Empresas que atravessam gerações não duram por cultura. Duram por decisão

Longevidade empresarial costuma ser explicada por valores e legado. A prática mostra outra coisa: empresas duram porque institucionalizam decisões difíceis

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Existe um paradoxo nas empresas que atravessam gerações: elas não chegam longe apenas porque souberam preservar o que construíram.

Chegam porque, em diferentes momentos da sua história, tiveram coragem de abrir mão justamente daquilo que um dia as tornou bem-sucedidas.

Em um ambiente em que ciclos de negócio se encurtam, tecnologias transformam setores inteiros e vantagens competitivas desaparecem cada vez mais rápido, longevidade deixou de ser consequência de estabilidade.

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Tornou-se resultado da capacidade de mudar antes que a mudança seja imposta.

É preciso renovar negócios ainda rentáveis, preparar sucessores antes da urgência e realocar capital enquanto ainda existe liberdade para escolher.

A crença questionada: cultura forte garante longevidade

A explicação mais comum para a longevidade empresarial é a cultura: valores sólidos, propósito claro, orgulho de pertencer. Cultura importa, mas a lista de empresas admiradas de cada década que desapareceram das listas seguintes sugere que ela não basta.

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Cultura forte, aliás, tem um lado sombrio pouco discutido: ela protege o modelo que deu certo. Quanto mais a organização se orgulha do que a trouxe até aqui, mais difícil fica questionar se aquilo ainda a levará adiante.

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No Brasil, o desafio ganha uma camada adicional: muitas grandes empresas têm controle familiar ou controlador definido, e a longevidade da companhia se mistura à transição entre gerações.

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É justamente nesses momentos que organizações construídas ao longo de décadas podem se fortalecer ou se fragilizar. Travessias societárias e mudanças de comando não são apenas questões de sucessão: são testes da capacidade da empresa de se renovar sem perder aquilo que sustenta o negócio.

O que as longevas fazem de diferente

Empresas que atravessam gerações institucionalizam três decisões que as demais tratam como eventos excepcionais.

A primeira é renovar o portfólio antes da necessidade. Elas desinvestem de negócios ainda saudáveis quando o ciclo de valor dá sinais de maturidade, em vez de esperar a decadência tornar a venda inevitável e barata.

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Vender no auge é contraintuitivo por definição: o negócio dá lucro, emprega gente querida e carrega história. Mas é exatamente aí que ele vale mais, e é com esse valor que se financia a próxima curva. Quem espera a evidência da decadência vende barato aquilo que poderia ter vendido caro.

A segunda é suceder antes da urgência. Fundadores e executivos centrais são substituídos por meio de processos estruturados, com sucessores preparados ao longo de anos, e não por crise, doença ou conflito societário.

Não por acaso, a sucessão foi um dos fios condutores da conversa naquele painel: nas quatro companhias, a transição de comando entre gerações foi tratada como projeto de longo prazo, com regras claras entre família, conselho e gestão, e não como um acerto de bastidores na véspera.

A terceira é reinvestir na produtividade do negócio principal enquanto financiam o novo. Longevidade não é abandonar o core em nome da inovação, nem sacrificar o futuro para proteger o presente. É sustentar as duas agendas com disciplina de alocação de capital.

Longevidade é disciplina operacional

O que essas três decisões têm em comum é o desconforto. Nenhuma delas é natural, e por isso nenhuma acontece sem rito.

Na prática, as empresas que duram transformam o desconforto em processo: revisão periódica de portfólio com critérios explícitos de saída, regras de sucessão aprovadas pelo conselho antes de serem necessárias e um processo de alocação de capital em que o negócio principal compete pelos recursos como qualquer outro, sem cadeira cativa.

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O legado, nessas companhias, não é um álbum de conquistas a proteger. É uma capacidade de decidir que se renova a cada geração.

Existe uma métrica simples para testar se a sua empresa opera assim: quando foi a última vez que ela encerrou, vendeu ou reestruturou algo relevante por decisão própria, sem ser forçada por crise? Se a resposta estiver longe na memória, o portfólio provavelmente está sendo gerido pela inércia, enquanto a cultura celebra a estabilidade que a fragiliza.

A decisão que está sendo adiada

A pergunta que a liderança precisa responder não é como preservar o que a empresa construiu. É o que a empresa precisa ter coragem de mudar, vender ou encerrar hoje, enquanto a decisão ainda é dela.

Porque toda empresa longeva já matou, no auge, algo que amava. E toda empresa que desapareceu adiou essa decisão até que o mercado a tomasse em seu lugar.


Conselheira Independente | Estratégia, Transformação e Performance | 20 anos liderando agendas de transformação empresarial no Brasil e no exterior