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Quilo de carne a 9,5 milhões: o que explica a hiperinflação de 82.000% na Venezuela

Especialistas comentam as causas da hiperinflação no país e como o novo plano econômico deve contornar o problema. 

Carne na Venezuela
(Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

SÃO PAULO – O governo de Nicolás Maduro anunciou nesta semana um plano de recuperação econômica para tentar controlar hiperinflação pela qual o país passa. No mês de julho, ela ficou registrada em 82.700% e, segundo projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional), deve bater 1.000.000% no final do ano.

O plano prevê que uma nova moeda seja colocada em circulação, uma mais valorizada que o atual bolívar: o bolívar soberano, que terá cinco zeros a menos que a atual.

Essa hiperinflação leva ao aumento exponencial de preços dos mais diversos produtos no país: um quilo de carne, por exemplo, custava 9.500.000 – 9,5 milhões – antes da implantação da nova moeda.

Entender a hiperinflação não é difícil: ela parte do conceito de inflação, que pode ser definido como o aumento de preços de uma cesta de produtos quando há excesso de dinheiro em circulação: as pessoas têm mais dinheiro, maior poder de compra e por isso os preços são elevados.

Quando não em excesso, a inflação é saudável para um país, já que mostra que existe poder de consumo entre os cidadãos e famílias.

Há também a inflação negativa, ou deflação, que mostra exatamente o oposto: que uma cesta de produtos está ficando mais barata. A princípio ter "preços menores" pode parece algo bom, mas em excesso e/ou por um prazo longo é um sintoma tão grave quanto a inflação, pois mostra que as pessoas não querem consumir - e se não há consumo, o empresário não vai investir ou contratar.

Sem isso, a renda não vai crescer, a confiança vai cair e o consumo seguirá ainda menor, formando uma espiral negativa. Tal problema foi enfrentado recentemente pelos EUA e pela Europa, que injetaram uma série de estímulos para "acordar" suas economias, mas mesmo assim a variação dos índices de preços se manteve perto da estabilidade ou até no negativo.

O que é a hiperinflação
A hiperinflação, por sua vez, consiste de um movimento inflacionário “irracional” decorrente de um descontrole das contas públicas – no caso da Venezuela, de gastos descontrolados – em que os preços chegam a ter alta de mais de 50% em um mês.

“Isso acontece porque o governo começa a intervir na economia, a colocar regras que causam esse descontrole. As pessoas começam a desconfiar do governo, empresários começam a subir os preços, a cadeia produtiva segue essa medida, e todos os preços sobem desordenadamente”, explica o economista e professor da Fipecafi, Valdir Domeneghetti.

Nesse contexto, a moeda se desvaloriza e os consumidores perdem poder de compra, além de ter de carregar maços e maços de notas para comprar algum item. É também um movimento que se “autoperpetua” conforme os produtos vão entrando em escassez. “O comportamento da hiperinflação já não tem fundamentos econômicos, é uma questão psicológica de medo, por parte do comerciante, empresário e das próprias pessoas”, disse Domeneghetti.

Quando falamos em “maços de dinheiro”, não é exagero: o fotógrafo da agência de notícias Reuters, Carlos Garcia Rawlins, fez um ensaio fotográfico com imagens de artigos básicos de higiene e alimentação, acompanhados da quantidade de bolívares necessários para compra-los na Venezuela.

O resultado chega a ser assustador: um rolo de papel higiênico por 2.600.000 bolívares; um pacote de arroz por 2.500.000; um quilo de tomate por 5.000.000; e um quilo de carne por 9.500.000.

Existe solução?
Contornar a hiperinflação não é nada fácil. “É uma situação irracional, em que os preços chegam a mudar duas ou três vezes ao dia”, explicou Valdir. Na Venezuela, comerciantes já nem marcam preços para os produtos, já que ele constantemente aumenta – e, assim, o valor real de determinado produto já não é facilmente determinado.

O lançamento do plano econômico vem, como já comentado, para tentar conter a hiperinflação. Com uma nova e mais valorizada moeda em circulação, o governo tenta recuperar a confiança de agentes econômicos e retomar uma estabilidade de preços. Mas, para Valdir, somente isso não será suficiente para tirar o país desta situação: ainda seria necessário tomar reformas trabalhistas, previdenciárias e econômicas, o que dificilmente acontecerá.

A situação venezuelana se estende para além da hiperinflação. Existe falta de energia, envolve também uma crise política e das estruturas do país.

Carlos Thadeu, professor do FGV IBRE, comenta: “Não existe um sistema funcionando, as instituições não funcionam. Isso não gera produção, capital produtivo, estabilidade da moeda, inflação saudável. Hoje vemos um sistema caótico”, explicou. “O que falta é uma discussão sobre o sistema privado no país, que não existe e leva a tudo isso”.

Brasil já passou por isso
A situação venezuelana foi realidade dos brasileiros entre as décadas de 80 e 90, quando os preços também subiam descontroladamente e a inflação superava os 80% ao mês. Era comum encontrar um conjunto de panelas por 1,2 milhão de cruzeiros, um pote de margarina por 43 mil.

Foi um período de planos econômicos: em 1986, o plano Cruzado congelou os preços e levou à escassez de inúmeros produtos; três anos depois, era lançado o Cruzado Novo, que tirou alguns zeros da moeda; em 1994, era lançado o Plano Real, que eventualmente estabilizou a inflação e economia brasileira.

Entre as medidas do Plano Real estavam a redução de gastos do governo, aumento de impostos, privatizações e a desindexação da economia - quando a inflação deixa de corrigir preços e salários. Também houve a mudança de moeda, do cruzeiro real – posterior ao Cruzado Novo – para a Unidade Real de Valor, moeda fictícia cujo valor era estabelecido diariamente.

“Neste período do Brasil, eu trabalhava em uma instituição financeira e cheguei a financiar para um cliente um bem de 2,368 bilhões de cruzados novos. Esse bem era um pequeno trator”, comentou Valdir.

A seguir, confira a série fotográfica de Carlos Garcia Rawlins:

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Quilo de tomate custa cerca de 5 milhões de bolívares

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Pacote de absorventes, 3,5 milhões de bolívares

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Pacote de 1 quilo de arroz é vendido por 2,5 milhões de bolívares

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Frango de 2,4 kg custa cerca de 14,6 milhões de bolívares

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Pacote de cenouras custa no mínimo 3 milhões de bolívares

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Papel higiênico custa 2,6 milhões de bolívares

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