Estatísticas também mentem

A crença de que o mês de dezembro é sempre lucrativo para a Bolsa é uma dessas inverdades que os números contam

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SÃO PAULO – Encontrar a estratégia perfeita, que trará lucro sem riscos, é o sonho de qualquer investidor. E, em busca da estratégia perfeita, há quem analise séries históricas tentando encontrar teorias simples, que parecem funcionar. No entanto, nem tudo que reluz é ouro no mercado de ações.

Um exemplo é o “rali de dezembro”. A expressão tornou-se conhecida pela ideia de que em todo fim de ano o mercado acionário garante fortes retornos aos investidores. Um ganho quase garantido, um verdadeiro presente de Natal. A teoria até tem um pano de fundo racional, já que alguns setores naturalmente teriam desempenhos acima da média, beneficiando-se do aumento do consumo ao final de cada ano. Seria o caso das varejistas, das companhias aéreas e das empresas de energia elétrica, entre outros.

Mas será que realmente existe uma relação forte entre tudo isso? Para profissionais do mercado, não há nada que sustente a teoria.

Números incertos
Se considerarmos apenas os números, a ideia parece ser verdadeira, diz Rafael Pacheco, diretor da XTH Commcor. Por aqui, desde 2000, o mês de dezembro só representou perdas para o Ibovespa no ano passado. Até mesmo em 2008, quando a crise financeira abalava o mundo e fazia as Bolsas despencarem, o último mês do ano trouxe alegrias aos investidores: ganhos de 2,6%. Nos EUA, onde há estudos mais detalhados sobre os mercados acionários, a conclusão é que, historicamente, dezembro tem a melhor rentabilidade entre os doze meses do ano.

Mas quem busca uma explicação desse efeito nos gráficos dificilmente encontrará alguma. “Não há absolutamente nada na análise técnica que corrobore essa hipótese”, alerta Pacheco. Assim, é preciso atenção para não ser enganado pelas estatísticas.

Quem acompanha futebol sabe que um time ter vencido o outro por diversas vezes nos últimos anos serve apenas como tabu, mas não lhe dá nenhuma vantagem para o próximo confronto.

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Maurício Pedrosa, sócio da Queluz Gestora de Recursos, afirma ainda não ter visto argumentos suficientes para sustentar essa tese dos ganhos de dezembro, e lembra um termo estatístico para resumir essa situação: falácia do apostador. “É como se eu jogasse uma moeda 20 vezes, e, em 18 delas, o resultado fosse cara. Se jogar mais uma vez e perguntar o que acontecerá, as chances continuarão em 50%”, explica. “Nem todo desvio nos números significa uma mudança na probabilidade futura.”

Mesmo assim, é um mês diferente
Se não é possível confirmar o rali de dezembro, os analistas concordam em um ponto: o último mês do ano tem lá suas particularidades. O principal fator que faz desse um mês distinto para os investidores é a necessidade dos fundos de fecharem seus balanços anuais. Analistas lembram que aqueles fundos que já apresentam bons retornos no ano optam por vender as ações e embolsar o lucro, enquanto os que têm desempenho abaixo do esperado adotam uma postura mais agressiva, para fechar o ano na meta proposta.

Segundo dados da Anbima, o patrimônio líquido dos fundos de investimento voltados para o mercado acionário totaliza R$ 195,4 bilhões. Para se ter uma ideia da importância desse número, basta observar que o volume médio negociado na BM&FBovespa no ano, até o fim do terceiro trimestre, era de R$ 7,3 bilhões.

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Apesar de esse ser o fator mais lembrado pelos analistas, dezembro também é conhecido por outras questões pontuais, como a grande injeção de recursos na economia proveniente do 13º salário. Esse fator costuma representar uma entrada de R$ 80 bilhões a R$ 100 bilhões na economia.

No entanto, Catarina Pedrosa, analista da BES Securities, alerta que esse não é um dinheiro que entra na Bolsa diretamente, mas que pode se refletir nos ganhos das empresas.

Nesse cenário, vale a pena manter uma atenção especial às varejistas. “Se o 13º salário for realmente para o consumo, e o resultado das empresas melhorar, os investidores comprarão, na expectativa desses bons resultados”, diz a analista.

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Para aqueles que tentam antecipar o movimento, Catarina sugere que os investidores fiquem de olho em alguns indicadores econômicos, como os dados de crédito do Banco Central, os números sobre vendas no varejo e o índice de desemprego – algumas das principais variáveis que podem sinalizar boas vendas nas festas de fim de ano.

Mas o investimento em ações depende de muitos fatores, e levar em conta apenas uma melhora nas vendas é pouco para decidir comprar determinada ação. “Se o investidor já estiver posicionado no papel, [o 13º salário] é mais um tempero positivo, é uma ajuda para o consumo. Mas não é relevante a ponto de comprarmos uma estratégia”, alerta o sócio da Queluz Investimentos.

Esqueça as estatísticas
Portanto, mais do que se ater a estatísticas, os investidores devem avaliar o cenário atual. E, no que depende da economia, muitos pontos da atual crise ainda estão em aberto, criando um cenário de fortes incertezas.

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Além da situação europeia, ainda longe de uma solução definitiva, os Estados Unidos entram em cena novamente. Por lá, quanto mais próximo de 2013 chegamos, mais se fala no “abismo fiscal”, uma expressão utilizada para descrever uma série de leis que entrarão em vigor no dia 1º de janeiro.

Em meio a conflitos entre republicanos e democratas para reduzir o déficit público, o Congresso norte-americano tem até o fim deste ano para encontrar um meio de sanar as contas públicas. Se isso não acontecer, entrará automaticamente em vigor um pacote que contém o fim de uma série de cortes de impostos e redução de gastos.

Esse fato preocupa os investidores, já que, em agosto deste ano, a comissão de Orçamento do Congresso americano, uma instituição sem ligações políticas, alertou que, se essas medidas de fato entrarem em vigor, os EUA podem enfrentar uma significativa recessão em 2013.

Assim, o diretor da Queluz Asset Management acredita que, neste final de ano, a Bolsa será guiada por esse impasse norte-americano, aliado à situação na Europa, e pelo desaquecimento da economia chinesa. “Esses são temas muito mais importantes que fatores estatísticos.”

Essa matéria foi publicada na edição 41 da revista InfoMoney, referente ao bimestre novembro/dezembro de 2012. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.