Novo perfil do investidor redefine offshore e exige novo papel do assessor

Famílias brasileiras ampliam presença nos EUA e levam demanda além da alocação financeira

Daniel Navas Osni Alves

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A internacionalização dos investimentos brasileiros entrou em uma nova fase. Se há cinco anos o desafio das plataformas era democratizar o acesso a ativos no exterior, hoje o jogo mudou: famílias querem comprar imóvel em Miami, matricular filhos em universidades americanas e planejar sucessão sob a legislação dos Estados Unidos.

O investimento offshore, portanto, deixou de ser apenas uma estratégia de diversificação e passou a integrar o planejamento de longo prazo de muitas famílias brasileiras. O profissional que ainda fala somente de alocação, sem enxergar essa transformação mais ampla, começa a perder espaço.

Esse tema foi destaque durante a 3ª edição do Gorila Wealth Trends, realizada no Teatro B32, na capital paulista, nesta quarta-feira (6).

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O diferencial deixou de estar restrito à oferta de produtos financeiros. O investidor brasileiro passou a buscar uma estrutura capaz de sustentar parte da vida fora do país — incluindo aquisição de imóveis, planejamento sucessório, abertura de contas e suporte operacional no exterior.

Com isso, o offshore evolui de produto financeiro para uma estratégia patrimonial mais ampla, conectada à internacionalização da vida e do patrimônio das famílias brasileiras.

Da alocação ao projeto de vida

A virada, segundo Caio Zylbersztajn, da Nord Wealth, começou em 2020. A pandemia, somada à depreciação do real, despertou no investidor brasileiro a urgência de diversificar geograficamente para preservar patrimônio no longo prazo.

Plataformas evoluíram em paralelo, e o que era nicho virou conversa corriqueira nos escritórios de assessoria.

Mas a maturação do tema criou um novo problema: o excesso de foco em produto. Para Zylbersztajn, advisors que gastam tempo demais comparando ativos deixam de oferecer o que realmente importa — planejamento patrimonial, estrutura sucessória, declaração de Imposto de Renda no exterior e abertura de conta bancária americana.

A tradicional carteira americana baseada em renda variável e renda fixa também nem sempre conversa com o perfil do brasileiro que busca proteção patrimonial fora do país.

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Nesse cenário, cresce a necessidade de educação financeira e de uma assessoria capaz de contextualizar riscos, objetivos e diferenças entre os mercados.

Ecossistema vai além das finanças

A transformação também extrapola o sistema financeiro. O aumento do número de brasileiros estruturando parte da vida no exterior passou a movimentar uma rede de serviços ligada a esse processo, envolvendo mercado imobiliário, universidades, saúde e suporte jurídico nos Estados Unidos.

Esse movimento exige uma atuação mais integrada dos profissionais que atendem clientes de alta renda. A demanda já não se resume à transferência de recursos, mas envolve apoio em decisões patrimoniais e familiares ligadas à presença internacional dessas famílias.

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Zylbersztajn identifica nas gerações mais novas — globalizadas e habituadas a circular entre países — o vetor que deve consolidar essa demanda. O papel do advisor, segundo ele, se aproxima do modelo americano: menos vendedor de produto, mais conselheiro de vida.

“Abordagem holística é o que agrega eficiência ao cliente. Não basta alocar ativos; é preciso conversar sobre o que de fato mexe com o sentimento dele”, diz.

Brasil à frente em tecnologia, atrás em visão

Apesar do avanço da internacionalização, o sistema financeiro brasileiro ainda é reconhecido pela eficiência em tecnologia, meios de pagamento e experiência digital.

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Enquanto o Brasil consolidou soluções rápidas e integradas no dia a dia bancário, os Estados Unidos ainda operam com estruturas consideradas mais burocráticas em diversas operações.

Por outro lado, o mercado americano amadureceu antes quando o assunto é planejamento patrimonial de longo prazo.

Questões ligadas à sucessão, proteção jurídica, educação dos filhos e construção de legado já fazem parte da cultura financeira local há décadas — movimento que agora começa a ganhar força também entre investidores brasileiros.

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