A estratégia para se posicionar na América Latina com o El Niño, segundo Santander

Banco recomenda focar em ações que capturam o aumento das temperaturas e o consumo por volume, enquanto sugere cautela e monitoramento com risco logístico e quebra de safras no agronegócio

Victória Anhesini

Ativos mencionados na matéria

(NASA/Divulgação)
(NASA/Divulgação)

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O fenômeno climático El Niño 2026/27 deixou de ser um risco distante e rapidamente se tornou integrado com a dinâmica acionária atual, podendo durar meses para que os investidores da bolsa brasileira consigam estabilizar suas carteiras.

O Santander divulgou, em relatório, que o evento não deve ser encarado como um choque macroeconômico uniforme capaz de derrubar ou levantar o mercado como um todo.

A melhor forma de se posicionar, conforme apontam os analistas do banco, é focar em uma estratégia de forte dispersão regional, setorial e de ações, selecionando ativos que capturem o aumento das temperaturas ou que apresentem resiliência operacional.

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No cenário internacional latino-americano, o banco de investimentos argumenta que a assimetria será a regra de mercado. Os analistas afirmam que o impacto do fenômeno climático redesenha o mapa de riscos da região, agindo como um divisor de águas entre os países vizinhos.

Para estruturar a carteira de ações e encontrar as melhores oportunidades de posicionamento nesse ambiente de alta fragmentação, os analistas dividiram as empresas brasileiras entre as teses de investimento beneficiadas e os ativos que demandam proteção imediata ou neutralidade estratégica.

O cenário macroeconômico e o impacto no consumo

No plano da macroeconomia, o Santander projeta que o bolso do brasileiro deve sentir o impacto do El Niño de forma muito concentrada, com os principais efeitos recaindo sobre o custo de vida em vez de uma recessão generalizada.

Pelos cálculos do banco, o Produto Interno Bruto (PIB) do país deve sofrer uma retração moderada de -0,6 ponto percentual, enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) cheio terá um acréscimo contido de +0,35 p.p, mascarando uma forte pressão de +2,4 p.p concentrada especificamente no segmento de alimentos.

“O Brasil possui um dos canais de transmissão do El Niño mais complexos da América Latina. O evento atua em direções opostas entre as regiões: o Sul está mais exposto ao excesso de chuvas e ao risco de enchentes, enquanto o Norte e o Nordeste enfrentam condições mais secas e potencial pressão na segurança alimentar”, afirma a equipe do Santander.

Essa dualidade geográfica descrita pelo banco protege o balanço energético geral do país e evita um choque persistente no índice oficial de inflação cheio, mas introduz uma forte volatilidade regional no abastecimento de grãos e na produção hortifrúti.

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Onde se posicionar na ponta compradora

A estratégia recomendada pelo banco consiste em comprar ações de empresas cuja demanda por produtos ou serviços sobe junto com os termômetros. Os analistas do Santander explicam que o El Niño tradicionalmente eleva as temperaturas médias em todo o território nacional, o que impulsiona o consumo de bebidas e o uso de aparelhos de refrigeração.

No agronegócio e no setor de alimentos e bebidas, a principal recomendação para surfar essa onda de calor é a Ambev (ABEV3). O banco ressalta que o ganho ocorre pela sensibilidade do consumidor ao clima, o que alavanca as vendas nos trimestres de inverno, período que sazonalmente registra desempenhos operacionais mais fracos.

“O El Niño tende a trazer temperaturas mais altas em todo o Brasil, o que pode apoiar os volumes de cerveja, refrigerantes, água e outras bebidas frias”, afirmam os analistas do Santander.

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Já no setor de utilidade pública (utilities), os analistas defendem que a melhor forma de se posicionar é por meio de distribuidoras de energia e saneamento básico.

Segundo o documento, companhias como a Equatorial (EQTL3) e a Energisa (ENGI3) são as melhores opções. No saneamento, a Copasa (CSMG3) desponta como uma escolha sólida.

“Temperaturas mais altas podem aumentar o consumo de eletricidade em suas áreas de concessão, apoiando os volumes e as receitas de distribuição reguladas”, acrescenta o documento ao avaliar a Equatorial.

