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SÃO PAULO – Os filmes de ficção científica já mostraram todo tipo de carro do futuro que a imaginação pode conceber: alguns voam, outros se movimentam embaixo d’água, há os que se transformam em robôs, etc. Mas ao menos um tipo já começa a virar realidade. Os carros autônomos, que são dirigidos por sensores e computadores, sem a necessidade de um motorista humano, não são mais um sonho distante. Muitas montadoras já estão trabalhando – e testando – esse tipo de automóvel. Entre elas, estão a Mercedes, a Volvo, a Audi, a Nissan e a Ford.
A promessa é de que os primeiros modelos comecem a chegar às concessionárias até 2020. Se de tudo certo, em duas décadas esses veículos poderão ser considerados “populares”. Segundo a consultoria IHSAutomotive, até 2025 os autônomos representarão uma fatia de 0,2% no mercado mundial, ou algo em torno de 230 mil carros. Já em 2035, esse volume deve subir para 9,2%, ou 54 milhões de veículos.
Tecnologia já não é problema para a construção dos carros autônomos. O principal entrave, na verdade, são os custos. Todos os sensores, câmeras e sistemas de rastreamento necessários devem elevar o preço de um automóvel em US$ 7 mil a US$ 10 mil, estima a consultoria. Mas com a popularização da tecnologia e os ganhos de escala, os mesmos equipamentos passariam a custar menos de US$ 3 mil em 2035.
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Uma questão polêmica sobre os carros autônomos é a segurança. Como há risco de morte quando um automóvel em alta velocidade é guiado incorretamente, muitas pessoas preferem não ser as primeiras a ter um na garagem. Mas, na verdade, a tendência é que os carros autônomos, após passarem por exaustivos testes, sejam mais seguros que os atuais, já que 90% dos acidentes de trânsito são causados por erro humano. Tanto que existe a expectativa de que as apólices de seguros fiquem mais baratas a partir da disseminação dos veículos dirigidos por robôs – mesmo pensando que um para-choque com sensor terá um custo de conserto mais alto que o atual.
A percepção atual dos motoristas, no entanto, é a de que andar em um desses carros é mais arriscado. Segundo pesquisa do site CarInsurance.com, 64% dos entrevistados acreditam que um computador não é capaz de ter a mesma qualidade de decisão que um condutor humano. Por outro lado, uma em cada cinco pessoas afirmaram que deixariam de dirigir imediatamente caso tivessem um veículo que não precisasse de motorista. Os entrevistados também revelaram como usariam o tempo livre que ganhariam ao abandonar a direção: 26% conversariam com amigos, 21% leriam um livro, 10% dormiriam, 8% assistiriam filmes e 7% aproveitariam para adiantar o trabalho.
Brasil
Não são apenas as grandes montadoras multinacionais que correm para desenvolver a tecnologia necessária aos carros autônomos. O Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP de São Carlos, por exemplo, está trabalhando no projeto Carina (Carro Robótico Inteligente para Navegação Autônoma). O Fiat Palio Weekend Adventure utilizado já realizou testes nas ruas da cidade do interior de São Paulo. O carro tem sensores e radares para ser guiado automaticamente e ainda conta com um botão de emergência no painel, que desliga o sistema autônomo se o motorista quiser assumir o volante. O coordenador do projeto, professor Dennis Wolf, acredita que os carros inteligentes possam aumentar em 300% a capacidade de fluxo de veículos nas vias.
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Outro projeto de carro autônomo é o do Laboratório de Computação de Alto Desempenho da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo). A pesquisa esteve em evidência no ano passado após o modelo ter se envolvido em um pequeno acidente com a apresentadora Ana Maria Braga. De acordo com os organizadores do projeto, o sistema autônomo do carro não estava acionado, o freio de mão não havia sido puxado e um pequeno declive fez o veículo se movimentar. A apresentadora acabou sendo atropelada durante um programa ao vivo, em rede nacional.
