Quais setores da Bolsa brasileira podem ser impactados com o novo tarifaço?

Com a tarifa como está, alguns setores da Bolsa sofrerão mais impactos negativos, em especial para empresas exportadoras com maior exposição ao mercado americano

Camille Bocanegra

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Após o novo tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos, o Ibovespa caiu 1,24% na sessão desta quinta-feira (16). Mais do que reação à já esperada decisão do USTR (Escritório do Representante Comercial da Casa Branca), a possibilidade de aplicação da Lei de Reciprocidade, dada a pressão que empresários dos setores taxados devem fazer, gera temor de guerra comercial.

Na reta final da sessão, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, sinalizou sobre essa possibilidade. “O governo, no momento adequado, saberá como implementar lei da reciprocidade”, disse, acrescentando que a Apex e o BNDES vão se empenhar para o Brasil conquistar novos mercados.

A aprovação da tarifa de 25% prevista na Seção 301 para produtos brasileiros, com vigência a partir de 22 de julho, manteve isentos os itens ligados à aviação civil, preservando as exportações da Embraer (EMBJ3) para os Estados Unidos. Por outro lado, motores, geradores e diversas categorias de equipamentos elétricos ficaram fora da lista de exceções e seguem sujeitos à taxação.

Com a tarifa como está, alguns setores da Bolsa sofrerão mais impactos negativos, em especial para empresas exportadoras com maior exposição ao mercado americano. Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, os setores de siderurgia, metalurgia, máquinas e bens industriais sofrerão mais com a aplicação.

Impacto neutro para Embraer e negativo para WEG

Em relatório, a XP avalia que o anúncio é neutro para Embraer e para Tupy (TUPY3) e Frasle (FRAS3), sem alterações relevantes em relação ao cenário já precificado, enquanto para a WEG o efeito é marginalmente negativo, embora amplamente esperado pelo mercado.

Além disso, a Seção 122, que prevê tarifa de 10%, continua em vigor até 24 de julho, mas o foco dos investidores tem migrado para uma possível aplicação da Seção 301 relacionada a trabalho forçado, que poderia acrescentar mais 12,5 pontos percentuais à cobrança atual.

Caso as medidas sejam cumulativas, a tarifa efetiva sobre os produtos afetados subiria de 25% para 37,5%, configurando o principal risco adicional para os exportadores industriais brasileiros, explica a XP. Até o momento, não há decisão final sobre essa possibilidade, mas ela é vista pela casa como o fator de maior atenção nas negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

Para a WEG, a XP afirma que o cenário-base continua sendo a incidência da tarifa de 25%, enquanto o principal debate agora gira em torno da eventual sobreposição entre diferentes medidas tarifárias. Embora as tarifas possam trazer algum benefício de margem no segundo trimestre em relação ao primeiro, esse efeito não deve se repetir no terceiro trimestre.

A empresa também segue exposta a uma estrutura tarifária distinta sobre suas operações no México, ligada à Seção 232 para equipamentos elétricos, que permanece inalterada e prevê alíquotas entre 15% e 25% sobre o valor total dos produtos. Com isso, a expectativa da corretora é de que os impactos das tarifas sobre as receitas da companhia aumentem em relação aos níveis observados no segundo trimestre de 2026.

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O Goldman Sachs cita a WEG (WEGE3) com possibilidade de rentabilidade no curto prazo ser impactada. Ainda assim, a companhia já teve parte de sua capacidade produtiva pra fora do Brasil, em especial para o México.

“Como mostra a apresentação mais recente da WEG para investidores, cerca de 29% da receita líquida da companhia vem da América do Norte. Estimamos que aproximadamente um terço dessas receitas (ou possivelmente menos, dado que a empresa vem transferindo capacidade produtiva do Brasil para a América do Norte em resposta às tarifas implementadas desde 2025) pode ser impactado por essas tarifas”, afirma.

Como ficam os outros setores?

“Empresas exportadoras de commodities com alta exposição aos Estados Unidos já precificam a perda de competitividade e operam pressionadas. Paralelamente, os papéis ligados ao petróleo têm apresentado um comportamento misto, reagindo mais às oscilações internacionais do barril e tensões geopolíticas globais do que às tarifas propriamente ditas”, diz Rebecca Nossig, especialista em investimentos da Nomad.

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Já bancos, utilities, concessões e empresas voltadas ao mercado doméstico tendem a apresentar desempenho relativamente melhor, por terem menor sensibilidade ao comércio exterior, segundo o analista.

“No entanto, as empresas envolvidas já iniciaram movimentos em tarifaços anteriores para minimizar impactos mais representativos, desenvolvendo novos mercados demandantes. Nesta linha, destaco as empresas Grendene, WEG, Tupy, Schulz e Metal Leve”, afirma Pedro Galdi, analista do AGF.