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Onde mitigar riscos

Se por um lado o calor beneficia o consumo rápido, por outro o El Niño desregula o regime de chuvas, gerando secas no Norte e Nordeste, precipitações excessivas no Sul e chuvas concentradas no Centro-Oeste. Para o Santander, a melhor estratégia de posicionamento exige cautela ou proteção em empresas expostas à quebra de safra, custos de matéria-prima e gargalos logísticos.

No agronegócio, os analistas recomendam atenção e posições defensivas com a SLC Agrícola (SLCE3) e com a Minerva (BEEF3). De acordo com o documento, a SLC enfrenta riscos de déficits hídricos em regiões produtoras essenciais como Mato Grosso, Piauí e Maranhão, o que pode atrasar o plantio e prejudicar a produtividade.

O relatório pontua que a variável fundamental para o sucesso das lavouras no Brasil não é o volume total acumulado de água, mas sim a distribuição e o momento das chuvas.

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A Minerva, por sua vez, pode sofrer com o encarecimento do gado no longo prazo. A seca nas regiões de criação piora as condições das pastagens e acelera os abates imediatos.

Se por um lado isso gera uma oferta temporária, por outro atrasa a recomposição de fêmeas, gerando pressões financeiras fortes sobre o Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da companhia de frigoríficos.

“A equipe do setor estima que cada aumento de R$ 15/arroba nos preços do gado poderia reduzir o EBITDA da Minerva em cerca de R$ 800 milhões, assumindo taxas de câmbio e preços da carne bovina estáveis”, projeta a instituição financeira.

Na infraestrutura e transporte, o banco alerta para os desafios na navegabilidade do Arco Norte. Com o El Niño, os rios sofrem quedas intensas de nível, o que impacta a capacidade das barcaças de grãos.

“As chuvas menores no Norte do Brasil podem reduzir a navegabilidade dos rios, com a altura do Rio Tapajós historicamente ficando cerca de 0,9 m abaixo do normal durante o El Niño”, alerta a equipe de Transportes.

Esse recuo nos rios cria um cenário altamente adverso para as operações da Hidrovias do Brasil (HBSA3). A operadora ferroviária Rumo (RAIL3) também deve ser monitorada de perto.

Embora ela possa ser uma beneficiária relativa ao absorver parte dos grãos que deixam de ir para as hidrovias do Norte (redirecionando os fluxos para as ferrovias rumo ao Sudeste), ela sofre com o risco de menor volume de exportação caso o Centro-Oeste enfrente quebras de safra de milho e soja, além de lidar com paralisações operacionais causadas por excesso de chuva no Porto de Santos, onde os navios graneleiros ficam impedidos de carregar.

No setor financeiro e de seguros, as exposições são classificadas como de segunda ordem. Bancos como o Banco do Brasil (BBAS3) sofrem riscos indiretos caso a renda do produtor rural seja afetada por quebras de safra em Mato Grosso. Para as seguradoras, o canal é mais direto por meio do aumento de sinistros decorrentes de eventos climáticos severos.

Os analistas do banco detalham o panorama para o mercado segurador:

Setores em cima do muro

Nem todas as teses de investimento possuem um sinal claro de compra ou venda. Na estratégia de posicionamento do Santander, empresas de geração de energia e a Sabesp (SBSP3) exigem neutralidade devido à ambiguidade dos efeitos climáticos.

Geradoras como a Auren (AURE3), Axia Energia (AXIA3) e Copel (CPLE3) dependem diretamente da hidrologia, e os preços da energia no mercado spot (à vista) podem oscilar para qualquer lado.

No caso da Copel, o excesso de chuvas no Sul do país pode elevar os reservatórios locais, mas isso costuma pressionar o PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) nacional para baixo, prejudicando o braço de comercialização e geração da companhia paranaense.

“O impacto direcional é misto, pois os preços poderiam cair se a hidrologia melhorar nas bacias relevantes, mas poderiam subir se as condições gerais do sistema se deteriorarem ou se o risco de despacho térmico aumentar”, conclui o relatório do Santander sobre a dinâmica da Auren.

No saneamento paulista, a Sabesp é vista com cautela semelhante. O calor e o clima seco aumentam o consumo de água de forma imediata na Região Metropolitana de São Paulo, o que apoia os resultados de volume comercializado. Porém, se a estiagem atingir o Sudeste de forma severa e prolongada, a pressão operacional sobre os mananciais e os níveis dos reservatórios anula o ganho inicial do volume de vendas, forçando restrições operacionais e custos adicionais de captação.