Discreto e ‘homem do povo’: conheça John Ternus, o novo CEO da Apple

Depois de uma era de eficiência operacional, o desafio agora é recolocar a tecnologia no centro da disputa

John Ternus é o novo nome à frente da Apple, após 15 anos de gestão de Tim Cook no comando da companhia. Como CEO da Apple, ele terá de lidar com a saída recente de executivos seniores e com uma reorganização da liderança, enquanto seu antecessor assumirá o cargo de presidente executivo do conselho.

Externamente, a pressão que Ternus enfrentará é ainda maior. Neste momento, a Apple tenta ganhar força na inteligência artificial em meio a críticas pela demora em desenvolver produtos capazes de competir com rivais como Google, Microsoft e OpenAI. 

Da engenharia à Apple

John Ternus se formou em Engenharia Mecânica pela Universidade da Pensilvânia, onde estudou entre 1993 e 1997. No último ano, ele e colegas desenvolveram um dispositivo que permitia que pessoas com tetraplegia controlassem um braço mecânico de alimentação a partir de movimentos da cabeça. O trabalho, ligado a uma iniciativa de robótica assistiva financiada pela National Science Foundation (NSF), foi apresentado em uma conferência da área e recebeu o prêmio de melhor trabalho estudantil da Procter & Gamble.

Após a graduação, Ternus trabalhou como engenheiro mecânico na Virtual Research Systems, empresa que desenvolvia equipamentos de realidade virtual. Em 2001, ingressou na equipe de design de produtos da Apple e, três anos depois, já havia sido promovido a gerente.

Em 2005, passou a liderar a engenharia de hardware do iMac. Mais tarde, assumiu a mesma frente no primeiro iPad, lançado em 2010, e permaneceu ligado às gerações seguintes do tablet. Em 2013, tornou-se vice-presidente de Engenharia de Hardware, com responsabilidade crescente sobre as linhas de Mac e iPad.

Nos anos seguintes, Ternus esteve envolvido no desenvolvimento de produtos como iPhone, AirPods e Apple Watch. Também teve papel central na transição dos Macs dos processadores da Intel para os chips Apple Silicon, que começaram a chegar ao mercado em 2020 e deram à companhia maior controle sobre a integração entre seus computadores, processadores e sistemas operacionais.

Defensor do Touch Bar

A trajetória inclui ainda apostas que tiveram recepção menos favorável. Segundo a Bloomberg, Ternus esteve entre os defensores da Touch Bar, introduzida no MacBook Pro em 2016 e posteriormente abandonada pela Apple. Seu período à frente do hardware também coincidiu com a geração de MacBooks equipada com o teclado “borboleta”, alvo de reclamações por falhas de funcionamento.

Em 2021, Ternus chegou ao primeiro escalão da companhia ao assumir como vice-presidente sênior de Engenharia de Hardware. Nos anos seguintes, recebeu novas responsabilidades, entre elas áreas ligadas ao Apple Watch, robótica e, mais recentemente, ao design de hardware e software. A ampliação de seu espaço dentro da Apple antecedeu a escolha para suceder Cook.

Detalhista e “homem do povo” 

Uma história contada pelo próprio Ternus ajuda a entender o grau de atenção que dedica aos produtos. No primeiro ano na Apple, durante uma visita a um fornecedor, passou parte da madrugada examinando com uma lupa os parafusos usados na parte traseira do Cinema Display. As peças tinham 35 sulcos concêntricos, quando a especificação previa 25.

“Que diabos eu estou fazendo? Isso é normal?”, contou ter pensado na ocasião, durante um discurso na Universidade da Pensilvânia em 2024. A resposta que encontrou foi que talvez aquilo não fosse normal, mas fazia sentido. “Talvez um cliente perceba, talvez não”, disse ao explicar por que considerava importante cuidar até dos detalhes que provavelmente passariam despercebidos.

Esse envolvimento técnico também aparece nos relatos de quem trabalhou com Ternus. Segundo a Bloomberg, ele costuma aprofundar questões de engenharia nas reuniões e procurar diretamente funcionários que conhecem em detalhe determinado produto quando precisa entender um problema. A reportagem também destaca sua relação próxima com Craig Federighi, responsável pela engenharia de software, apesar dos atritos que historicamente marcaram a relação entre as duas áreas da Apple.

A proximidade com as equipes vem do início de sua carreira na companhia. Quando foi promovido a gerente, Ternus teve a opção de ocupar uma sala particular, mas preferiu permanecer no espaço aberto com os funcionários. Segundo o New York Times, repetiu a escolha anos depois. Seu primeiro chefe na Apple, Steve Siefert, chegou a descrevê-lo como “um homem do povo”.

O perfil acessível não impediu Ternus de contrariar caminhos mais convencionais quando considerava outra solução tecnicamente melhor. Na equipe do iMac, por exemplo, apoiou o uso de ímãs para prender o vidro da tela e trabalhou com fornecedores para viabilizar a ideia. Siefert relatou ao New York Times que essa disposição para defender soluções pouco usuais já aparecia nos primeiros anos do engenheiro na empresa.

O desafio de comandar a Apple na era da IA

John Ternus assume uma Apple muito maior do que aquela recebida por Tim Cook em 2011 (hoje avaliada na casa dos US$ 4 trilhões) e em meio a uma renovação incomum na cúpula. Nos últimos meses, a Apple perdeu executivos de áreas como operações, finanças, design e inteligência artificial, além de profissionais técnicos disputados por concorrentes. Reter talentos e reorganizar essa estrutura será um dos primeiros testes internos de Ternus.

Na frente tecnológica, a inteligência artificial concentra a maior pressão. Retardatária na onda de IA generativa em comparação a Microsoft e OpenAI, a empresa enfrentou atrasos crônicos no desenvolvimento do Apple Intelligence. Parte dessa resposta começou a ganhar escala em 2026 com uma Siri renovada (turbinada inclusive com ajuda de rivais como o Google nos bastidores), mas esbarra em um gargalo físico: a maior parte dos iPhones em circulação no mundo não possui hardware capaz de rodar as funções locais mais avançadas.

Internamente, a expectativa é de que Ternus imprima um ritmo pragmático e ágil à tomada de decisões, rompendo com o estilo mais analítico de Cook. A troca de comando sinaliza também uma mudança de era: se Cook trouxe eficiência operacional e alta geração de caixa para a Apple, Ternus assume sob a cobrança de devolver à marca a inovação e o encantamento tecnológico perdidos na última década.