Hegemonia ameaçada?

Após dobrar de valor na Bolsa, a Cetip estuda crescer no promissor mercado imobiliário. O que assusta os investidores é a possível concorrência

Publicidade

SÃO PAULO – Um monopólio pode ser definido como a situação de mercado em que um só vendedor controla toda a oferta de uma mercadoria ou de um serviço. Responsável por manter 97% dos ativos privados de renda fixa em sua custódia e detentora de 75% do registro dos derivativos de balcão, pode-se dizer que a Cetip (CTIP3) não tem sofrido muito com a concorrência. A empresa se apresenta como a maior depositária de títulos privados de renda fixa da América Latina e a maior câmara de ativos privados do país. Essa posição hegemônica tem sido muito bem reconhecida pelo mercado: desde que abriu o capital na BM&FBovespa, em outubro de 2009, ela mais que duplicou seu valor de mercado, enquanto o Ibovespa andou de lado.

O sucesso das ações CTIP3 na Bolsa brasileira não veio por acaso: além da posição de liderança nos segmentos em que a atua, a empresa aproveitou a capitalização com o IPO para abocanhar a GRV Solutions e passar a registrar financiamentos para a compra de veículos. No ano seguinte, a plataforma internacional ICE (Intercontinental Exchange) comprou 12,4% do capital da Cetip, tornando-se a maior acionista da empresa. Essa parceria foi determinante para o lançamento do Cetip Trader, seu mais novo serviço, que reúne em uma única ferramenta os serviços de negociação eletrônica, pré-registro e consulta a negócios e preços de títulos públicos e privados no mercado secundário.

Além da liderança consolidada no mercado de renda fixa e de financiamento de veículos, a companhia também estuda ingressar em outro mercado bastante promissor: o imobiliário. “Estamos em conversação com alguns players internacionais e também dentro do próprio mercado brasileiro, para desenvolver projetos no mercado imobiliário”, disse André Milanez, diretor financeiro da Cetip, em entrevista a InfoMoney. Embora não tenha nada encaminhado, o diretor não descarta o anúncio de uma nova parceria ainda neste ano.

O outro lado da moeda
Com o constante desenvolvimento do mercado de capitais e do volume de crédito no Brasil, as ações da Cetip poderiam ser consideradas atraentes por qualquer investidor. Mas os analistas veem os papéis com alguma dose de ceticismo. O que tem se tornado consenso é que a concorrência no setor deve em breve começar a aumentar. A BM&FBovespa, por exemplo, já deixou explícita sua intenção de expandir as atividades no mercado de renda fixa. A ideia parece já ter sido absorvida pelos investidores: após subirem mais de 20% no começo de 2012, as ações da Cetip devolveram esses ganhos no segundo trimestre e, desde então, encontram-se com os mesmos preços do final de 2011.

Embora a perda da hegemonia ainda seja mera especulação, a incerteza torna mais difícil quantificar qualquer impacto nas projeções de resultados da empresa. “Eu acho o que tem pesado na ação é quando e como a BM&FBovespa vai entrar e qual vai ser o impacto no market share e nos preços que a Cetip cobra no mercado”, avalia Francisco Kops, analista da J. Safra Corretora.

Na mesma linha, a Ágora Corretora rebaixou a recomendação dada às ações da Cetip – de compra para manutenção –, esperando que a concorrência afete os números do balanço de 2012 e 2013. O preço-alvo esperado ao final do ano também foi cortado, de R$ 36 para R$ 32,30. Já o BTG Pactual, que também rebaixou a sugestão de CTIP3 de compra para neutra, acredita que o ambiente competitivo atual testará a habilidade da Cetip e da BM&FBovespa de reter clientes nos próximos anos.

Continua depois da publicidade

Barreiras a favor da Cetip
Basicamente, a Cetip atua em dois segmentos: um deles é a unidade de financiamento, que cuida especialmente do financiamento de automóveis, por meio do Sistema Nacional de Gravames, e o outro é o de renda fixa, no qual a empresa gera receita cobrando taxas de registro, transação e custódia – dependendo de cada produto. Esse segmento se divide em três principais produtos: CDB (Crédito de Depósito Bancário), debêntures/letras financeiras e registros de derivativos de balcão. É exatamente nesse tríplice segmento que a BM&FBovespa deve atrapalhar. Em parceria firmada desde o final do ano passado com a Calypso, uma das mais completas operadoras de balcão do mundo, a administradora da Bolsa brasileira pretende lançar seus primeiros produtos no começo de 2013.

Contudo, a BM&FBovespa vai ter que se esforçar para virar uma ameaça à Cetip. Devido à posição mais que consolidada da empresa no mercado brasileiro, a BM&FBovespa terá de aliar serviço de qualidade a um preço bastante competitivo, pois só assim conseguirá tornar compensatória a migração dos dealers para os seus serviços, explica o analista da J. Safra.

Joga ainda a favor da Cetip o aspecto cultural bastante diferente entre as duas empresas. “A Cetip é reconhecida como uma empresa com cultura de customização, conseguindo entender cada derivativo de maneira diferente e fazendo todo o processo de registro rapidamente”, comenta Kops. O primeiro passo para a BM&FBovespa se encaixar nesse segmento seria acabar com o estigma de que ela é somente uma “clearing” de ações. Passada essa etapa, entraria a questão dos preços cobrados. “Se o serviço da Cetip está agradando aos bancos, a BM&FBovespa precisaria entrar com um preço melhor, para se tornar atrativa”, complementa o analista.

Continua depois da publicidade

Confiante na força das barreiras de entrada do seu setor de atuação e nos futuros anúncios que devem chegar ao mercado, o diretor financeiro da Cetip acredita que assim que os investidores começarem a entender melhor os planos futuros da empresa e os rumores de concorrência mostrarem que não passam de rumores, a ação voltará a ganhar valor. “Assim que começarmos a montar as peças de nosso quebra-cabeça, o mercado vai começar a ter uma ideia melhor do que é nossa proposta”, garante Milanez.

Essa matéria foi publicada na edição 41 da revista InfoMoney, referente ao bimestre novembro/dezembro de 2012. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.


Idealizador e apresentador do canal Stock Pickers