Cigarros de Márcio Poncio tinham passe livre em áreas dominadas por Adilsinho

O pastor foi um dos presos pela Polícia Federal, nesta quinta-feira, na nova fase da Operação Unha e Carne

Agência O Globo

Rodrigo Bacellar, Adilsinho e Márcio Poncio são alvos de nova fase da operação Unha e Carne. Fotos: Alerj | Reprodução / Rede Globo | Reprodução / Rede social
Rodrigo Bacellar, Adilsinho e Márcio Poncio são alvos de nova fase da operação Unha e Carne. Fotos: Alerj | Reprodução / Rede Globo | Reprodução / Rede social

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Conversas obtidas pela Polícia Civil do Rio por meio de quebras de sigilo de integrantes da Máfia do Cigarro citam a atuação do pastor Márcio Poncio no mercado clandestino de cigarros no Rio.

Preso nesta quinta-feira pela Polícia Federal na quinta fase da Operação Unha e Carne, Poncio é investigado por ligação com a quadrilha do bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, que explora o monopólio da venda de cigarros ilegais em praticamente todo o estado.

Os diálogos indicam que, apesar de Adilsinho não tolerar a presença de outras marcas nas regiões que domina, os cigarros ligados ao pastor teriam passe livre em suas áreas.

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Num áudio enviado a um comparsa em outubro de 2022, o sargento Daniel Figueiredo Maia, apontado como um dos operadores de Adilsinho, contou que a quadrilha havia decidido tabelar o preço dos cigarros. Em seguida, Maia citou o pastor como a concorrência dos cigarros de Adilsinho nas ruas: “Só que o que tá ruim pra gente na rua é o pastor pô. Mas o cara tem a fábrica dele. Na verdade, quem atrapalha ele é a gente né, que o nosso é ‘ruim’, porque não tem nota. Agora vão apertar ele assim, vão disputar preço com ele. E vai vir um materialzinho diferente por aí, o patrão vai fazer também para vender entendeu?”.

Segundo policiais que investigam a quadrilha, marcas que não fazem parte do esquema são roubadas das lojas pelos operadores de Adilsinho, e seus donos são retaliados. Com os produtos ligados a Poncio, no entanto, a livre concorrência parece ser respeitada.

Outra conversa em que o pastor é citado mostra como a Máfia do Cigarro trata empresários que não integram a quadrilha e tentam se estabelecer nas lojas da cidade. Em março de 2023, o sargento Maia estava preocupado com a expansão de uma nova marca de cigarros pela Zona Oeste do Rio, a R8. “Quanto ‘tá’ custando o R8?”, perguntou a outro comparsa, que atuava nas ruas fazendo entrega de cigarros em pontos de venda.

O interlocutor tentou tranquilizar o PM: “Eles vão parar pô, eles vão parar pô. Tô desenrolando isso já é quase um mês já. Se eles continuarem com R8, eu vou baixar e vou botar aquele amarelo… Aquele G maço amarelo, para tomar deles”. Sua estratégia consistia em passar a fornecer cigarros de Adilsinho a preços mais baixos para evitar que os comerciantes comprassem o concorrente.

Mas a menção aos cigarros “amarelos” acendeu o alerta do sargento, afinal a quadrilha não vendia cigarros desse tipo. “O cara não faz o amarelo, irmão! O amarelo é do pastor”, explicou, em referência aos produtos ligados a Poncio.

Pesquisa de campo

No mês seguinte, como persistia a queda no faturamento, o sargento determinou que o subordinado fizesse uma pesquisa de campo: ele deveria comprar cigarros em diferentes pontos de venda e enviar fotos dos maços. “Tem uma desconfiança de que tem coisa de fora lá”, justificou. Em junho, Cristiano de Souza, principal distribuidor no Rio da marca R8 — justamente a citada pelo policial —, acabaria executado com mais de 30 tiros de fuzil por homens encapuzados. Com base no diálogo, o PM Daniel Maia foi denunciado pelo assassinato.

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O pastor Márcio Poncio foi preso na manhã desta quinta-feira num flat do Gran Hyatt, na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. Como o GLOBO mostrou, um elo societário conecta Adilsinho e o pastor. Charles Guilherme Costa de Vasconcellos, apontado como laranja de Poncio, também é acusado de ser operador de Adilsinho e integrar sua quadrilha, que explora o monopólio da venda de cigarros ilegais no Rio.

Vasconcellos foi um dos presos na Operação Libertatis 2, em março de 2025, contra integrantes da Máfia do Cigarro, chefiada por Adilsinho. Segundo a PF, ele é sócio da empresa Comercial 8, apontada como responsável pela distribuição dos cigarros ilegais do bando. Antes de sua ligação com Adilsinho vir a público, no entanto, Vasconcellos já era conhecido da Justiça por sua relação com o pastor Márcio Poncio. Num processo movido pela União contra uma série de empresas do grupo empresarial do pastor por dívidas fiscais, o empresário é apontado como “laranja” de Poncio.