Ricardo Takahira, membro da Comissão Técnica de Veículos Elétricos e Híbridos da SAE Brasil (Sociedade de Engenheiros da Mobilidade), alerta, no entanto, que os carros com direção autônoma devem demorar mais para chegar às ruas brasileiras. “A gente tem uma deficiência no mapeamento das ruas em comparação a outros países. A tecnologia de GPS é importante não para o carro andar, mas para ele ter certa precisão na hora de se guiar sozinho”, explica o engenheiro. A buraqueira e outras deficiências comuns às ruas brasileiras também atrapalham. “Para o veículo andar corretamente, não pode haver buracos, as faixas precisam estar pintadas, as placas de trânsito não podem estar encobertas por árvores e os semáforos precisam funcionar”, afirma.
Sistema operacional
As maiores empresas mundiais de tecnologia também estão de olho nesse mercado. O Google já vem testando e fazendo demonstrações do Google Car, um carro autônomo construído a partir de adaptações do Toyota Prius e do Lexus RX450h. O gigante de tecnologia também firmou parcerias com as montadoras Audi, GM, Honda e Hyundai para levar o sistema operacional Android aos carros. Para o Google, é questão de tempo para que os carros estejam conectados a outros dispositivos eletrônicos. A ideia é que o motorista possa acessar aplicativos e músicas dentro do carro, conecte diferentes veículos e facilite a localização de outros automóveis em movimento.
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A Apple também está interessada no setor automobilístico e, durante sua última conferência para desenvolvedores, lançou o “iOS no carro”, uma interface para automóveis que permite aos proprietários do iPhone 5 em diante fazerem chamadas, enviar e receber mensagens, acessar músicas e obter rotas, entre outras funções. A tecnologia chamou a atenção de montadoras como a BMW, a Ford e a Mercedes-Benz.
O que vem por aí
É difícil dizer qual montadora será a primeira a comercializar carros autônomos no mundo, mas Ricardo Takahira, da SAE Brasil, aposta na Volvo. Veja como cinco montadoras estão se movimentando:
Mercedes-Benz
Durante o Salão de Frankfurt em 2013, a montadora apresentou o sedã S 500 Intelligent Drive, que já realizou um trajeto teste de 100 km. A alemã fechou uma parceria com a Nokia para desenvolver mapas inteligentes em 3D para carros autônomos.
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Audi
A fabricante exibiu durante o CES 2014 (Consumer Electronics Show) um modelo conceito do A7 com condução autônoma apenas quando a velocidade estiver abaixo de 60 km/h. O carro usa radares e lasers para monitorar outros veículos, uma câmera acoplada ao para-brisa que controla se o automóvel permanece dentro da faixa de rolamento e um monitor LCD no painel de instrumentos que mostra a representação do tráfego ao redor do veículo. O veículo também desvia – ou para diante – de obstáculos e conta com uma tecnologia de reconhecimento facial que identifica se o condutor está concentrado na pista ou está sonolento.
Volvo
A montadora já agendou seu primeiro teste com carros autônomos. Em 2017, cem veículos irão para as ruas na Suécia para serem experimentados em situações cotidianas do trânsito. O projeto começa ainda neste ano, com adaptação das pesquisas tecnológicas feitas pela Volvo e o desenvolvimento da interface do sistema de comunicação entre os carros.
Nissan
No final do ano passado, a fabricante realizou no Japão um teste do protótipo autônomo do Leaf, seu carro elétrico. De acordo com a Nissan, os passeios irão ajudar a montadora a desenvolver e melhorar o sistema de direção sem motorista, sendo que o objetivo é que a tecnologia esteja pronta para ser comercializada a partir de 2020.
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Ford
A montadora escolheu o sedã FusionHybrid para realizar testes de direção autônoma. Porém, ao contrário dos concorrentes, o modelo tem um sensor de movimento 360°, que fica no alto do carro e escaneia o ambiente com lasers infravermelhos 2,5 milhões de vezes por segundo. A tecnologia é inspirada no sistema utilizado por morcegos e golfinhos, que se baseiam em ondas sonoras para detectar o que está próximo. O lançamento só deve acontecer em 2025.
Essa matéria foi publicada na edição nº 49 da revista InfoMoney, referente ao bimestre março/abril de 2014. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.