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"Juros são a atual forma de explorar os mais pobres", diz Ladislau Dowbor

Economista critica capitalismo financeiro e afirma que reduzir a desigualdade é prioridade em termos de "decência humana"

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

O mundo enfrenta dois grandes desafios: de um lado, a questão ambiental, envolvendo o aquecimento global e as contaminações dos mares, solos e florestas; de outro, um sistema que favorece uma minoria no acesso a bens e serviços de qualidade, gerando desigualdades. De acordo com o consultor das Nações Unidas e professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ladislau Dowbor, por trás de tudo, está o capitalismo financeiro.

Em entrevista ao UM BRASIL, Dowbor frisa que o País está entre os dez mais desiguais do mundo e que reduzir a desigualdade é prioridade “em termos de decência humana, não de esquerda ou direita”. “Essa desigualdade atinge níveis surrealistas. Temos seis pessoas que têm mais patrimônio do que a metade mais pobre da população brasileira. Eles produziram todo esse patrimônio? Não. Simplesmente eles fazem aplicações financeiras”, destaca.

De acordo com ele, o endividamento e os juros são as formas de exploração do capitalismo na atualidade. Além disso, o sistema financeiro se sobrepõe aos processos produtivos empresariais, de modo que “nenhuma grande corporação consegue escapar da pressão” por resultados, o que explica eventuais negligências a questões ambientais e a oferta de produtos fraudulentos.

Dowbor também afirma que o sistema financeiro favorece que os mais ricos ampliem o volume de seus patrimônios. “Se eu tenho US$ 1 bilhão de dólares e aplico isso moderadamente a 5% ao ano, estou ganhando por dia US$ 137 mil. Quem é bilionário não precisa mais produzir”, salienta.

Segundo o economista, na época do capitalismo industrial, a exploração dos mais pobres acontecia por meio do salário. Hoje, o sistema financeiro permite que os mais ricos ampliem as suas riquezas sem gerar produção.

“Quando um capitalista do século passado produz sapato e explora os trabalhadores, protestamos, mas ao menos está produzindo, gerando emprego e pagando imposto. Os de hoje, bancos e grandes intermediários financeiros, já colocam o dinheiro em paraísos fiscais”, pontua.

Como agravante da desigualdade, Dowbor ressalta que, embora a economia mundial esteja integrada, o mesmo não acontece na política. Desse modo, não há uma coordenação de ações para combater a pobreza e tornar o mundo menos desigual. Isso fica evidente, segundo ele, nos avanços tecnológicos, uma vez que o aumento de produtividade proporcionado por dispositivos e ferramentas inovadoras não se traduz em redução da desigualdade.

“O principal fator de produção, hoje, é o conhecimento, que é diferente do fator de produção material. Se eu te passo o meu relógio, eu deixo de ter o relógio, é o que se chama de ‘bens rivais’ em economia. Se eu te passo uma ideia, eu continuo com ela. Toda a parte da tecnologia e dos avanços científicos pode ser generalizado para o planeta todo sem gerar custos adicionais”, afirma. “O potencial que temos da modernidade é fantástico, mas essa modernidade tem que deixar de ser trancada por patentes, copyrights e royalties”, completa.

Comediada pelo jornalista Leandro Beguoci e pelo coordenador pedagógico do curso UM BRASIL Sustentável: visões, desafios e direções, Zysman Neiman, a entrevista foi tema da nona aula do programa de ensino desenvolvido pelo canal em parceria com a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS) e o Programa de Mestrado em Análise Ambiental Integrada, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

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