O dilema da perpetuidade: Como os gigantes brasileiros equilibram legado e inovação

Os líderes de JBS, Rede D’Or, Gerdau e Muffato mostraram como empresas duradouras combinam cultura, reinvenção e apostas de longo prazo

Mariana Amaro

Ativos mencionados na matéria

(a partir da esq.) Rafael Furlanetti, da XP, Giberto Tomazoni, CEO global da JBS, Paulo Moll, CEO da Rede D'Or, André Gerdau, Presidente do Conselho da Gerdau, e Ederson Muffato, diretor do Grupo Muffato(Foto: Fabio Rizzato / InfoMoney)
(a partir da esq.) Rafael Furlanetti, da XP, Giberto Tomazoni, CEO global da JBS, Paulo Moll, CEO da Rede D'Or, André Gerdau, Presidente do Conselho da Gerdau, e Ederson Muffato, diretor do Grupo Muffato(Foto: Fabio Rizzato / InfoMoney)

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Em um país onde o curto prazo costuma ditar o ritmo dos negócios, os representantes dos quatro dos maiores grupos empresariais do Brasil, JBS (JBSS32), Rede D’Or (RDOR3), Gerdau (GGBR3) e Grupo Muffato, subiram ao palco da Expert XP para discutir o que realmente importa: como construir empresas que atravessam gerações sem perder a relevância.

No painel, Giberto Tomazoni, CEO global da JBS, Paulo Moll, CEO da Rede D’Or, André Gerdau, Presidente do Conselho da Gerdau, e Ederson Muffato, diretor do Grupo Muffato, O painel, mediado por Rafael Furlanetti, sócio-diretor institucional da XP, revelou que, por trás dos balanços bilionários, a longevidade é fruto de uma disciplina quase obsessiva com a cultura e uma alocação de capital que não se deixa seduzir pelo modismo.

O “Custo Brasil” e a resiliência

Para André Gerdau, que representa a quinta geração de uma companhia fundada em 1901, a longevidade não é um acidente, mas uma capacidade constante de reinvenção. “A maior característica de uma empresa de tantos anos é a resiliência, a capacidade de se adaptar e se reinventar”, afirmou.

O desafio, segundo ele, é manter essa agilidade em um setor intensivo em capital e sob pressão global. “Apesar do nosso negócio ser aço, a velocidade com que o negócio se adapta ao serviço e ao cliente é o grande segredo da longevidade”, diz Gerdau.

“Apesar do nosso negócio ser aço, a velocidade com que o negócio se adapta ao serviço e ao cliente é o grande segredo da longevidade”

— André Gerdau, Presidente do Conselho da Gerdau

M&A vs. Greenfield: A estratégia de crescimento

O debate sobre alocação de capital expôs visões distintas. Gilberto Tomazzoni, CEO global da JBS, foi enfático na preferência por aquisições como motor de crescimento, citando a velocidade e a previsibilidade de caixa como diferenciais. “Nós preferimos fazer uma aquisição de uma companhia que já existe a começar uma nova frente de negócio porque já conhecemos o que estamos comprando e sabemos o potencial de geração de valor”, diz.

Já Paulo Moll, CEO da Rede D’Or, defende um modelo híbrido. Embora a empresa tenha crescido via aquisições, o cenário atual tem aberto espaço para projetos greenfield em regiões carentes. “A empresa foi criada por meio de aquisições, mas nos últimos anos, temos feito mais greenfield [começar projetos do zero]”, diz Moll.

Ele explica que, por um lado, aquisições bem integradas são rápidas, porém, há regiões do país carentes de hospitais de porte onde o retorno maior pode estar no greenfield. “Ainda que seja um investimento de mais longo prazo, existe uma vantagem de estar construindo um hospital do zero, com todos os fluxos e equipamentos versus adaptar prédios antigos e culturas diferentes”, explica.

Disrupção no varejo: Bets e emagrecedores

Entre os desafios atuais, Ederson Muffato, diretor do Grupo Muffato, destaca como novos hábitos e tecnologias estão reconfigurando o consumo. Para ele, o varejo alimentar enfrenta hoje duas tendências poderosas: as apostas online e os medicamentos para perda de peso.

Sobre o impacto das apostas, Muffato foi direto: “O fenômeno das apostas online, sem dúvida, é o nosso maior concorrente. Se parar para analisar, ele já é do tamanho do mercado do varejo alimentar no Brasil”, diz.

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Quanto às canetas emagrecedoras, o executivo vê uma mudança estrutural no mix de produtos. “Com o Mounjaro, estamos no começo da maior revolução no varejo alimentar do mundo”, diz.

“Com o Mounjaro, estamos no começo da maior revolução no varejo alimentar do mundo”

— Ederson Muffato, diretor do Grupo Muffato

O executivo explica que as canetas emagrecedoras já provocam um trade-off de categorias, com a redução de algumas e o aumento das vendas de outras. E, com a redução dos preços dos medicamentos, o impacto no varejo alimentar e em outros setores, como o de saúde, deve ser ainda maior, diz.

De olho na mudança dos hábitos alimentares, a JBS está investindo em biotecnologia. “Sabemos que a alimentação das pessoas vai mudar. Por isso, o desenvolvimento de proteínas, aminoácidos e peptídeos é o grande foco dos nossos investimentos no momento, porque são pontos transformacionais no sistema da alimentação”, diz Tomazoni.

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Na Rede D’or, por outro lado, um dos grandes investimentos é em inteligência artificial, que já usa a tecnologia na ponta. “O médico não precisa mais digitar todas as informações no prontuário, a IA captura, preenche essas informações e ainda dá sugestões e apoio ao diagnóstico médico. Mas só de você liberar esse tempo de qualidade do médico para ter mais tempo com o paciente, já é uma revolução na qualidade do atendimento”, diz.

A sucessão e o papel do fundador

Em empresas com décadas de vida, é inevitável falar sobre sucessão. André Gerdau detalhou o processo de transição para um CEO que não fazia parte da família fundadora e destacou a importância de separar o conselho da operação. “Quando a empresa familiar muda para um CEO que não é da família, tem o risco da família continuar querendo operar. Neste caso, é importante entender que o conselho é sobre estratégia, pessoas e relações institucionais. Mas não deve mais tratar do dia a dia”, diz.

Para o Grupo Muffato, que superou a perda trágica do fundador há 30 anos, o legado é a bússola. “Se fosse analisar o meu legado, o que eu quero deixar ao passar o bastão é a continuidade da cultura e dos valores da empresa, que o nosso fundador nos deixou”, diz Muffato.

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Ao final, o consenso entre os líderes foi claro: o sucesso de longo prazo no Brasil exige coragem para investir, disciplina para gerir o endividamento e, acima de tudo, a humildade de saber que, mesmo com décadas de história, a empresa deve continuar em constante aprendizado.

Mariana Amaro

Jornalista com experiência na cobertura de negócios e empreendedorismo. Apresenta o podcast Do Zero ao Topo