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O novo playground esportivo de Mark Cuban estará em Las Vegas a partir de 2028.
Por meio da Harbinger Sports Partners, o bilionário garantiu sua primeira entrada no beisebol ao adquirir uma participação minoritária, de valor não divulgado, no Las Vegas Athletics, franquia atualmente conhecida como Oakland Athletics.
Anunciado sem muitos detalhes no fim de julho, o acordo faz parte do esforço da equipe para levantar US$ 550 milhões em investimentos destinados à construção de um estádio avaliado em US$ 2 bilhões na Las Vegas Strip.
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Fundado pela estrela do Shark Tank Rashaun L. Williams, o fundo de private equity Harbinger foi criado para atrair investidores interessados em exposição de longo prazo à propriedade de franquias esportivas profissionais.
A troca da bola laranja pelo taco da MLB acontece 26 anos depois de Cuban comprar o Dallas Mavericks por US$ 285 milhões. A aquisição da franquia da NBA veio pouco tempo depois da venda da Broadcast.com para o Yahoo!, em 1999.
No auge da bolha das empresas pontocom, Cuban recebeu US$ 5,7 bilhões pela companhia que ajudou a antecipar uma das maiores transformações da indústria de mídia. Criada em 1990, foi uma das primeiras de distribuição de conteúdo pela internet.
Quase três décadas depois, o novo capítulo em Las Vegas, segundo o Yahoo Sports, é uma repetição de sua estratégia para o Mavericks na era “Esportes 2.0”.
Traduzido por Williams, o novo jargão aponta que essa fase será impulsionada pela inteligência artificial, direitos de mídia personalizados e novas ferramentas de engajamento digital capazes de transformar a forma como fãs consumirão esportes na próxima década.
Cuban atravessou com sucesso o colapso da bolha da internet e se tornou novamente um investidor relevante na próxima grande ruptura tecnológica. Desde 2019, ele aportou mais de US$ 100 milhões em quatro startups de inteligência artificial.
“Se você não entende de IA, é como alguém em 1999 dizendo: ‘Tenho certeza de que essa coisa da internet vai dar certo, mas não me importo’”, afirmou Cuban durante a CES de 2020.
No contexto da venda surpreendente do Los Angeles Lakers na última quinta-feira, Cuban aparece como o personagem ideal. Sua trajetória combina a ascensão da internet, a transformação do esporte em ativo financeiro e a nova fronteira da inteligência artificial, ajudando a explicar por que o Sportico crava que a operação está relacionada a uma aposta massiva na disrupção da IA.
Como bem escreveu o jornalista Eben Novy-Williams, as vendas de equipes esportivas costumam refletir o que está acontecendo na economia em geral.
Nas últimas décadas, diferentes grupos de bilionários encontraram no esporte uma forma de consolidar patrimônio e influência.
Primeiro vieram os empreendedores da internet durante a era das pontocom. Depois, os grandes nomes do mercado imobiliário. Mais recentemente, os investidores de private equity, fundos de hedge e mercados financeiros.
Agora, parece que chegou a vez dos “absolutistas da IA.”
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O bilionário da IA que encontrou valor no esporte
A trama que pegou o mercado desprevenido envolve dois compradores improváveis para uma franquia, agora, avaliada em US$ 12,5 bilhões: Joshua Kushner e Bob Iger, ex-CEO da Disney.
Do outro lado está Mark Walter, que vendeu os Lakers menos de um ano depois de adquirir a franquia por US$ 10 bilhões.
Segundo Bloomberg e Financial Times, a decisão pode estar relacionada à necessidade de levantar recursos para quitar empréstimos ligados às seguradoras controladas por Walter antes de uma eventual revisão negativa de sua classificação de crédito.
Kushner, que deve se tornar o proprietário controlador mais jovem da NBA, construiu sua reputação no mercado financeiro como fundador da Thrive Capital, empresa criada em 2009 e especializada em investimentos em tecnologia.
O próximo momento da gestora está no centro da corrida pela inteligência artificial. No início deste ano, a Thrive levantou mais de US$ 10 bilhões para seu novo fundo, direcionado a empresas de tecnologia em estágio inicial e de crescimento.
A aproximação com o esporte ganhou força por meio da Thrive Eternal, braço criado para investir em ativos culturais com potencial de preservação de valor no longo prazo.
Há duas semanas, a empresa foi anunciada como líder de um grupo interessado em adquirir uma participação de 20% nos direitos comerciais da Copa do Mundo e de outros torneios da FIFA.
Leia mais: O erro de valuation por trás do plano fracassado da FIFA
O movimento ajuda a explicar por que Iger voltou a se aproximar da Thrive. O executivo, que retornou à empresa como consultor em abril, logo após deixar a Disney, já havia ingressado na gestora em 2022 como sócio de capital de risco.
A estratégia de Kushner está concentrada em empresas posicionadas na fronteira tecnológica. Os investimentos da Thrive em OpenAI, SpaceX e Anduril não apenas ajudaram a impulsionar o retorno da gestora.
