Dona da Jack Daniel’s prefere fusão com Pernod Ricard a oferta em dinheiro da Sazerac

Família controladora da Brown-Forman vê acordo com francesa como estrategicamente superior, com maior diversificação, participação acionária e menos risco antitruste que proposta rival de US$ 15 bilhões

Bloomberg

Garrafas de Jack Daniel's Single Barrel Select Tennessee Whiskey perto da linha de envase na destilaria Jack Daniel's, em Lynchburg, Tennessee. Fotógrafo: Luke Sharrett/Bloomberg
Garrafas de Jack Daniel's Single Barrel Select Tennessee Whiskey perto da linha de envase na destilaria Jack Daniel's, em Lynchburg, Tennessee. Fotógrafo: Luke Sharrett/Bloomberg

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A família que controla a fabricante do uísque Jack Daniel’s prefere uma possível venda para a destilaria francesa Pernod Ricard a uma proposta alternativa de sua rival americana de capital fechado Sazerac, segundo uma pessoa familiarizada com o pensamento da companhia.

A Brown-Forman vê a Pernod como um encaixe melhor porque a empresa combinada seria mais diversificada em termos geográficos e de tipos de destilados, de acordo com essa pessoa, que pediu anonimato por discutir deliberações privadas. Além disso, os termos propostos para a combinação com a Pernod dariam à família uma participação maior no negócio e mais influência.

Como parte das discussões, Brown-Forman e Pernod consideraram manter Louisville, no Kentucky, como uma região-chave para a nova empresa, mas ainda não está claro se a cidade será sede ou apenas um grande hub. O negócio em estudo seria composto por 80% em ações e 20% em dinheiro, disseram pessoas a par do assunto.

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As conversas continuam, e essas fontes afirmam que não há garantia de que resultarão na venda da Brown-Forman, cujo valor de mercado é de cerca de US$ 13,4 bilhões.

A Sazerac planeja apresentar uma oferta integralmente em dinheiro de US$ 15 bilhões pela Brown-Forman, informou o New York Times em 17 de abril. Analistas questionaram a lógica de um acordo com a Sazerac e alertaram que ele poderia levantar preocupações significativas de antitruste devido às sobreposições entre as empresas.

A Sazerac preferiu não comentar, assim como um representante da Brown-Forman. A Pernod também não comentou.

A Brown-Forman, que também produz o uísque Woodford Reserve, a tequila Herradura e o rum Diplomatico, é uma empresa familiar há mais de 150 anos, mas, assim como outros produtores de destilados, vem sofrendo pressão com a forte queda no consumo de álcool, sobretudo entre adultos mais jovens.

O mercado de destilados nos EUA vem sofrendo: as vendas fora de bares e restaurantes cresceram apenas cerca de 1% por trimestre, em média, nos últimos três anos, segundo dados da Bloomberg Intelligence. As ações da Brown-Forman estão em queda livre, acumulando baixa de 60% em cinco anos.

Uma união entre Brown-Forman e Pernod, que tem valor de mercado em torno de US$ 20 bilhões, criaria uma líder em uísque americano, fortaleceria a posição da Pernod em tequila e ampliaria a presença global de ambas. Em particular, a Brown-Forman teria um caminho melhor para expandir as vendas de Jack Daniel’s na China e na Índia, onde a demanda por uísque está em alta, graças à vasta rede de distribuição da Pernod.

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A Sazerac, que produz o bourbon Buffalo Trace e o licor Southern Comfort e remonta suas origens à década de 1630, é muito mais concentrada nos EUA, com um portfólio fortemente centrado em uísque, o que gera uma sobreposição maior com a linha de produtos da Brown-Forman. A Sazerac cresceu ao revitalizar marcas mais antigas e subvalorizadas compradas de outros conglomerados de bebidas alcoólicas.

A família Brown controla cerca de dois terços dos direitos de voto na Brown-Forman, mas outros acionistas que desejam reduzir a exposição ao problemático setor de destilados podem preferir a oferta integralmente em dinheiro da Sazerac.

Juntas, Brown-Forman e Sazerac controlariam mais de 30% do mercado de uísque americano nos EUA, o que, segundo analistas do Barclays, provavelmente desencadearia uma “análise prolongada” por parte dos reguladores — algo que poderia não ser necessário em uma combinação com a Pernod.

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Uma combinação com a Sazerac “provavelmente exigiria desinvestimentos significativos de ativos, tornando difícil a realização de uma transação Brown-Forman/Sazerac em sua forma atual”, escreveu a analista do Barclays, Lauren Lieberman, em relatório de 13 de abril. “Por outro lado, a fusão de iguais entre Pernod Ricard e Brown-Forman continua parecendo mais crível do ponto de vista estratégico.”

Mesmo com a desaceleração do consumo de bebidas atingindo todo o setor, a Brown-Forman tem se saído pior do que a maioria — perdendo participação de mercado nos últimos cinco anos. A fatia da empresa no mercado global de destilados caiu para 5,9% no ano passado — 8ª colocada — ante 6,3% em 2021, segundo dados da Circana analisados pela Bloomberg Intelligence.

Suas ações tiveram um desempenho bem inferior ao do mercado nos últimos cinco anos, período em que o índice S&P 500 Consumer Staples subiu cerca de 30%.

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“O fato de eles estarem tendo essa discussão”, com o preço da ação perto da mínima em mais de uma década, “é um reconhecimento dos desafios que o setor enfrenta, particularmente nos EUA”, disse Kevin Grundy, analista do BNP Paribas.

Os EUA também têm sido um ponto fraco para a Pernod: as vendas no país caíram 14% neste ano, à medida que as tarifas comerciais do presidente Donald Trump prejudicaram a demanda por marcas premium — problema agravado por varejistas e atacadistas oferecendo descontos para reduzir estoques em meio a vendas fracas.

“O sentimento do consumidor nos EUA permanece fraco e a acessibilidade continua sendo uma questão-chave para alguns consumidores”, disse Helene de Tissot, vice-presidente executiva de finanças e tecnologia da Pernod, em teleconferência com analistas em 16 de abril. “Embora o mercado dos EUA continue suave, estamos convencidos de que os desafios atuais são principalmente cíclicos, ligados a questões de poder de compra.”

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A dúvida sobre se a queda no consumo de álcool é fruto de fatores de curto prazo ou sinal de uma mudança estrutural na demanda tem dominado o debate no setor.

A transação, em certo sentido, “é um reconhecimento de que há ventos contrários estruturais reais nos EUA”, afirmou Grundy, do BNP.

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