O erro que as empresas estão cometendo com a Inteligência Artificial

A adoção acelerada de IA sem evolução equivalente na gestão está criando um risco nas organizações

Marina Borges

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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A inteligência artificial avançou mais rápido do que a capacidade das empresas de governá-la. Isso já não é novidade. Mas, esse descompasso começa a gerar um problema mais relevante do que a própria adoção da tecnologia.

Durante anos, a IA foi tratada como uma agenda de inovação. Projetos piloto, testes controlados e iniciativas conduzidas por áreas técnicas dominaram a primeira fase dessa tecnologia nas empresas.

Esse ciclo foi importante para validar o potencial da tecnologia. Mas ele já ficou para trás.

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O que se observa agora é uma transição mais profunda. O uso da IA deixou de ser periférico e passou a integrar decisões centrais do negócio.

Modelos já influenciam concessão de crédito, definição de preços, planejamento logístico, atendimento ao cliente e até decisões de alocação de recursos. Não mais como suporte marginal, mas como parte ativa do processo decisório.

Essa mudança altera a natureza do problema.

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O erro mais comum

O principal erro das empresas hoje é tratar a inteligência artificial como um tema tecnológico, quando ela já se tornou uma questão de gestão.

A adoção avançou, mas o modelo de operação, não.

Na prática, muitas organizações incorporaram algoritmos em decisões relevantes sem revisar como elas são estruturadas, monitoradas e controladas.

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O resultado é um desalinhamento crescente, onde decisões automatizadas operam em estruturas que ainda foram desenhadas para decisões humanas, mais lentas, mais visíveis e mais facilmente auditáveis. 

Quando a decisão escala, o risco também escala

A IA não apenas automatiza tarefas. Ela amplifica decisões.

Um modelo de crédito pode expandir exposição a risco em escala. Um algoritmo de precificação, ou pricing, na tradução livre para o inglês, pode alterar posicionamento competitivo em questão de dias. Um sistema de atendimento pode impactar percepção de marca em milhares de interações simultâneas.

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Esses movimentos acontecem com velocidade, volume e, muitas vezes, com baixa transparência.

Sem mecanismos claros de governança, erros deixam de ser pontuais e passam a ser sistêmicos.

Mais do que isso, tornam-se difíceis de detectar e ainda mais difíceis de corrigir a tempo.

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A responsabilidade mudou de lugar

Essa nova realidade desloca a responsabilidade dentro das organizações.

IA não é mais um tema destinado à tecnologia ou inovação. Hoje, ela passa a exigir envolvimento direto da alta liderança, porque afeta decisões que definem resultado, risco e estratégia.

Isso implica uma mudança menos óbvia e mais difícil: adaptar o modelo de gestão.

Não se trata de entender algoritmos em profundidade técnica, mas de garantir que a empresa tenha capacidade de operar decisões automatizadas com controle, clareza e responsabilidade.

Na prática, isso significa revisar como decisões são tomadas, quem responde por elas, quais limites existem e como desvios são identificados.

Empresas mais maduras começam a estruturar esse avanço ao integrar IA à governança de dados, à gestão de riscos e à operação. Criam mecanismos de monitoramento contínuo, definem níveis de autonomia para modelos e estabelecem critérios claros para intervenção humana. 

O ponto que ainda é subestimado

O maior risco hoje não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é incorporada.

Muitas empresas aceleraram a adoção de IA para capturar ganhos de eficiência e competitividade, mas não evoluíram com a mesma disciplina em governança, qualidade de dados e clareza de processos.

Isso cria um cenário em que decisões cada vez mais relevantes são tomadas por sistemas que operam sem supervisão proporcional ao seu impacto.

É um “risco silencioso”, porque no curto prazo os ganhos são visíveis. Mas, no médio prazo, inconsistências, vieses ou erros de direcionamento tendem a aparecer com mais força. 

A questão do momento é, a organização está preparada para governar decisões automatizadas com o mesmo rigor com que governa decisões humanas?

Porque, no fim, a IA não substitui o julgamento. Ela amplifica suas consequências.

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Marina Borges

VP de Operações e Sócia da Falconi | Conselheira Independente | Investidora Anjo | Especialista em gestão e empreendedorismo | Mãe de dois meninos