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Pedro Menezes

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Para o PT, autoritário é quem não é amigo

O mesmo PT que considerava Temer ilegítimo lançou nota reclamando do governo brasileiro por não reconhecer a legitimidade de Maduro. Escrevem que nosso governo é autoritário, mas não dizem o mesmo sobre o da Venezuela. Para qualquer um, autoritário é quem abusa do poder. Para o PT, é quem não é amigo.    

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

Gleisi Hoffmann e Lula
(Ricardo Stuckert)

No site do PT, o nome de Michel Temer vem sempre acompanhado de dois adjetivos: golpista e ilegítimo. Os petistas também acusaram Temer de perseguição política, restrições à liberdade de expressão, aproximação com os militares e irresponsabilidade fiscal.

Ilegítimo também foi a palavra utilizada pelo Grupo de Lima, que reúne 15 países importantes do nosso continente. Destes, 14 consideram que Nicolás Maduro não tem legitimidade para presidir a Venezuela em novo mandato. Entre os signatários, há países liderados por progressistas como o canadense Justin Trudeau.

O PT não gostou da carta. Viu nela uma agressividade inaceitável. A atitude revela mais sobre o PT do que sobre a justa condenação do ditador e carniceiro Nicolás Maduro.

Um processo de impeachment decorrido sem ruptura constitucional e sem qualquer restrição dos direitos políticos da oposição foi carimbado como ilegítimo. Maduro fez muito mais do que Temer para merecer o termo.

Em 2015, a oposição venezuelana conquistou maioria no parlamento local e começou a incomodar o presidente venezuelano, cujo grupo político já trabalhava há décadas para eliminar a divergência nas instituições bolivarianas.

Em 2017, veio a pá de cal. Maduro promoveu uma Constituinte para retirar o poder da oposição. Praticamente todo o mundo democrático, do Japão ao Chile, repudiou a medida. Cerca de 80% dos venezuelanos discordaram da Constituinte, irregular segundo a própria Constituição Bolivariana. Apenas China, Rússia, Síria, Cuba, Bolívia, Nicarágua e nações com instituições muito pouco respeitáveis – para dizer o mínimo – concordaram com Maduro.

Pior: as evidências de fraude na Constituinte de 2017 são estarrecedoras, mesmo para o padrão venezuelano.

A Smartmatic, empresa venezuelana responsável pela fabricação das urnas, acusa a justiça eleitoral local de adulterar o resultado. Vale lembrar que o aparelhamento das instituições eleitorais foi parte do plano chavista para gradualmente instaurar uma ditadura.

A agência Reuters descobriu que, dos cerca de 8 milhões de supostos votos, aproximadamente 3,7 milhões foram nos 30 minutos finais do horário previsto para a votação.

Analistas independentes tentaram calcular quantas pessoas de fato foram votar. Estima-se um número de eleitores reais entre um quarto e metade do declarado pelo governo. Ou seja, a porcentagem de votos inventados pelo regime pode chegar a 75%.

Nem a Internacional Socialista reconheceu o processo. Em nota, acusou o governo chavista de “quebrar a democracia” e “incrementar a violência e repressão no país”.

A manifestação está em linha com a opinião dos venezuelanos. Na maioria das pesquisas, mais de três quartos da população declaram querer Maduro fora do poder e afirmam que vivem sob ditadura.

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Os falsos democratas da esquerda brasileira

PT e PSOL, porém, reconheceram o ato. A secretaria de relações internacionais do PSOL lançou nota afirmando que o problema venezuelano se devia à dependência do país com relação ao petróleo, justificando a concentração de mais poder nas mãos de Maduro para ele pudesse intervir na economia e alterar a situação – como se poder desconcentrado e livre mercado fossem os maiores problemas venezuelanos.

O novo mandato de Maduro já se inicia num regime de exceção. O PSOL não se manifestou sobre o caso. O PT, por sua vez, foi solidário. Enviou a presidente Gleisi Hoffman à posse e denunciou o “autoritário” governo brasileiro por tentar interferir no vizinho, apesar de quase todos os países do continente tenham adotado a mesma postura.

Tudo isso na mesma semana em que a ONG Human Rights Watch denunciou o regime venezuelano por asfixiar, espancar e eletrocutar presos políticos. Maduro pratica tortura para Ustra nenhum botar defeito, mas o PT afirma que Temer é o verdadeiro praticante de perseguição política.

O PT acusa Temer de violar a liberdade de expressão por ter promovido mudanças na EBC, encerrando contratos com jornalistas próximos ao partido, como Paulo Moreira Leite e Tereza Cruvinel. Já o regime chavista, que ainda em 2007 não renovou a concessão pública do maior canal de TV do país que lhe fazia oposição, tinha “democracia até demais”, segundo famosa frase de Lula.

O PT acusa Temer de irresponsabilidade fiscal. A Venezuela, recordista mundial de inflação, não recebe palavras tão duras.

O PT se revolta com meia dúzia de militares indicados por Temer, mas não se manifesta sobre um regime ditatorial instalado através de conluios com a caserna, que executa a tortura de opositores.

O PT considera Bolsonaro autoritário por não reconhecer a legitimidade de Maduro, o ditador que, pouco a pouco, colocou na prisão as principais lideranças opositoras do país.

A atitude revela o doentio duplo padrão do PT com relação à democracia. Para qualquer um, autoritário é quem abusa do poder. Para petistas e afins, autoritário é quem não é amigo.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

 

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Pedro Menezes

Pedro Menezes é fundador e editor do Instituto Mercado Popular, um grupo de pesquisadores focado em políticas públicas e desigualdade social.

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