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SÃO PAULO – A impressionante disparada do dólar desde o mês de junho, quando a mudança nas regras dos fundos de investimento aumentou o nervosismo do mercado, deve comprometer ainda mais o já apertado orçamento do consumidor brasileiro. A valorização do dólar frente ao real aumenta o custo de produção de vários produtos, o que acaba sendo repassado para o consumidor através de reajustes nos preços destes mesmos produtos.
Queda na demanda impede reajuste maior
Todos os produtos que tenham seu custo de produção de alguma forma atrelado à variação do dólar devem sofrer reajustes de preços. Este é o caso, por exemplo, dos combustíveis, como a gasolina e o gás de cozinha, dos produtos que incluem trigo ou farinha de soja na sua composição, como o pãozinho francês, o macarrão, e até mesmo alguns produtos de limpeza, cuja embalagem de plástico e alguns de seus componentes também seguem a variação do dólar.
No caso dos produtos agroindustriais a alta do dólar desde o início do ano já é sentida há algum tempo, este é o caso, por exemplo, da farinha de trigo, do pão, do macarrão e do óleo de soja. Antes mesmo da atual disparada do dólar, alguns destes produtos já registraram fortes reajustes de preços.
Entre maio e junho, por exemplo, os dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE, apontam para um aumento de 6,62% no preço do óleo de soja, de 2,45% no pão de forma, de 1,45% no macarrão e de 1,31% na farinha de trigo. Já entre os combustíveis o maior aumento ficou com o preço do botijão de gás, que subiu 5,02%.
Outro setor que deve ser afetado é o dos remédios, cujo último reajuste foi concedido no início de 2002 e ficou em 4,32%. Entretanto, a alta do dólar encarece o custo dos princípios ativos usados na fabricação dos remédios o que levou a Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma) a reivindicar um novo reajuste em junho.
Na época, a Febrafarma estimava que as perdas eram de cerca de 7%, mas estas estimativas eram baseadas na cotação do dólar a R$ 2,65. Na próxima semana a Federação deve se reunir para estimar as perdas acumuladas com as novas cotações do dólar acima de R$ 3,00.
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Na visão do professor de economia da USP e coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, Juarez Rizzieri, o impacto na inflação só não foi maior porque a queda na atividade econômica diminuiu a demanda por estes produtos e dificultou o reajuste dos preços. Entretanto se a situação atual persistir, os fabricantes não terão como evitar reajustes no preço dos produtos.
Pesquisar preços é fundamental
Como os repasses não são uniformes e dependem da força de atuação do fabricante no mercado, custo dos seus estoques, entre outros fatores, a recomendação para o consumidor é pesquisar mais do que nunca os preços. Para se ter uma idéia, o pão francês pode ser encontrado por R$ 0,13 ou R$ 0,25, uma diferença de quase 100%.
Apesar de boa parte da inflação de 2002 ser devida ao reajuste dos chamados preços administrados, como os combustíveis, a energia elétrica e o telefone, o mais provável é que diante deste cenário de incerteza o Governo tente ao máximo conter novos reajustes. Até porque novos reajustes poderiam reprimir ainda mais a demanda por estes produtos, com efeitos nocivos sobre a atividade da economia brasileira, o que acabaria alimentando o ciclo vicioso em que nos encontramos.
Além disto, uma queda ainda mais acentuada da demanda poderia levar alguns produtores, especialmente aqueles que fabricam bens cujos custos são fortemente afetados pela alta do dólar a reverem suas metas de produção. A queda na produção acarretaria um choque na oferta destes produtos, que possivelmente permitiria um repasse mais acentuado da alta do dólar para o preço dos produtos.
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Entretanto, mesmo que boa parte dos produtos não sofra um forte reajuste de preços, o mais provável é que muitos dos fabricantes esperem uma retomada mais acentuada da economia, para então reajustar os preços dos seus produtos. Diante deste cenário, não só as metas de inflação de 2002 serão afetadas, mas muito provavelmente a do próximo ano também.
Por sua vez, a manutenção da inflação em níveis elevados impede uma política mais agressiva de redução dos juros por parte das autoridades monetárias. Ao consumidor resta apenas esperar que este efeito dure o menor tempo possível para que o impacto no seu orçamento seja minimizado. Caso contrário, a única saída será, como sempre, apertar os cintos e cortar despesas.
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