretas de chips à China.

Na Casa Branca, Sacks defendeu a ideia de que a proibição estava ajudando a China ao desviar vendas da Nvidia para a Huawei, sua rival chinesa, segundo quatro pessoas próximas às discussões.

Em julho, Sacks e Huang levaram o argumento a Trump, em uma reunião no Salão Oval. Antes que o encontro terminasse, Trump autorizou a Nvidia a vender chips para a China.

O portfólio de Sacks

A Casa Branca elogiou Sacks, afirmando que ele minimizou seus conflitos financeiros.

As avaliações oficiais de que Sacks não tem conflitos de interesse afirmam que ele e a Craft Ventures venderam mais de US$ 200 milhões em posições de cripto, incluindo investimentos em bitcoin, e estavam se desfazendo de participações em empresas relacionadas à IA, como Meta, Amazon e xAI.

Segundo a Casa Branca, Sacks havia iniciado ou concluído a venda de “mais de 99%” de suas “participações em empresas que poderiam potencialmente configurar um conflito de interesse”.

Huston, porta-voz da Casa Branca, disse que Sacks foi “impedido de participar de quaisquer questões que pudessem afetar seus interesses financeiros até que completasse sua desinvestimento ou recebesse uma dispensa”.

Mas as decisões da Casa Branca não revelam o valor de seu patrimônio restante, nem mostram quando ele vendeu suas ações na Meta, Amazon e outras empresas.

De acordo com a análise do Times, Sacks manteve 20 investimentos em cripto e 449 relacionados à IA — direta ou indiretamente.

Entre os investimentos de IA, 11 foram oficialmente classificados como “Interesses de IA”. Os outros 438 foram definidos como empresas de software ou hardware, embora promovam produtos de IA ou incluam IA em seus nomes.

Em um exemplo, a Palantir foi descrita como “software como serviço”, embora seu site afirme fornecer “Automação com IA para toda decisão”. Quarenta e uma empresas no portfólio têm IA no nome, como Resemble.AI e CrewAI.

Uma das decisões da Casa Branca sobre conflito de interesse afirma que muitas dessas empresas de software “não usam aplicações de IA em suas atividades principais de maneira substancial atualmente”, mas acrescenta que “muitas provavelmente usarão no futuro”.

Políticas defendidas por Sacks na Casa Branca pavimentaram o caminho para que seus investimentos prosperassem.

O Plano de Ação para IA incentivou a produção doméstica de drones autônomos e outras invenções militares.

Segundo seus registros, Sacks tem participação em startups de tecnologia de defesa como Anduril, Firestorm Labs e Swarm Aero, que fabricam drones e outros produtos.

Em setembro, a Anduril anunciou contrato de US$ 159 milhões com o Exército americano para produzir um novo tipo de óculos de visão noturna com IA.

Shannon Prior, porta-voz da Anduril, disse que a empresa já mantinha um relacionamento com o Exército antes do plano de IA, e que venceu o contrato porque seu fundador, Palmer Luckey, é “o melhor designer de headsets de realidade virtual do mundo”. Hoffman disse que era uma “ideia óbvia” incluir o uso militar de IA na política.

Neste ano, Sacks também apoiou um projeto de lei chamado Genius Act, que regula stablecoins — uma criptomoeda projetada para manter preço fixo de US$ 1. Ele promoveu a legislação na CNBC e trabalhou por sua aprovação no Congresso.

Depois que o projeto passou em julho, Sacks o chamou de “histórico” e “marcante” no All-In. A lei deve expandir significativamente o mercado de stablecoins.

Uma das empresas de cripto apoiadas pela Craft é a BitGo, que trabalha com emissores de stablecoins. A BitGo celebrou a aprovação do Genius Act em seu site e rapidamente aproveitou a oportunidade, declarando que seus serviços “se encaixavam perfeitamente” nas novas diretrizes. “A espera acabou”, escreveu a empresa.

Em setembro, a BitGo entrou com pedido para abertura de capital. A Craft detém 7,8% da empresa, participação avaliada em mais de US$ 130 milhões segundo sua avaliação de 2023.

A BitGo não comentou. Hoffman disse que a aprovação do Genius Act “não trouxe benefício específico” à empresa.

Podcast com autoridades

Em um episódio do All-In em março, dois dos apresentadores — Friedberg e Palihapitiya — apareceram do lado de fora da ala Leste da Casa Branca.

Eles perambularam dentro da Casa Branca, contou Palihapitiya, enquanto o programa exibia fotos deles em corredores com lambris e ao lado de Sacks no pórtico que divide as alas Leste e Oeste.

Os apresentadores então entrevistaram o secretário do Tesouro, Scott Bessent, sobre políticas econômicas.

Dias depois, voltaram com uma entrevista de quase duas horas com Lutnick. Dois meses depois, entrevistaram os secretários da Agricultura e do Interior. Em setembro, o All-In publicou um vídeo de um passeio privado pelo Salão Oval com Trump.

O cargo de Sacks impulsionou o podcast, hoje baixado 6 milhões de vezes por mês. Sua conferência anual em Los Angeles faturou cerca de US$ 21 milhões em vendas de ingressos este ano — contra US$ 15 milhões no ano anterior — baseando-se no preço de US$ 7.500 por ingresso e estimativas de público. Em junho, o podcast lançou uma tequila com a marca All-In, vendida a US$ 1.200.

Segundo Hoffman, Sacks abriu mão de receitas relacionadas a IA e cripto — como patrocínios — mas pode lucrar com vendas de tequila e ingressos de eventos. O CEO do podcast, Jon Haile, não respondeu a pedidos de comentário.

Seu trabalho governamental e seus negócios pessoais convergiram no evento de IA de julho em Washington, para o qual Sacks escolheu o All-In como anfitrião.

No discurso principal, Trump descreveu Sacks como “ótimo” antes de assinar ordens executivas para acelerar a construção de data centers e exportação de sistemas de IA.

Então ele entregou a Sacks a caneta presidencial.

c.2025 The New York Times Company