Dólar em queda é ânimo exagerado com Brasil? Por que há cautela no mercado com real

Dois fatores devem ganhar peso nos próximos meses: a expectativa de aperto monetário nos EUA e a manutenção de prêmios de risco elevados no mercado doméstico

Lara Rizério

Notas de real e dólar em imagem de ilustração
18 de dezembro de 2024
REUTERS/Amanda Perobelli
Notas de real e dólar em imagem de ilustração 18 de dezembro de 2024 REUTERS/Amanda Perobelli

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Julho marcou mais um mês de queda do dólar frente o real, com baixa de cerca de 1,8% da divisa americana no período, a R$ 5,06, acumulando perdas de 7,6% no acumulado do ano.

Apesar de mais um mês de queda para a divisa americana, analistas de mercado mostram cautela com o cenário para o real, de olho principalmente nos próximos eventos – com destaque para as eleições no segundo semestre.

Em análises recentes, a equipe de estratégia do Itaú BBA apontou ver uma forte divergência entre classes de ativos. A renda fixa reflete o cenário mais pessimista, com mais de 80% bear (negativo), enquanto o câmbio é o mais otimista e a Bolsa fica no meio-termo, ainda inclinada ao negativo. Ou seja, acredita que há espaço para desvalorização da moeda brasileira.

Em relatório macro, a instituição manteve suas estimativas de dólar a R$ 5,30 em 2026 e R$ 5,50 em 2027. Embora reconheça que o real tem sido beneficiado pela melhora dos termos de troca após a escalada do conflito no Oriente Médio e pelo diferencial de juros ainda elevado, o banco vê limitações para um cenário de apreciação mais intensa da moeda brasileira.

Segundo o Itaú, dois fatores devem ganhar peso nos próximos meses: a expectativa de aperto monetário adicional nos Estados Unidos e a manutenção de prêmios de risco elevados no mercado doméstico. Na visão dos economistas do banco, esse conjunto de fatores deve favorecer uma recuperação do dólar global e reduzir o apetite por ativos de risco, contribuindo para uma tendência de desvalorização gradual do real até o fim do ano.

O Morgan Stanley também apontou que o real já não parece tão atraente para posições compradas direcionais como esteve nos últimos meses. Na avaliação da instituição, o cenário de curto prazo se tornou mais equilibrado à medida que os fluxos para o Brasil perderam intensidade, parte das posições favoráveis ao real começou a ser desmontada e os ruídos eleitorais surgiram antes do esperado.

Para o banco, as tarifas anunciadas recentemente pelos Estados Unidos para parte das importações brasileiras e a divulgação de novas pesquisas eleitorais adicionam uma fonte extra de incerteza ao mercado. Embora o carrego elevado continue funcionando como proteção para a moeda, o Morgan Stanley avalia que o real tem menos potencial para superar seus pares emergentes no curto prazo.

O Goldman Sachs reconhece que o real tem fundamentos sólidos, ressaltando que a moeda brasileira continua entre as de melhor desempenho no último mês, beneficiada pela melhora dos termos de troca do país e por um ambiente mais favorável aos mercados emergentes.

Segundo a instituição, a valorização recente do real foi amplamente justificada pelo aumento dos preços das commodities exportadas pelo Brasil e por um contexto global mais benigno para ativos de risco. O banco acredita que um cenário de dólar global mais fraco, combinado com preços elevados de petróleo, ainda poderia sustentar algum desempenho adicional da moeda brasileira.

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Mas o Goldman também chama atenção para o avanço do calendário eleitoral, com maior força em agosto.

As convenções partidárias para confirmação dos candidatos estão em andamento e o prazo oficial para registro das candidaturas termina em 15 de agosto. Para os estrategistas do banco, o perfil de risco-retorno de posições compradas em real tende a ficar menos favorável à medida que a eleição se aproxima, já que movimentos abruptos provocados por notícias políticas podem superar os ganhos proporcionados pelo diferencial de juros.

Além da disputa eleitoral, a instituição observa deterioração das contas fiscais brasileiras ao longo do ano. Com a dívida pública em trajetória ascendente, o mercado deve ficar cada vez mais sensível aos impactos que diferentes resultados eleitorais podem ter sobre a condução da política fiscal.

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Do lado doméstico, o Goldman vê espaço para o real continuar relativamente resiliente mesmo diante da retomada do ciclo de cortes da Selic, desde que a inflação siga mostrando sinais de moderação. A avaliação é que a redução dos juros nominais será parcialmente compensada pela manutenção de taxas reais ainda elevadas.

Já o Bank of America mantém uma visão relativamente favorável para o Brasil dentro do universo de emergentes.

Em estudo sobre moedas globais, o banco concluiu que o real oferece uma relação mais atraente entre valuation e diferencial de juros do que outras moedas latino-americanas. A instituição cita o peso colombiano como um exemplo de moeda que oferece carrego superior, mas que estaria significativamente mais valorizada em relação aos seus fundamentos. Nesse contexto, o real aparece como uma alternativa mais equilibrada.

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A leitura reforça avaliação anterior do BofA de que, mesmo em um cenário de fortalecimento do dólar global, os ativos do Brasil possuem condições para resistir melhor que outros mercados emergentes, graças ao elevado diferencial de juros e aos fundamentos relativamente mais sólidos.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.