Ecopetrol: por que petroleira estatal colombiana cai 10% após eleição de pró-mercado?

Alta recente com perspectiva de eleição de Abelardo de la Espriella e votação mais apertada estão entre motivos - analistas não estão animados com ação

Lara Rizério

Ativos mencionados na matéria

Publicidade

Sobe no boato, cai no fato?

As ações da petroleira estatal colombiana Ecopetrol registram uma semana bem negativa na bolsa do país, com queda que chega a 9,5%, passando de 2.725 pesos colombianos para 2.465 pesos colombianos. Isso em um período que deveria ser positivo para as ações após a eleição do candidato de direita Abelardo de la Espriella, o que levaria normalmente a um movimento de alta das ações por conta da visão de menor intervencionismo para a companhia.

Mas o que explica o movimento? Para o Bank of America, além da queda do petróleo no período, o valuation da companhia já incorpora boa parte do cenário mais positivo esperado com a mudança política.

Ferramenta do InfoMoney

Baixe agora (e de graça)!

Segundo relatório divulgado nesta semana, o banco manteve recomendação underperform (desempenho abaixo da média do mercado) para a estatal colombiana, ao avaliar que os papéis já precificam eventuais avanços regulatórios no curto prazo.

Além disso, o resultado das eleições foi mais apertado do que o esperado, com diferença de aproximadamente 250 mil votos, aumentando as preocupações do mercado com governabilidade em um ambiente político polarizado — fator que contribuiu para a piora no desempenho dos ativos locais, uma vez que a bolsa local também teve forte queda no período.

Na mesma linha, os analistas do Bradesco BBI também apontaram que a vitória apertada do candidato de direita não seria suficiente para destravar uma valorização consistente das ações.

“A vitória indica um alinhamento mais pró-mercado, mas o mandato negociado aumenta a dependência de coalizões políticas e limita a velocidade de reformas”, avaliou o relatório do BBI. Nesse contexto, temas como segurança pública, disciplina fiscal e capacidade de articulação no Congresso seriam determinantes para sustentar a confiança dos investidores.

Valuation já incorpora cenário mais favorável

Apesar da correção recente, o BofA aponta que a Ecopetrol já passou por uma forte reprecificação nos últimos 12 meses, com alta de cerca de 70% das ações, impulsionada justamente pela expectativa de mudança no ambiente político e regulatório.

Continua depois da publicidade

Atualmente, a companhia negocia em torno de 4,5 vezes o EV/Ebitda (valor da empresa/lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações), múltiplo este que já embute uma melhora relevante nas expectativas e que um novo ciclo de valorização dependeria de avanços mais concretos no desempenho operacional.

Desafios no radar

Na visão do BofA, embora o novo governo possa promover um ambiente mais favorável ao setor de óleo e gás — com sinalizações de retomada de contratos de exploração e flexibilização de regras —, os principais desafios da Ecopetrol permanecem no nível microeconômico.

Continua depois da publicidade

Entre os pontos de atenção estão a necessidade de crescimento mais robusto da produção, reposição de reservas e maior clareza na alocação de capital.

O banco destaca que projetos relevantes da empresa têm maturação longa, o que limita a visibilidade de expansão no curto prazo. Além disso, há dúvidas sobre a estratégia futura, incluindo o papel da transição energética e a política de preços no segmento de refino.

Comparação com pares reduz atratividade

Continua depois da publicidade

Outro fator que pesa na recomendação negativa é a comparação com outras companhias da América Latina. Segundo o relatório do BofA, a Ecopetrol negocia com prêmio em relação a pares que apresentam melhores perspectivas de crescimento e geração de caixa.

A estimativa do banco aponta que a empresa deve apresentar free cash flow yield (retorno de fluxo de caixa livre) de cerca de 9% em 2027, patamar inferior ao de concorrentes regionais.

Além disso, o crescimento projetado da produção até 2030 é limitado quando comparado a outras petroleiras do continente, o que reforça a avaliação de menor atratividade relativa.

Continua depois da publicidade

Em relatório recente, o Goldman Sachs também não apontou visão tão positiva para a ação, tendo recomendação neutra e com preferência por Petrobras (PETR4) entre as petroleiras estatais da América Latina. Olhando para os resultados do segundo trimestre a serem divulgados pela companhia, o banco aponta que a expectativa é de números sólidos, mas o foco dos investidores deve se concentrar mais em mudanças estratégicas após a troca de governo na Colômbia, incluindo possíveis ajustes no plano de negócios e na governança.

Maior protagonismo?

Do ponto de vista macro, o BofA acredita que o setor de óleo e gás tende a ganhar protagonismo na nova administração colombiana, diante da necessidade de impulsionar a atividade econômica e equilibrar as contas públicas.

O novo governo sinalizou intenção de retomar projetos de exploração, incluindo fracking, e acelerar contratos no setor, em linha com uma agenda de liberalização e aumento da produção nacional.

Essa estratégia estaria ligada também ao desafio fiscal do país, que enfrenta déficit elevado e precisa ampliar receitas.

Apesar do potencial suporte regulatório, o cenário para a Colômbia ainda apresenta riscos relevantes. O relatório destaca pressões fiscais significativas e desafios no setor energético, como a dependência de importações de gás.

O país atualmente importa entre 25% e 30% de sua demanda de gás, o que pode se intensificar em períodos de condições climáticas adversas, como eventos de El Niño, elevando custos e pressionando as contas públicas.

Por outro lado, o BofA também chama atenção para questões estruturais que seguem limitando a atratividade da Ecopetrol, como a forte influência do governo — que detém cerca de 88% da companhia — nas decisões estratégicas, incluindo política de preços e investimentos.

Além disso, a empresa enfrenta dificuldades na reposição de reservas e custos de extração mais elevados em comparação a outras empresas do setor.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.