Analistas divergem em recomendações para Gafisa

Margens estão muito pressionadas após incorpoação da Tenda, mas entrada no segmento de baixa renda é dado positivo

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SÃO PAULO – Dentro de um setor que deve se beneficiar fortemente do crescimento econômico do País neste ano, a Gafisa (GFSA3) divide as opinões dos analistas: enquanto uns apontam para as margens apertadas e a alta alavancagem, outros focam nos resultados, e acreditam que a empresa deve alcançar o guidance para o próximo ano.

Financiamento imobiliário e necessidade de diversificação
Os dados do crédito imobiliário referentes a 2009 mostraram crescimento de 13,3% frente a 2008, no quesito financiamento com recursos de popupança, atingindo R$ 34 bilhões. Somando os recustos do FGTS, o montante alcança R$ 49,6 bilhões.

Para 2010, segundo o analista do BB, Henrique Koch, a expectativa é de que os recursos do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, que é constituído pelas instituições que captam essa modalidade de aplicação financeira, com diretrizes de direcionamento de recursos estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional) avancem 47% e cheguem a R$ 50 bilhões.

“A demanda por crédito tende a continuar evoluindo em ritmo acentuado durante o ano, muito em função do ambiente macroeconômico favorável”, conclui Koch.

Entretanto, o analista chama atenção para a necessidade de diversficiação das fontes de financiamento ao setor, dado que os recursos da poupança – cuja captação líquida foi negativa em R$ 10,2 bilhões em 2009 – só devem ser suficientes para mais quatro anos de empréstimos, citando dados da ABECIP (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança).

“Atualmente, o saldo a ser destinado aos empréstimos imobiliários gira em torno de R$ 250 bilhões”, analisa Koch, citando a securitização de recebíveis como um bom exemplo de novas fontes de recurso.

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Setor Imobiliário
Para o analista do JP Morgan, Adrian Huerta, a perspectiva para o setor é positiva, com fortes expectativas de crescimento devido à boa saúde dos balanços das construtoras e às receitas com segmentos de baixa renda.

Dan McGoey e Heber Linghurst, analistas do Citigroup, que iniciou este ano cobertura do setor, citam ainda a rentabilidade atrativa e estimativa de aumento do crescimento.

O cenário macroeconômico positivo do país, assim como em todos os outros setores mais ligados à economia doméstica, também é um dado positivo. Apesar disso, há dois fatores que devem ser vistos com cautela. segundo Huerta: a provável falta de surpresas positivas nos resultados do quarto trimestre (que devem ser similares ao do período anterior) e o início do arrocho na política monetária.

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Outro que faz ressalvas é o analista do BB: com forte participação do capital externo, o setor de construção civil deve ficar suscetível às instabilidades do cenário internacional, segundo avaliação de Koch. Isso aliado à forte valorização de 2009 pode levar a novas quedas dos papéis.

Mas levando-se em conta o ano de 2010 como um todo, a perspectiva para o setor é favorável, com boas oportunidades de ganhos, apesar de possibilidade de um movimento de correção. No longo prazo, espera-se aumento de novos lançamentos e continuidade do bom ritmo de vendas.

Os analistas do Citi ainda chamam atenção para o perfil demográfico brasileiro favorável, que aliado à expecativa de crescimento para o País, que faz com que a equipe recomende exposição acima da média para as construtoras que possuam linhas voltadas para as classes mais baixas.

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Outro ponto positivo é que o governo brasileiro tem tido um papel importante: nos últimos meses, vem oferecendo às construtoras debêntures indexados à TR (Taxa Referencial) ao invés do CDI. O movimento é importante pois reduz a exposição das empresas às variações na Selic.

Além disso, o lançamento do programa Minha Casa, Minha Vida, em abril de 2009, que pretende reduzir o déficit habitacional no País, estimado em 7,2 milhões de habitações, através de financiamento hipotecário mais acessível.

Riscos
Mas ao mesmo tempo que a atuação do governo brasileiro é benéfica para as empresas do setor, também há riscos embutidos. O principal deles é a forte dependência em um mercado nascente de hipotecas, que está diretamente ligado a políticas públicas de governo, explicam os analistas do Citi.

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No curto prazo, com a proximidade das eleições presidenciais, o crédito habitacional ainda deve ser um dos pilares do governo e parte integral da campanha, mas o assunto deve ser acompanhado pelo investidor com cautela.

Gafisa
Os analistas divergem em relação às ações da Gafisa. Enquanto Huerta possui rating acima da média do mercado para os papéis e acredita que a empresa conseguirá alcançar o guidance projetado para o quarto trimestre e para 2010, McGoey e Linghurst citam as margens pressionadas como justificativa para recomendação de manutenção para as ações.

Citando margens menores, McGoey e Linghurst explicam que isso é resultado de fatores que a empresa está tentanto melhorar, e uma melhora na rentabilidade seria um importante catalisador. O P/BV (relação entre preço da ação e seu valor contábil – book value) está bem abaixo da média, resultando em um P/L (relação entre preço e lucro estimado) de 13 vezes – este, comparável aos pares do setor brasileiro.

“Nós acreditamos que a recente fusão e integração com a Tenda e a entrada no segmento de baixa renda em 2006 tenha pressionado as margens”, afirmam os analistas do Citi. A estimativa dos dois é que o lucro por ação fique em R$ 2,47 em 2010, ante R$ 1,59 que deve ser registrado relativo a 2009.

Os principais riscos estariam ligados a estrutura de capital e ao histórico do País de baixa disponibilidade de crédito hipotecário, ainda que isso esteja melhorando.

Possível oferta de ações
Em junho de 2009, a Gafisa havia registrado pedido de oferta de ações na CVM, no valor de cerca de R$ 800 milhões, mas optou por não realizá-la. Tanto os analistas do JP quanto do Citi concordam que a oferta deve acontecer ainda este ano.

Para Huerta, a alta probabilidade é em função do balanço muito alavancado. “A empresa é uma das mais alavancadas no setor imobiliário brasileiro, com a relação entre dívida líquida e patrimônio líquido chegando a 97%, ante 23% da concorrente Cyrela e 3% da Rossi.

Recomendações

Analista Recomendação Preço-alvo (R$) Upside (%)*
Citigroup Manutenção  31,90
JP Morgan Acima da média do mercado 34,00
Brascan – 35,90
*Baseado no fechamento do dia 3/2/2010