Crime organizado pressiona contas públicas e eleva custo do crescimento, diz HRW

Relatório da Human Rights Watch aponta infiltração de facções no Estado, ineficiência do gasto em segurança e efeitos diretos sobre investimentos, produtividade e arrecadação no Brasil

Marina Verenicz

Brasil, Rio de Janeiro, RJ, 19/04/2002 Rebelião de presos na Casa de Custódia Jorge Sant'ana, em Bangu. Presos no telhado fazendo agito com a bandeira da facção Comando Vermelho (CV). - Crédito:CARLOS MORAES/AGÊNCIA O DIA/AE/Código imagem:155582
Brasil, Rio de Janeiro, RJ, 19/04/2002 Rebelião de presos na Casa de Custódia Jorge Sant'ana, em Bangu. Presos no telhado fazendo agito com a bandeira da facção Comando Vermelho (CV). - Crédito:CARLOS MORAES/AGÊNCIA O DIA/AE/Código imagem:155582

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O avanço do crime organizado no Brasil deixou de ser apenas um problema de segurança pública e passou a representar um risco fiscal e econômico de longo prazo. A avaliação está no relatório mundial de 2026 da Human Rights Watch (HRW), divulgado nesta quarta-feira (4), que dedica um capítulo ao país e alerta para os impactos da criminalidade sobre as contas públicas, o ambiente de negócios e a capacidade do Estado de sustentar o crescimento.

Segundo a organização, a presença cada vez mais estruturada de facções criminosas amplia o custo do Estado em múltiplas frentes. Há pressão direta sobre o orçamento com gastos crescentes em policiamento, sistema prisional e operações emergenciais, ao mesmo tempo em que a eficácia dessas despesas é limitada pela falta de coordenação e pelo baixo uso de inteligência. Esse desequilíbrio, afirma a HRW, reduz o retorno do gasto público e compromete a eficiência fiscal.

O relatório aponta que a infiltração do crime organizado em instituições públicas e em economias locais também corrói a base arrecadatória.

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Regiões sob influência de facções tendem a registrar maior informalidade, evasão fiscal e menor atividade produtiva formal, o que afeta a arrecadação de impostos e contribuições. Na prática, o Estado passa a gastar mais para arrecadar menos, um quadro que amplia déficits e dificulta o ajuste das contas públicas.

Do ponto de vista econômico, a HRW avalia que a criminalidade elevada funciona como um imposto adicional sobre empresas e famílias. Custos com segurança privada, seguros mais caros, interrupções logísticas e riscos contratuais reduzem a competitividade, afastam investimentos e limitam ganhos de produtividade.

Em setores intensivos em capital e infraestrutura, a percepção de risco tende a elevar o custo de financiamento e encurtar horizontes de investimento.

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A organização também chama atenção para os efeitos indiretos sobre políticas públicas estruturantes. Recursos que poderiam ser direcionados a educação, saúde ou infraestrutura acabam realocados para respostas imediatas à violência, o que compromete a formação de capital humano e a capacidade de crescimento sustentado.

Esse efeito de deslocamento, segundo o relatório, tem implicações fiscais permanentes, já que limita o potencial de expansão da economia e, consequentemente, da arrecadação futura.

Como resposta, a HRW defende uma reformulação ampla da política de segurança pública, com foco em investigações aprofundadas e baseadas em inteligência para identificar vínculos entre criminosos e agentes do poder público.

A avaliação é que estratégias orientadas por dados e cooperação institucional podem reduzir desperdícios, aumentar a efetividade do gasto e mitigar riscos fiscais associados ao combate fragmentado ao crime.

Para a entidade, sem uma mudança de abordagem, o Brasil tende a enfrentar um ciclo vicioso em que criminalidade elevada pressiona o orçamento, deteriora o ambiente econômico e limita o crescimento, o que, por sua vez, reduz a capacidade do Estado de financiar políticas eficazes de segurança e desenvolvimento.