A disciplina que ninguém consegue manter

Implementar uma mudança pode ser relativamente simples; o verdadeiro desafio está em fazer com que novos padrões continuem funcionando quando a pressão inicial desaparece

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Estava conversando com um gestor que tem mais de 20 anos em logística. Um tipo de profissional que já viu operações crescerem do zero, que conhece cada detalhe de como funciona um centro de distribuição, que sabe exatamente “onde dói”.

Apresentei para ele as soluções que estamos trabalhando com nossos clientes em logística no Brasil. Ele confirmou tudo. As dores que documentamos? Existem.

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Os padrões que propomos? Fazem muito sentido. Os números de ganho que alcançamos? Realistas. Até aqui tudo correto. 

Mas ele compartilhou uma observação que não saiu mais da minha cabeça: vocês vêm, implementam, colocam foco total, instalam os indicadores, treinam o time. Funciona, óbvio.

Mas, ao sair, seis meses depois, percebemos que voltou ao que era. Não porque a solução era ruim. Porque a disciplina de manter funcionando é uma coisa completamente diferente. 

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Ao implementar mudança operacional, há uma fase em que tudo funciona perfeitamente.

Os coordenadores estão atentos, as lideranças estão focadas, existe pressão clara de que algo importante está acontecendo. Os indicadores sobem, as eficiências aparecem.

Parece que finalmente, depois de anos, o negócio vai sair do lugar. Mas o tempo passa. O foco diminui. As rotinas ganham espaço. E a liderança descobre que o padrão que estava sendo seguido em 95% dos casos agora é seguido em 60%. 

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A tentação é culpar as pessoas. Culpar os coordenadores por não cobrarem, culpar a liderança por não comunicar, culpar a operação por não ter internalizado. Mas a verdade é mais incômoda que isso.

A verdade é que você está vendo um problema que não é de competência. É um problema de comportamento humano e de como o sistema é estruturado para sustentá-lo. 

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Competência é diferente de disciplina 

Você pode treinar uma pessoa para fazer a roteirização correta. Ela aprende. Isso é competência.

Mas, e quando é preciso fazer a roteirização correta toda quinta-feira às três da tarde, quando ninguém está vendo, quando existe pressão para entregar rápido, quando o coordenador de turno é novo? Isso é disciplina. E disciplina não é algo que você treina uma vez e resolve. 

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Quando existe pressão externa (um consultor presente, sabendo que será avaliado), o profissional mantém. Quando a pressão desaparece, volta para o comportamento que exige menos esforço mental.

Não é fraqueza. É fisiologia. O cérebro prefere economizar energia. Se pode fazer rápido e errado, e ninguém percebe, por que fazer certo e demorado? 

Como fazer – e sustentar – a mudança 

Quando você é responsável por um segmento inteiro de operação, descobre que esse problema não se resolve com mais treinamento. Se resolve estruturando três elementos que precisam andar juntos e de forma integrada. 

O ponto de partida é deixar explícito qual é o compromisso esperado. Não é convocar a equipe e falar que é importante manter os padrões. Todo mundo já sabe que é importante.

O que você precisa fazer é deixar claro que está observando quem de fato sustenta o comprometimento com o que é importante e quem não sustenta. Que isso é critério de avaliação. Que importa para o crescimento profissional daquela pessoa na organização. Que tem consequência. Não é ameaça.

É deixar claro o que está em jogo. Quando as pessoas entendem que você está avaliando pela capacidade de manter, não só pela capacidade de executar quando está sendo cobrado, o comportamento muda. 

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O segundo elemento é fazer uma avaliação real de quem consegue sustentar. Aqui se descobre algo muito interessante. Nem todo mundo que diz que vai manter, de fato mantém. Alguns mantêm com consistência, independente de pressão externa. Outros, quando você está vendo. 

Outros não mantêm nunca. Você precisa saber quem é quem. Quem mantém é quem você desenvolve para posições maiores. Quem deixa cair quando ninguém vê é quem você redobra atenção e oferece suporte específico. E quem não mantém, não deveria estar naquela posição de liderança. Não é castigo.

É ser honesto sobre os que conseguem sustentar mudança organizacional e os que não conseguem. 

O terceiro elemento é desenhar um sistema que não depende de monitoramento constante. O líder coloca em pé indicadores que puxam comportamento automaticamente.

Reviews que cobram a métrica de consistência, não só de execução de tarefa. Avaliação periódica que separa quem mantém de quem deixa cair. Quando o sistema está desenhado para cobrar disciplina continuamente, ela vira parte da rotina operacional.

Não porque a pessoa se tornou muito dedicada, mas porque se ela não mantiver, vai aparecer em algum lugar que alguém verá e questionar.

Aqui está a pergunta fundamental que é preciso ser feita para seu time: você está avaliando seus profissionais pela capacidade de manter a disciplina quando ninguém está vendo, ou só pela capacidade de executar bem quando está sendo cobrado? Essas são duas coisas totalmente diferentes. Uma é competência técnica. Outra é caráter e comprometimento.

Quando você começa a separar essas duas dimensões nas decisões sobre quem será desenvolvido, quem ficará na organização e quem sairá, é quando a mudança começa a se tornar realidade e se sustentar ao longo do tempo.


Conselheira Independente | Investidora Anjo | Especialista em gestão e empreendedorismo | Mãe de dois meninos