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Com as dívidas comprometendo quase 30% do orçamento das famílias, vem “sobrando mês no salário” dos brasileiros. Um levantamento da fintech Jeitto, que analisou o padrão de consumo de sua base de 15 milhões de clientes das classes C e D, mostrou que agora as pessoas enfrentam o chamado “efeito sanfona” também no crédito.
O estudo mostra que o recurso passou a ocupar um papel diferente na vida do cidadão e, ao invés de financiar compras de bens de maior valor, ele passou a complementar o salário quando o dinheiro acaba antes do final do mês. A pesquisa mostra ainda que, entre os dias 12 e 25, período em que a maior parte das contas já foi paga e a renda começa a se esgotar, o volume de transações cai 55%. Já nos últimos cinco dias do mês, as operações voltam a crescer 73%, impulsionadas principalmente pelo uso do Pix no crédito para compras em supermercados, farmácias e postos de combustíveis.
O levantamento ajuda a explicar, na prática, como o crédito deixou de ser utilizado prioritariamente para a compra de produtos mais caros e passou a funcionar como uma extensão da renda para cobrir despesas essenciais, segundo dados do aplicativo de crédito e consumo voltado a clientes das classes de renda C e D.
Outro dado que chama atenção é o valor médio dessas operações. O ticket registrado no fim do mês é de apenas R$ 265, indicando que o crédito está sendo utilizado para pequenas despesas do cotidiano, e não para ampliar o consumo ou financiar compras de maior valor.
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Salário comprometido
A pesquisa revela que o comportamento financeiro das famílias segue um ciclo bastante previsível ao longo do mês. Entre os dias 5 e 10, logo após o recebimento do salário, os consumidores priorizam o pagamento de contas fixas, como aluguel, água, energia elétrica, mensalidades escolares e faturas em atraso. Muitos também utilizam parte da renda para quitar dívidas e recuperar limite de crédito no mesmo dia.
Na sequência, entre os dias 12 e 25, ocorre o período de maior restrição orçamentária. Com a maior parte da renda já comprometida, as famílias reduzem drasticamente as compras e limitam os gastos ao essencial. É somente entre os dias 26 e 30 que o crédito volta a ganhar protagonismo. Nessa fase, o Pix no crédito e a liquidação de boletos passam a funcionar como uma ponte até o próximo pagamento.
Na avaliação da Jeitto, o comportamento observado mostra uma mudança importante na função do crédito para a população de menor renda. “Em vez de financiar eletrodomésticos, eletrônicos ou outros bens de maior valor, as linhas de crédito flexíveis passaram a atender necessidades imediatas do orçamento doméstico”, indica o estudo.
O perfil dos clientes analisados reforça essa característica. A maior concentração das operações ocorre entre consumidores de 36 a 45 anos, faixa etária formada, em sua maioria, por chefes de família. Há uma distribuição equilibrada entre homens e mulheres, com leve predominância do público feminino, enquanto São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais concentram a maior parte das transações.
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Aperto financeiro
Para especialistas, o levantamento ilustra como o orçamento da classe trabalhadora passou a determinar o próprio ritmo do varejo ao longo do mês. Com juros elevados, inflação ainda pressionando parte das despesas essenciais e um nível elevado de comprometimento da renda, muitas famílias passaram a utilizar pequenas operações de crédito apenas para conseguir atravessar os últimos dias antes do próximo salário.
Como consequência, o peso das dívidas no orçamento aumentou significativamente. A cada R$ 100 de renda familiar, cerca de R$ 29,30 já estão comprometidos com pagamento de dívidas e juros, conforme estudo da FGV EAESP, que mede impacto do endividamento na vida da população.
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O baixo valor médio das transações detectado pela Jeitto, em vez de estimular o consumo, funciona como um instrumento de gestão do fluxo de caixa familiar, permitindo cobrir despesas básicas sem ampliar significativamente o endividamento.
Nesse cenário, o chamado “efeito sanfona” deixa de ser apenas um comportamento e passa a refletir uma transformação na forma como milhões de brasileiros administram o orçamento em um ambiente de crédito caro e renda cada vez mais pressionada.