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Três décadas depois do massacre do Carandiru, que deixou 111 presos mortos em São Paulo e se tornou símbolo da violência policial no país, o Brasil volta a registrar uma tragédia sem precedentes. A megaoperação policial no Complexo da Penha e no Alemão, no Rio de Janeiro, ultrapassou o episódio de 1992 em número de vítimas e passou a ser considerada a mais violenta da história nacional — ainda que os dois casos envolvam contextos muito diferentes: um dentro do sistema prisional, outro em plena área urbana, em confronto direto com o tráfico de drogas.
De acordo com dados oficiais publicados ainda na terça, 64 pessoas morreram — 60 apontadas como criminosos e 4 policiais. No entanto, o número pode ser ainda maior. Durante a madrugada desta quarta-feira, moradores da Penha levaram ao menos 56 corpos para a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas. Segundo a Polícia Militar, os corpos não estão incluídos no balanço divulgado na véspera. Ao todo, ao menos 116 suspeitos morreram.
Peritos trabalham para identificar as vítimas e apurar se essas mortes estão ligadas à operação, que mobilizou 2,5 mil agentes e foi planejada ao longo de dois meses para conter a expansão do Comando Vermelho, principal facção do tráfico no Rio.
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De Carandiru à Penha: a história que se repete
O massacre do Carandiru, em 1992, marcou o auge da repressão policial no sistema prisional brasileiro. Naquele dia, 341 policiais da Tropa de Choque invadiram o Pavilhão 9 da Casa de Detenção em São Paulo para conter uma rebelião.
Foram disparados 3,5 mil tiros em 20 minutos, deixando 111 presos mortos, muitos deles executados à queima-roupa. O episódio virou livro, filme e símbolo internacional da violência institucional no Brasil.
Agora, em 2025, o país revive o mesmo espanto. A operação na Penha e Alemão, oficialmente voltada ao combate ao tráfico, teve níveis de letalidade superiores aos de qualquer confronto urbano registrado anteriormente. Moradores relatam corpos espalhados por áreas de mata, como a Serra da Misericórdia, e denunciam execuções e desaparecimentos.
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O governo estadual classificou a ação como uma “operação contra narcoterroristas”, expressão usada pelo governador Cláudio Castro para justificar o alto número de mortes. A retórica, porém, foi criticada por entidades de direitos humanos, que alertam para o risco de banalização do uso da força letal e reprodução de padrões históricos de extermínio.
Mudança no conflito
A operação marca uma mudança no padrão de enfrentamento entre as forças de segurança do Rio e as facções criminosas. Em uma demonstração inédita de poder bélico, traficantes utilizaram drones para lançar granadas contra equipes das forças especiais da Core e do Bope, cenário típico de guerra. Para esse “bombardeio”, os criminosos acionam um gatilho mecânico ou elétrico que libera a carga enquanto mantêm o equipamento em voo, afastando-se sem se expor.
Além disso, em outro sinal de uma escalada nos confrontos, o governo estadual declarou que não tem condições de atuar sozinho e que o conflito ultrapassou o âmbito da segurança pública tradicional. A ação resultou em 81 prisões e na apreensão de 42 fuzis.
Novas ações
Antes mesmo da conclusão da megaoperação contra o Comando Vermelho (CV) que matou 64 pessoas e prendeu 81 suspeitos nos Complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, o governo Cláudio Castro (PL) já começou a trabalhar no planejamento de novas ofensivas contra a maior facção criminosa do estado. O entorno de Castro prevê novas incursões policiais em outros bairros dominados pela organização com o objetivo de pressionar suas lideranças.
O objetivo da ofensiva de terça era prender líderes do CV nos Complexos da Penha e do Alemão, que, como mostrou O GLOBO, se tornaram o “quartel-general” da facção, que almeja expandir seu domínio territorial sobre novas áreas na Zona Sudoeste da cidade. O principal alvo, Edgar Alves de Andrade, o Doca, não havia sido capturado até o fechamento da reportagem.
Ele é apontado como líder do Comando no complexo. Dois de seus aliados foram presos na megaoperação: Thiago do Nascimento Mendes, conhecido como Belão do Quitungo e tido como braço-direito de Doca, e Nikolas Fernandes Soares, que seria seu operador financeiro.
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Relembre o Carandiru
O massacre do Carandiru ocorreu em 2 de outubro de 1992, dentro da Casa de Detenção de São Paulo, na Zona Norte da capital, e se tornou a maior chacina em presídios da história do Brasil.
Tudo começou com uma briga entre detentos no Pavilhão 9, que abrigava cerca de 2 mil presos. A confusão rapidamente se transformou em uma rebelião, e o comando da Polícia Militar de São Paulo autorizou a entrada da Tropa de Choque para retomar o controle do presídio.
Cerca de 341 policiais participaram da operação, que durou menos de 30 minutos. Foram disparados aproximadamente 3,5 mil tiros, e o resultado foi 111 presos mortos — todos detentos. Nenhum policial morreu.
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Investigações posteriores mostraram que muitos presos foram executados após se renderem, com tiros à queima-roupa, inclusive dentro de celas. As armas usadas incluíam fuzis AR-15 e submetralhadoras HK e Beretta.
O episódio ficou conhecido como Massacre do Carandiru e se tornou símbolo da violência estatal e da falência do sistema prisional brasileiro. O comandante da operação, o coronel Ubiratan Guimarães, chegou a ser condenado em 2001, mas foi absolvido em 2006.