Sucesso na carreira mudou de significado: crescer já não significa virar chefe

Especialização, autonomia e desenvolvimento ganham espaço entre profissionais que continuam ambiciosos, mas enxergam novos caminhos para o reconhecimento

Marcelo Monteiro

Em médio prazo, quatro a cada 10 profissionais pretendem atuar como especialistas técnicos em suas áreas, em vez de ocupar cargos de liderança (Foto: Inteligência Artificial)
Em médio prazo, quatro a cada 10 profissionais pretendem atuar como especialistas técnicos em suas áreas, em vez de ocupar cargos de liderança (Foto: Inteligência Artificial)

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Existe uma mudança silenciosa acontecendo dentro das empresas.

Antes, a ideia de crescimento profissional seguia uma lógica quase automática: quem entregava bons resultados acabava promovido a cargos de gestão.

A ascensão na carreira era medida pela quantidade de pessoas lideradas, pelo tamanho da equipe ou pelo cargo estampado no cartão de visitas.

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Essa lógica não desapareceu, mas deixou de ser a única forma de definir sucesso.

Uma série de estudos divulgados nos últimos meses mostra que os profissionais continuam interessados em crescer, ganhar mais e conquistar reconhecimento. O que mudou foi a maneira como pretendem alcançar esses objetivos.

Cada vez mais trabalhadores buscam aprofundar conhecimentos, desenvolver competências específicas e construir autoridade técnica, sem necessariamente assumir equipes ou migrar para a gestão.

Em outras palavras, o especialista deixou de ser um estágio intermediário na carreira. Em muitos casos, passou a ser o destino.

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Especialistas ganharam protagonismo

Uma pesquisa do Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios) ilustra essa transformação.

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Questionados sobre onde gostariam de estar profissionalmente nos próximos cinco anos, 39,07% dos entrevistados afirmaram que pretendem atuar como especialistas técnicos em suas áreas de conhecimento. É, de longe, o caminho mais citado.

Na sequência aparecem o empreendedorismo, com 13,94%, os cargos de liderança corporativa, com 12,76%, o serviço público, com 12,06%, e a carreira internacional, com 11,1%. Outros 11,07% disseram que ainda estão explorando possibilidades antes de definir um rumo profissional.

Os números mostram que a liderança continua sendo um objetivo importante, mas já não ocupa sozinha o imaginário de sucesso das novas gerações.

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“Os jovens estão percebendo diversas formas de construir uma trajetória de sucesso”, diz Renata Blumtritt, analista de Treinamento e Desenvolvimento do Nube.

“Em muitos segmentos, especialmente nas áreas ligadas à tecnologia, inovação, finanças, engenharia e análise de dados, profissionais especialistas alcançam grande relevância estratégica sem necessariamente exercer gestão de equipes.”

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Crescimento continua sendo prioridade

A mudança de trajetória não significa redução de ambição. Pelo contrário.

Os profissionais continuam dispostos a mudar de emprego para acelerar o desenvolvimento da carreira.

O estudo Talent Trends 2026, da Michael Page, mostra que 94% dos profissionais da área financeira estão abertos a novas oportunidades, enquanto 78% pretendem trocar de empresa nos próximos três anos.

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O levantamento também revela que os critérios para escolher um empregador se tornaram mais amplos.

Cultura organizacional, oportunidades de desenvolvimento, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e aprendizado passaram a disputar espaço com a remuneração entre os fatores mais valorizados.

O crescimento continua sendo prioridade. O que mudou foi a definição do que significa crescer.

“O profissional de finanças hoje não reage ao mercado, ele antecipa movimentos. Existe estabilidade, mas também uma consciência clara de valor e de possibilidade de crescimento”, interpreta Ricardo Basaglia, CEO da Michael Page Brasil.

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A carreira deixou de ser uma escada

Essa transformação aparece também na forma como as empresas estruturam seus planos de desenvolvimento.

Modelos conhecidos como carreira em Y e carreira em T vêm sendo adotados por organizações que precisam reter profissionais altamente especializados.

Na prática, esses formatos permitem que um excelente engenheiro, programador, pesquisador ou analista continue evoluindo, receba aumentos salariais e assuma projetos estratégicos sem precisar abandonar sua área de atuação para se tornar gestor.

Durante muito tempo, promoções estavam associadas quase exclusivamente ao exercício da liderança.

Hoje, conhecimento técnico e capacidade de resolver problemas complexos também passaram a representar caminhos legítimos de crescimento.

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Aprender tornou-se vantagem competitiva

Essa mudança acontece em um momento em que as transformações tecnológicas aceleram o ritmo das empresas.

O relatório Global Human Capital Trends 2026, da Deloitte, mostra que 85% dos respondentes consideram essencial aumentar a capacidade de adaptação das organizações e de suas equipes diante das mudanças constantes.

Apesar disso, apenas 7% afirmam que suas empresas já alcançaram um nível elevado de maturidade nesse aspecto.

O diagnóstico reforça uma percepção que aparece em diferentes estudos sobre o futuro do trabalho: em um mercado em rápida transformação, aprender continuamente tornou-se uma competência tão importante quanto dominar conhecimentos técnicos.

Mais do que preparar profissionais para uma função específica, empresas passaram a buscar pessoas capazes de evoluir junto com as mudanças.

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O novo retrato do sucesso

Durante décadas, a pergunta clássica das entrevistas de emprego era simples:

“Onde você quer estar daqui a cinco anos?”

A resposta costumava ser um cargo. Hoje, ela tende a ser uma competência.

Os profissionais continuam querendo reconhecimento, melhores salários e novos desafios. Mas passaram a enxergar que esses objetivos podem ser alcançados por diferentes caminhos.

Alguns desejam liderar equipes. Outros preferem tornar-se referência técnica.

Há quem queira empreender, construir uma carreira internacional ou desenvolver conhecimentos altamente especializados.

A velha escada corporativa continua existindo. Mas ela deixou de ser o único caminho para quem deseja crescer. Em muitos casos, o sucesso já não está um andar acima — está em outra direção.

Marcelo Monteiro

Formado em Jornalismo pela UFSM, Marcelo Monteiro atua há mais de 30 anos na imprensa. Trabalhou em veículos como Zero Hora, Correio Braziliense, Gazeta Mercantil, Hoje em Dia e Diário Catarinense. É autor dos livros "U-507" (2012) e "U-93" (2014) e dirigiu os documentários "Delírios" (2021) e "Além do Limite" (2022).