“As apostas iniciais da Thrive (…) também colocaram Kushner próximo dos novos oligarcas da tecnologia, como Sam Altman, Elon Musk e Palmer Luckey”, escreveu Novy-Williams.
Inclua também Jeff Bezos nesse seleto grupo. Segundo documento regulatório divulgado na última semana, a Thrive possuía 904.038 ações da Amazon avaliadas em US$ 215,5 milhões em 30 de junho.
O TechCrunch analisou a filosofia da gestora para decifrar a visão de Kushner.
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Diferentemente de fundos que pulverizam investimentos em busca de poucos grandes vencedores, a Thrive concentra parte relevante do capital em um número reduzido de empresas consideradas estratégicas. A obsessão é por encontrar os ativos capazes de redefinir mercados inteiros, como aconteceu com a própria OpenAI.
Estimativa da Bloomberg aponta que cerca de 90% do capital da gestora seja direcionado para os 15 principais investimentos de cada fundo.
Uma franquia esportiva seria apenas mais um investimento dentro desse portfólio ou representa uma aposta em um tipo de ativo que a inteligência artificial tende a valorizar ainda mais?
Em sua primeira carta aos investidores da Thrive Capital, vazada pela Bloomberg, Kushner escreveu:
“A maior parte do nosso tempo é dedicada a pensar nas consequências de primeira ordem da inteligência artificial. O que se torna mais eficiente? O que fica mais barato? O que será automatizado? Quais novos produtos se tornam possíveis?”
O memorando não menciona diretamente os Lakers.
A interpretação apresentada por Novy-Williams é que o esporte oferece uma oportunidade justamente por preservar características que podem ganhar relevância em um cenário de transformação tecnológica acelerada.
A questão é entender se essa tese se confirmará.
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O esporte contra a máquina
Em janeiro, o Financial Times conversou com Adam Kelly, presidente da IMG, uma das maiores agências globais de marketing esportivo, mídia e entretenimento, trazendo uma provocação que ajuda a entender a cobiça dos novos investidores pelo esporte: “sport is the antidote to AI”.
A entrevista discute como os detentores de direitos esportivos devem pensar o futuro de suas propriedades em um ambiente no qual a inteligência artificial tende a alterar profundamente a produção, distribuição e consumo de conteúdo.
Leia mais: A nova matemática dos direitos esportivos
Contra a inundação de conteúdos produzidos em escala, o esporte, segundo Kelly, aparece como um contraponto por carregar elementos que permanecem escassos na economia digital.
Leia mais: O fim do Sora expõe o excesso de conteúdo e o vazio de valor na era da IA
Existe um horário marcado, uma audiência reunida em torno do mesmo acontecimento e uma conexão emocional construída ao longo de décadas.
São elementos que não dependem apenas de eficiência tecnológica e ajudam a explicar por que propriedades esportivas preservam um tipo de valor que empresas de tecnologia passaram a perseguir.
A compra dos Lakers expõe uma contradição intrigante entre os evangelistas da inteligência artificial.
Enquanto apostam em máquinas capazes de produzir conteúdo em escala, eles buscam ativos culturais construídos justamente sobre aquilo que ainda não pode ser replicado.
Como destacou Novy-Williams, os mesmos empresários que apostam na maior transformação tecnológica da história recente enxergam no esporte um ativo com características únicas: identidade, comunidade e pertencimento.
Kushner resumiu essa visão ao explicar parte da estratégia da Thrive Eternal: “O objetivo não é comprar, otimizar e vender. Escolhemos deliberadamente uma estrutura de capital permanente porque os ativos que queremos possuir merecem um horizonte de tempo medido em décadas.”
O boletim VettedSports trouxe uma ponderação relevante sobre a mudança de perfil dos proprietários esportivos. A publicação lembra que muitas organizações esportivas nasceram como mom-and-pop businesses, negócios familiares construídos ao redor de uma comunidade, uma cidade e uma relação emocional com seus torcedores.
Ao longo das últimas décadas, a profissionalização ampliou o valor econômico desses ativos, porém também trouxe uma nova pergunta para a indústria: como equilibrar o retorno financeiro de longo prazo com o papel cultural que essas organizações carregam?
A resposta não está apenas nos balanços financeiros. Para milhões de torcedores, uma franquia esportiva continua sendo um patrimônio de memória, identidade e pertencimento.
O dono virou investidor
O risco da chegada dos bilionários ao esporte foi o ponto de partida escolhido pelo Financial Times para analisar a venda dos Lakers e a transformação do perfil dos proprietários de franquias esportivas.
Na década de 1940, quando Walter O’Malley começou a adquirir participações no Los Angeles Dodgers, ele era apenas um advogado interno da equipe.
Décadas depois, quando a franquia foi vendida em 2012 por um valor recorde de US$ 2 bilhões, o grupo comprador já representava uma nova geração de capital.
O consórcio era liderado por investidores do mercado financeiro, entre eles Mark Walter, o mesmo empresário que agora vendeu os Lakers.

A história resgatada pelo FT escancara como a ascensão dos bilionários ao esporte acompanha uma mudança econômica mais ampla.
