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A breve melhora observada na Bolsa brasileira em julho deu lugar a uma nova onda de saída de capital estrangeiro em agosto, com impacto no desempenho do Ibovespa, benchmark da Bolsa brasileira. Segundo dados da B3, apenas até o dia 7 os investidores internacionais retiraram R$ 5,55 bilhões do mercado acionário brasileiro, movimento que continuou nos dias seguintes e ganhou força na terça-feira (11), quando o Ibovespa sofreu uma queda de 2,5%.
A reversão chama atenção porque ocorre após um primeiro semestre marcado por entrada líquida de R$ 33,8 bilhões de recursos estrangeiros e levanta uma questão importante para investidores: a debandada atual é consequência da volta da euforia global com inteligência artificial ou reflete uma deterioração da percepção sobre o Brasil?
Para analistas e gestores, a resposta passa pelos dois fatores, mas o peso dos elementos domésticos parece estar aumentando conforme o país se aproxima das eleições de outubro.
“A saída de R$ 5,55 bilhões é uma das forças que impedem o Ibovespa de avançar, mas o impacto não ocorre de forma linear. O desempenho do índice também depende de ações de grande peso, como bancos, Petrobras [PETR4] e Vale [VALE3], que podem compensar ou ampliar essa pressão”, afirma Elson Gusmão, diretor de Câmbio da Ourominas.
Segundo ele, a inteligência artificial continua desempenhando papel importante na alocação global de recursos. “O investidor global busca mercados com maior perspectiva de crescimento dos lucros, enquanto o Ibovespa permanece concentrado em commodities, bancos e empresas domésticas. Por isso, mesmo barata, a Bolsa brasileira precisa de um gatilho claro para atrair capital.”
Ainda assim, Gusmão ressalta que o movimento não deve ser interpretado como uma fuga estrutural. O saldo positivo acumulado no primeiro semestre sugere mais uma redução tática de exposição do que uma mudança definitiva de visão sobre o país.
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Fernando Siqueira, head de Research da Eleven Financial, aponta que agosto está sendo novamente um mês positivo no mercado internacional, mas melhor no S&P e Nasdaq em função dos bons resultados das empresas americanas e expectativas renovadas no setor de tecnologia.
“Esses momentos tendem a ser relativamente piores para o Brasil. A saída de investidores estrangeiros parece refletir isso. Além disso, do lado local o cenário piorou. A expectativa de corte de juros hoje é marginal, os resultados do 2T estão sendo ruins e a eleição se aproxima e parece mais um risco que algo positivo neste momento”, aponta.
IA disputa espaço com o risco Brasil
A força da narrativa ligada à inteligência artificial continua atraindo recursos para os Estados Unidos e outros mercados com exposição relevante ao tema.
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Para Gustavo Assis, CEO da Asset, o fenômeno contribui para explicar a migração de recursos, mas está longe de ser a única justificativa.
“A inteligência artificial faz parte dessa dinâmica, mas de forma indireta. O forte crescimento dos investimentos ligados à tecnologia aumentou a atratividade de empresas e mercados que concentram essa exposição, especialmente nos Estados Unidos, criando uma competição maior pelo capital global”, afirma.
Ele avalia que o investidor estrangeiro considera uma série de variáveis simultaneamente, como crescimento econômico, liquidez, juros, câmbio e prêmio de risco.
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“Seria simplificar demais atribuir a saída de recursos do Brasil apenas à IA.”
Uma análise semelhante é feita por Caio Ignácio, especialista em investimentos e sócio da Boa Brasil Capital, que aponta que o fluxo tem prevalecido sobre os fundamentos no comportamento recente do mercado.
“O movimento chama atenção porque temos resultados corporativos fortes, como o da Petrobras, e ainda assim o índice não sustenta alta. A explicação está mais no fluxo do que no fundamento.”
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Segundo Ignácio, o fortalecimento da tese de inteligência artificial fez o mercado brasileiro assumir uma espécie de posição oposta às ações de tecnologia americanas.
“Quando a confiança no ciclo de IA enfraquece, o capital busca ativos mais físicos e tradicionais, o que ajuda o Brasil. Quando essa confiança volta a crescer, como aconteceu recentemente com o Nasdaq subindo enquanto o Ibovespa caía, o dinheiro sai daqui e volta para a tecnologia americana.”
