As opções do governo Lula para responder ao tarifaço dos Estados Unidos

Governo evita falar em retaliação imediata, prepara medidas de apoio aos exportadores e mantém negociação aberta com Washington

Marina Verenicz

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (à direita), conversa com o vice-presidente, Geraldo Alckmin, durante uma reunião ministerial no Palácio do Planalto, em Brasília, Brasil, em 31 de março de 2026. REUTERS/Adriano Machado/Foto de Arquivo
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (à direita), conversa com o vice-presidente, Geraldo Alckmin, durante uma reunião ministerial no Palácio do Planalto, em Brasília, Brasil, em 31 de março de 2026. REUTERS/Adriano Machado/Foto de Arquivo

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Com a entrada em vigor, nesta quarta-feira (22), da tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte das importações brasileiras, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passa a estudar como responder à medida sem ampliar o conflito comercial com o principal parceiro do Brasil fora da Ásia.

A sobretaxa anunciada por Washington atinge cerca de US$ 7,4 bilhões em exportações brasileiras, o equivalente a 18% das vendas do país para os Estados Unidos em 2024, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Considerando a pauta exportadora de 2025, o impacto recai sobre US$ 5,8 bilhões em produtos, ou 15% das exportações ao mercado americano.

Embora o Congresso tenha aprovado neste ano a Lei da Reciprocidade Econômica, integrantes do governo vêm sinalizando que uma resposta tarifária não é, neste momento, o caminho preferencial.

A estratégia desenhada pelo Planalto reúne quatro frentes: manter as negociações diplomáticas, preparar medidas de apoio aos setores afetados, estudar a aplicação da Lei da Reciprocidade e acompanhar novas investigações comerciais abertas pelos Estados Unidos.

Manter a negociação com Washington

    A principal aposta do governo continua sendo a via diplomática. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, afirmou que a prioridade é buscar uma solução negociada para reverter a decisão americana.

    “A ideia não é retaliação. Dizem que olho por olho, o que pode acontecer é os dois ficarem cegos”, afirmou após reunião com empresários atingidos pela tarifa.

    Segundo Alckmin, a Lei da Reciprocidade estabelece um procedimento com diversas etapas antes da adoção de qualquer medida comercial.

    Apoiar empresas prejudicadas

      Enquanto tenta reabrir o diálogo com os Estados Unidos, o governo também prepara um pacote de medidas para reduzir os efeitos da sobretaxa sobre os exportadores brasileiros.

      O secretário-executivo do MDIC, Márcio Elias Rosa, afirmou que ainda não há prazo para anunciar as ações porque o governo continua reunindo informações junto ao setor produtivo.

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      “Continuar negociando, essa é a orientação”, disse. Segundo ele, a decisão americana é “injusta, indevida e descabida”, mas isso não impede que o governo adote medidas para socorrer os segmentos mais afetados e tentar reverter a decisão.

      Ainda não foram detalhados quais instrumentos poderão ser utilizados, mas a expectativa é de que incluam mecanismos de apoio às empresas exportadoras.

      Acionar a Lei da Reciprocidade

        A Lei da Reciprocidade Econômica permanece como principal instrumento jurídico disponível caso as negociações fracassem.

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        A norma autoriza o governo brasileiro a responder a medidas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses nacionais. Apesar disso, integrantes do Executivo evitam tratar a legislação como um mecanismo automático de retaliação.

        Especialistas em comércio exterior também avaliam que uma sobretaxa equivalente sobre produtos americanos teria eficácia limitada e poderia elevar custos para a própria economia brasileira, além de ampliar a disputa entre os dois países.

        Preparar-se para uma nova tarifa

          Além da sobretaxa de 25% que começou a valer nesta quarta-feira, o governo acompanha outra frente aberta pela administração Donald Trump.

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          Até sexta-feira (24), os Estados Unidos devem concluir uma investigação sobre importações produzidas com trabalho análogo à escravidão. A expectativa do setor empresarial é que seja anunciada uma tarifa adicional de 12,5%.

          Segundo lideranças da indústria, essa nova cobrança deverá ser cumulativa às tarifas já existentes, embora exista a possibilidade de uma lista mais ampla de produtos isentos.

          O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou nesta semana que a decisão será divulgada “em breve”.

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          Diferentemente da tarifa anunciada contra o Brasil, essa investigação não é direcionada exclusivamente ao país. O procedimento alcança 59 nações e também a União Europeia. Em relatório preliminar divulgado em junho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) argumentou que esses mercados falham em impedir a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado, prática que, segundo o órgão, restringe o comércio americano.

          Lista de exceções reduziu impacto

          Apesar do aumento tarifário, a medida ficou abaixo do impacto inicialmente estimado pelo mercado porque os Estados Unidos retiraram 2.126 produtos brasileiros da lista de bens sujeitos à sobretaxa.

          O USTR justificou as exceções afirmando que esses itens são insumos importantes para a economia americana e que a taxação poderia provocar problemas de abastecimento interno. Entre os produtos poupados estão café, suco de laranja e carne bovina.

          O governo brasileiro argumenta que a decisão carece de fundamento técnico, já que os Estados Unidos mantêm superávit na balança comercial com o Brasil. Ainda assim, a prioridade do Planalto segue sendo evitar uma escalada da disputa comercial enquanto tenta preservar o acesso de exportadores brasileiros ao mercado americano.