Crime camuflado: entenda como grupos de traficantes adotaram roupas táticas e militar

Vestimentas de alta tecnologia, que podem ser adquiridas via internet, se tornaram aliados de criminosos em disputas territoriais e confrontos com policiais

Agência O Globo

Um homem é detido por agentes da polícia durante uma operação policial contra o tráfico de droga na favela da Penha, no Rio de Janeiro
28 de outubro de 2025
REUTERS/Aline Massuca
Um homem é detido por agentes da polícia durante uma operação policial contra o tráfico de droga na favela da Penha, no Rio de Janeiro 28 de outubro de 2025 REUTERS/Aline Massuca

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Balaclava — a famosa “touca ninja” —, gandola, calça camuflada, bandoleira e coturno, tudo de última geração e tecnologia de ponta. A lista de ítens de vestuário tático e acessórios de guerra pode parecer digna do efetivo das Forças Armadas e das unidades policiais, mas tem sido usada de maneira cada vez mais frequente pelo tráfico de drogas.

Em imagens feitas durante megaoperação realizada nesta terça-feira (28) nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, é possível ver criminosos do Comando Vermelho (CV) usando equipamento de nível militar em confronto com policiais.

O material — que pode ser adquirido pela internet de maneira totalmente legalizada para a prática de esportes que simulam o combate armado, como airsoft e paintball, bem como para caça esportiva —, é empregado pelos criminosos para tentar obter vantagem na defesa do seu território no caso de incursões policiais, afirma o autor e analista de segurança Alessandro Visacro.

— Você tem disponível para compra na internet desde o uniforme, com coturno e colete, até tracking (dispositivo localizador) para drone — explica. — É lógico que isso vai trazer vantagens, até porque durante uma fuga para uma região de mata, por exemplo, se você tiver calçando um coturno ou uma bota tática, é muito melhor do que você estar calçando uma sandália, ou então uma roupa camuflada, que te torna um alvo mais furtivo.

O equipamento também tem o uso frequentemente empregado em disputas entre facções rivais, como no caso dos “homens samambaia”, grupo de criminosos do CV detidos em outubro de 2024 durante uma invasão à comunidade do Catiri, na Zona Oeste, à época dominada por um grupo de milicianos.

Na ocasião, a Polícia Militar classificou as fardas usadas pelos presos, do modelo “ghillie”, equipadas com folhagem artificial para camuflagem em zonas de mata — o que deu origem ao apelido — e que são tradicionalmente empregadas por atiradores de elite, como “artigos comumente utilizados em situações de confronto armado”.

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De acordo com Vissacro, as fardas e outros materiais militares usados hoje em dia pelo crime organizado chegam a ser de nível superior ao que é empregado pelas forças policiais. O especialista ressalta, entretanto, que em uma situação de combate, as unidades de segurança pública conseguem levar vantagem por possuir treinamento tático e técnico melhor do que hoje é feito por facções criminosas.

— A despeito dessa diferença material, as nossas forças de segurança pública tem demonstrado uma proficiência superior no uso desses ítens em relação aos criminosos — aponta. — A técnica, sem dúvidas, é muito mais importante do que o equipamento.