Política começa a fazer preço
Se a IA explica parte da movimentação global, diversos profissionais afirmam que a agenda doméstica tem passado a ocupar papel central na tomada de decisão dos investidores.
Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, afirma que a percepção sobre a eleição começou a influenciar os preços de forma mais clara.
“Escutei de três fundos que a política começou a fazer preço. O mercado está incorporando um quarto mandato do Lula, com fiscal fraco.”
Segundo ele, também cresceram as preocupações com crédito e atividade econômica. “Juros altos pioram o crédito. E o crédito piora a atividade econômica. É um ciclo complicado.”
Na avaliação do estrategista, os debates eleitorais, o horário eleitoral e a divulgação de programas econômicos devem aumentar a volatilidade ao longo dos próximos meses.
Josias Bento, especialista em mercado de capitais e sócio da GT Capital, também vê fatores locais ganhando protagonismo.
“O índice estava sendo sustentado muito pelas ações da Petrobras. Com o conflito no Oriente Médio, o petróleo mais caro aumentava os preços da principal petroleira brasileira. Com os ânimos mais calmos, a companhia perdeu valor.”
Ele acrescenta que a recente ata do Copom gerou dúvidas sobre os próximos passos da política monetária, enquanto o rebaixamento da recomendação para ativos brasileiros pelo JPMorgan reforçou a cautela.
“São fatores que, somados, fazem o índice cair e o capital estrangeiro seguir o caminho de rotação, saindo dos emergentes e indo para empresas de tecnologia americanas.”
O JPMorgan rebaixou sua recomendação para o Brasil de overweight (exposição acima da média do mercado) para neutro, argumentando que o ciclo de queda dos juros está chegando ao fim, enquanto a atividade econômica desacelera e os indicadores de crédito se deterioram.
A instituição espera apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em setembro, seguido por uma longa pausa até o segundo trimestre de 2027.
Para o banco, o período pré-eleitoral costuma ser desfavorável para os ativos brasileiros e a volatilidade deve aumentar à medida que a disputa presidencial se aproxima. O JPMorgan também reduziu sua projeção para o Ibovespa ao final de 2026 de 190 mil para 185 mil pontos.
Falta um gatilho para o estrangeiro
Na visão de Thiago Pedroso, responsável pela área de renda variável da Criteria, houve um conjunto de fatores negativos atingindo simultaneamente o mercado.
Na sexta-feira (7), ele destacou que a sinalização da Petrobras de que dividendos extraordinários dificilmente serão pagos neste ano e resultados decepcionantes de companhias de varejo como Lojas Renner (LREN3) e Magazine Luiza (MGLU3) pesaram negativamente no mercado.
“Tudo isso afasta ainda mais o estrangeiro, que não vê nenhum gatilho no curto prazo para manter recurso na bolsa brasileira.”
Apesar disso, Pedroso observa que os preços seguem descontados em diversos setores. “O mercado local está muito barato ainda. Mas conforme a sensação de piora dos fundamentos da economia aumenta, pode cair mais.”
A equipe de estratégia da XP Investimentos também ressalta que a Bolsa brasileira voltou a apresentar desempenho inferior ao dos mercados globais, puxada por uma temporada de resultados do 2T26 significativamente mais forte que o esperado nos Estados Unidos, em contraste com uma temporada mista no Brasil até aqui.
O que esperar dos próximos meses?
O consenso entre os especialistas é que a disputa entre fatores globais e locais continuará orientando os fluxos.
A inteligência artificial deve seguir como a principal narrativa internacional, principalmente enquanto as gigantes americanas de tecnologia continuarem entregando crescimento acelerado. Enquanto isso, a aproximação das eleições tende a aumentar o peso de temas como fiscal, trajetória da Selic, inflação e crédito.
Segundo Josias Bento, a agenda doméstica pode ganhar protagonismo rapidamente. “Mesmo a inteligência artificial sendo um grande mercado em ascensão, aqui no Brasil o que mexe o ponteiro mesmo é Selic, IPCA e fiscal.”
Já Elson Gusmão acredita que uma combinação de queda dos juros globais, redução da incerteza fiscal e eventual correção das empresas de tecnologia poderia favorecer uma volta do capital estrangeiro para o Brasil.
O cenário de momento, contudo, permanece desafiador, já que a Bolsa continua barata sob diversos critérios, mas sem um catalisador claro capaz de competir com o apelo da inteligência artificial e dissipar as dúvidas sobre o rumo da economia brasileira em ano eleitoral.

