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SÃO PAULO – O ano passado apresentou uma dinâmica complicada para o investidor de valor. Em grande parte por causa da euforia com o mercado doméstico, os preços de alguns ativos dispararam, com base justamente numa perspectiva futura de crescimento, apoiando-se assim numa premissa que é justamente o oposto do que prega essa estratégia.
Para Diogo Figueiredo, analista de renda variável da Rio Bravo, 2010 foi uma ano difícil para o investidor de valor, que procura identificar empresas injustificadamente depreciadas na bolsa. Não é que Figueiredo e os analistas que compõem a equipe de análise de renda variável da Rio Bravo discordem essencialmente das projeções para a economia doméstica, mas “não gostamos de pagar por isso”, afirmou.
Voltada para a análise fundamentalista, a equipe do Rio Bravo Fundamental procura empresas com preços depreciados, ou descontados, no jargão utilizado pelo mercado, o que acaba se refletindo em múltiplos, tais como a relação entre preço e lucro, por exemplo, baixos em relação à média do mercado. A gestora também costuma atribuir importância a outras variáveis, especialmente o retorno sobre capital, que mede o quanto a empresa tem de retorno sobre todo o capital investido.
No entanto, neste início de ano, a situação melhorou. De um lado, as empresas apresentaram evolução de seus resultados, como lucro e receita, por exemplo, e os preços das ações de algumas companhias, especialmente daquelas voltadas para o mercado doméstico, sofreram forte realização neste início de 2011.
Itaú Unibanco: uma boa opção
“Nós temos pesquisado mais empresas com perspectivas de investimento do que no ano passado”, declara Diogo Figueiredo. Um dos exemplos citados mais enfaticamente por Figueiredo foi o Itaú Unibanco (ITUB4), que atualmente faz parte da carteira Rio Bravo Fundamental.
Isso porque o banco reúne várias qualidades necessárias para configurar um investimento em valor. Em primeiro lugar, suas ações estão descontadas frente seus pares, com relação entre preço e lucro de aproximadamente 10 vezes. A perspectiva de crescimento da instituição fica entre 15% e 20%, com um retorno sobre capital significativo, de 20%. “O banco alia bom crescimento e rentabilidade e está precificado de forma errada, então para nós é uma ótima oportunidade”, afirma Figueiredo.
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O Itaú Unibanco também evidencia como empresas visíveis, e não apenas small caps, podem ser mal interpretadas. “Para nós, quando a empresa é líquida, é até melhor, porque a percepção de risco é menor”, afirmou o analista da Rio Bravo, que completou ainda com a informação de que mais da metade das ações da carteira do fundo atualmente fazem parte do Ibovespa. Além disso, o Itaú Unibanco é uma das instituições financeiras mais bem posicionas do País, numa indústria que já tem um padrão de competitividade favorável.
Crescimento também é oportunidade…
O investimento em valor, no entanto, não é o único com potencial para superar o desempenho do mercado neste momento. Para o Bank of America Merrill Lynch, tanto aplicações em empresas geradoras de valor quanto em companhias de crescimento tendem a ter performance superior à média em momentos de expansão econômica, mas esta última estratégia tende a dar mais retorno em estágios mais avançados desse ciclo.
Não à toa, a carteira do GALT FIA, da Geral Investimentos, que permite aplicações de no mínimo 50% em companhias de valor e no máximo 50% em empresas de crescimento observa atualmente uma relação de 61% e 39%, nessa ordem. “Não é uma posição cautelosa, é uma posição de crença no mercado”, afirmou Alessandro Barreto, gestor de recursos da Geral Investimentos.
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As companhias de crescimento, explica Barreto, em geral fazem parte de setores que estão em franca expansão ou cujas atividades ainda são incipientes. Além disso, indicadores como receita e lucro líquido costumam avançar bem além do PIB (Produto Interno Bruto) do país em que se situam, já que estão em fase não só de incremento substancial do ritmo de atividade, mas também passam por um momento de consolidação, com aquisição de concorrentes menores para se fortalecerem.
…especialmente após realização
No Brasil, Barreto exemplifica utilizando o setor de construção civil. Apesar da onda de abertura de capital no segmento vista de 2007 para cá, este ainda é um setor muito pulverizado, com diversas outras competidoras sem ações listadas na Bolsa. Além disso, com o crescimento econômico, essas empresas tendem a ser beneficiadas.
A Mills (MILS3), por exemplo, é uma delas. A empresa, que realizou seu IPO (Oferta Inicial de Ações) em 2010, tem apresentado expansão geográfica, como novas filiais espalhadas pelo Brasil, crescimento de lucro e geração de caixa entre 30% e 50% e ainda apresenta perspectivas positivas porque deverá beneficiar-se do investimento em infraestrutura, declara o gestor da Geral. Só para dimensionar o tamanho da defasagem, no Brasil temos atualmente, segundo estimativa da própria empresa, cera de 10.600 elevadores utilizados na construção para movimentação de carga ou pessoas, enquanto nos Estados Unidos são mais de 700 mil.
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Por causa dessas perspectivas, o valor da ação chegou a fechar em R$ 24,75 em 30 de novembro do ano passado. Desde então, o mercado passou a trabalhar com projeção de alta de inflação e dos juros e crescimento bem mais ameno, o que pesou sobre os papéis, cotados atualmente em R$ 18,00. “A queda criou uma oportunidade e voltamos a olhar o papel como uma opção nesse momento”, afirmou o gestor da Geral Investimentos, lembrando que o fundo participou do IPO da empresa, quando as ações foram precificadas a R$ 11,00.
Facebook: uma típica empresa de crescimento
É justamente essa promessa de retornos elevados que deixa os papéis atraentes. Muitos, por exemplo, discutem o valuation do Facebook, uma típica empresa de crescimento, diante da perspectiva de que a companhia irá abrir capital em 2012. Avaliado em aproximadamente US$ 50 bilhões pelo Goldman Sachs, mesmo considerada cara a rede social deve atrair diversos investidores. Em uma coluna do site Fool, Tim Beyers explica porque está disposto a pagar uma relação estimada entre preço e lucro de 171 (o que significa que a empresa demoraria para retornar para o acionista 171 anos de acordo com o atual preço) pela ação da empresa.
“Alguns negócios crescem rápido o suficiente não só para desafiar métricas de avaliação convencionais, mas também mercados turbulentos. O Facebook parece esse tipo de negócio atualmente”, afirmou Beyers.
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Riscos dos dois lados
Mas para todos que viveram a bolha “.com” nos anos 2000, a lembrança ainda é amarga. Apostar no crescimento, assim, exige acompanhamento da maturação das projeções, e é considerado um investimento mais arriscado do que em valor.
Mas não que esta estratégia também não tenha seus riscos embutidos. Olhar apenas os múltiplos de uma companhia, por exemplo, pode ser bastante enganador, lembra Diogo Figueiredo, da Rio Bravo. Isso porque em alguns casos a dinâmica da indústria justifica números abaixo da média do mercado, como é o caso do setor de telecomunicações.
“No Brasil, a dinâmica do segmento é perversa para a companhia. É necessário investir grande parte da receita, a competitividade é alta e geralmente o custo de capital é maior do que a taxa de retorno, então são companhias que estão recorrentemente destruindo valor”, conclui o analista.