O crescimento do private equity e dos mercados financeiros potencializou a capacidade desses investidores de comprar ativos que antes pertenciam a famílias ligadas diretamente à história das equipes.
Agora, a diferença está na relação com o ativo. Famílias como os O’Malley construíram sua riqueza a partir do próprio esporte e passaram franquias por gerações.
Para investidores financeiros, equipes esportivas fazem parte de portfólios maiores, sujeitos às mesmas decisões de alocação de capital aplicadas em outros negócios.
É justamente essa mudança que abre uma discussão sobre o futuro da propriedade esportiva.
Uma franquia pode ser tratada como um ativo financeiro de longo prazo e, ao mesmo tempo, continuar exercendo o papel de símbolo cultural de uma comunidade?
A dificuldade de precificar propriedades esportivas está justamente na ausência de comparáveis perfeitos. Como destaquei na coluna da semana passada ao analisar o valuation do FIFA Forward Enterprise, transações envolvendo grandes ativos esportivos são raras e possuem estruturas próprias.
Ainda assim, elas oferecem pistas importantes sobre como investidores avaliam marcas com escala global e potencial de crescimento.
A nova elite da tecnologia fez touchdown na NFL
A entrada de Kushner nos Lakers pode ser apenas o início de uma nova fase na propriedade esportiva americana.
No mês passado, um grupo liderado por Vinod Khosla, sócio minoritário do San Francisco 49ers, concordou em comprar o Seattle Seahawks.
Os termos oficiais do acordo não foram divulgados, mas fontes ouvidas pela ESPN indicaram um valor próximo de US$ 9,612 bilhões, novo recorde para uma franquia da NFL.
Leia mais: A bolha das avaliações no esporte: o novo perfil de investidores na NFL e os desafios do mercado
O número chama atenção quando comparado ao investimento que transformou Khosla em uma das referências da inteligência artificial.
Em 2019, sua empresa de venture capital, a Khosla Ventures, realizou um aporte inicial de US$ 50 milhões na OpenAI, adquirindo uma participação estimada em 5% da companhia na época.
O valor pago pelos Seahawks representa aproximadamente 192 vezes esse investimento inicial.
Citado por Novy-Williams como mais um dos “absolutistas da IA” chegando ao esporte, Khosla representa uma nova geração de investidores que enxergam tecnologia e ativos culturais como partes de uma mesma estratégia de longo prazo.
Diferentemente da NBA, a NFL possui menos negociações de franquias e um processo de aprovação de novos proprietários muito mais restritivo.
O jornalista do Sportico lembra que Khosla e Kushner possuem trajetórias e visões políticas diferentes, porém compartilham uma característica relevante para entender o próximo ciclo do esporte. Ambos construíram patrimônio apostando em transformações tecnológicas antes de elas se tornarem consenso.
“Lucratividade é uma admissão de uma empresa de que ela não possui nenhum lugar melhor para investir o dinheiro do que devolvê-lo aos acionistas”, escreveu Khosla no X.
A provocação de Khosla revela o abismo entre a mentalidade dos investidores de tecnologia e a natureza dos negócios esportivos.
O valor de um ativo que não cabe apenas no balanço
Quando analisei a compra dos Lakers no ano passado, o ponto foi entender o peso da mídia no valuation de US$ 10 bilhões da franquia.
A equipe possui um contrato de televisão local de longo prazo com a Spectrum SportsNet, avaliado em US$ 3 bilhões ao longo de 20 anos, firmado ainda no início da década passada. Na temporada 2025-26, o acordo representou uma receita de US$ 192,1 milhões.
Leia mais: NBA vai antecipar streaming próprio de jogos locais, e o paradoxo expõe o limite do novo contrato bilionário
O problema é que a base que sustentou esses contratos começou a mudar. O declínio das TVs por assinatura reduziu a previsibilidade dos modelos tradicionais de distribuição esportiva. Os direitos continuam valiosos, porém o mercado tenta descobrir qual será sua próxima configuração.
Foi justamente essa assimetria que colocou os valuations das franquias esportivas no centro do debate.
O preço pago por um ativo como os Lakers não reflete apenas as receitas atuais, mas uma expectativa sobre o papel que essas marcas terão em uma economia cada vez mais disputada por atenção.
Como escrevi ano passado no InfoMoney, existe uma distância crescente entre o valor atribuído às franquias esportivas e a base de receitas sustentáveis que elas conseguem gerar hoje.
Na época, em entrevista à CNBC, o fundador da RedBird Capital Partners já alertava para o risco de uma bolha construída sobre projeções de contratos de mídia que podem não existir no mesmo formato daqui a cinco anos.
Leia mais: O último movimento de Buffett e o futuro do esporte como ativo financeiro
A compra dos Lakers por Joshua acontece justamente nesse intervalo.
Entre uma indústria de mídia em transformação e uma tecnologia capaz de alterar a produção de conteúdo, os investidores da inteligência artificial parecem apostar que o esporte continuará sendo uma das poucas propriedades capazes de reunir comunidades inteiras em torno de experiências que não podem ser reproduzidas em escala.