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Uma enxurrada de novas ações de empresas que buscam financiar suas ambições em inteligência artificial está levantando dúvidas em Wall Street sobre se haverá compradores suficientes para absorver todo esse volume e o que essa oferta inédita de papéis vai significar para as cotações de forma mais ampla.
As aberturas de capital de SpaceX, Anthropic e OpenAI nos próximos meses podem adicionar quase US$ 4 trilhões em valor de mercado às bolsas americanas, segundo dados compilados pela Bloomberg. A oferta da SpaceX já recebeu mais pedidos do que papéis disponíveis. Enquanto isso, o Google, por meio da Alphabet, planeja captar US$ 85 bilhões no próximo trimestre com a venda de ações, majoritariamente no mercado aberto, em movimento que pode ser seguido por outras gigantes de tecnologia que precisam de caixa para financiar data centers de IA.
“Não vemos algo nessa escala e nesse ritmo há muito tempo”, disse Ano Kuhanathan, chefe de pesquisa corporativa da Allianz Trade. “É um evento de oferta monumental.”
Os emissores parecem ter vento a favor. Os investimentos em IA estão em forte expansão, impulsionando o crescimento de receitas. As fabricantes de chips disparam, com o índice de semicondutores da Bolsa de Valores de Filadélfia caminhando para o melhor ano desde 2003, com alta de 74%. Até empresas de tecnologia mais tradicionais, como Cisco, Nokia e Dell, têm se beneficiado do entusiasmo com a IA.
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Claro que o momento pode se mostrar menos favorável do que parece. O Nasdaq 100 recuou 4,8% na sexta-feira, a maior queda diária em mais de um ano. A notícia de que a Meta Platforms estuda levantar dezenas de bilhões de dólares com a venda de ações derrubou seus papéis em 5,5%.
Ainda assim, os profissionais de Wall Street confiam que a demanda estará lá quando as novas ações chegarem ao mercado.
“Há capital mais do que suficiente para absorver não só os IPOs deste ano, mas também as emissões primárias de empresas já listadas que precisam de caixa para construir infraestrutura de IA”, escreveu Nicholas Colas, cofundador da DataTrek Research, em nota a clientes na semana passada.
Um dos fatores que deve facilitar a digestão dos mega IPOs pelo mercado é o fato de que os emissores estão vendendo apenas uma fatia pequena do total de ações existentes, mantendo a liquidez reduzida. A SpaceX, por exemplo, pretende oferecer apenas 4% de suas ações em circulação. Mas isso deve mudar nos meses seguintes, à medida que as restrições de venda para investidores antigos e executivos da empresa expirem e esses agentes comecem a monetizar suas posições.
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Historicamente, grandes IPOs com free float inicial abaixo de 10% das ações em circulação veem esse percentual saltar para cerca de 46% um ano após a estreia, segundo dados compilados pelo Goldman Sachs. Isso representaria aproximadamente US$ 1 trilhão em nova oferta de ações até 2027, além de qualquer emissão corporativa direta, estimaram estrategistas do banco liderados por Ben Snider em nota de pesquisa datada de 29 de maio.
“Quando essas empresas estiverem plenamente no mercado, vai criar um choque considerável”, disse Kuhanathan, da Allianz Trade.
Entrada acelerada nos índices
Somam-se a isso mudanças de regras das provedoras de índices Nasdaq e FTSE Russell que vão acelerar a entrada de SpaceX, Anthropic e OpenAI em seus principais benchmarks. Dado o volume de recursos geridos passivamente com base nesses índices, a inclusão das empresas pode gerar demanda extrema por seus papéis, já que os fundos de ETF que replicam esses indicadores serão obrigados a ajustar suas carteiras às novas ponderações.
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A outra face da moeda, claro, é que esses fundos passivos também precisarão reduzir posições atuais para abrir espaço aos novos entrantes, segundo Rob Arnott, fundador da Research Affiliates. Se as empresas continuarem a aumentar o free float ao longo do tempo, companhias menores podem ver seus pesos nos índices se erodirem gradualmente.
“Vai haver uma pressão constante a cada nova emissão de ações”, disse Arnott em entrevista em Londres na semana passada, prevendo que os rebalanceamentos frequentes vão criar “uma distorção de valuation entre os novatos e as empresas estabelecidas.”
Na quinta-feira, o S&P Dow Jones Indices rejeitou propostas que encurtariam o prazo de 12 meses para a entrada de empresas recém-listadas em seus índices e dispensariam os requisitos atuais de lucratividade.
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“Esses IPOs de porte colossal vão ocupar rapidamente tanto a fatia dos benchmarks quanto a atenção dos investidores de varejo”, disse Max Gokhman, vice-presidente sênior da Franklin Templeton Investment Solutions. “Mas quando os períodos de lock-up expirarem e as comportas se abrirem para que funcionários e investidores de venture capital realizem seus ganhos, a pressão vendedora marginal pode desestabilizar um mercado já frágil.”
A erosão que Arnott alerta pode ir além das empresas de setores tradicionais e das companhias menores. O boom de IA foi diferente de outros períodos de euforia porque os investidores não conseguiam comprar as empresas que mais movimentavam o setor: OpenAI e Anthropic. Em vez disso, foram obrigados a alocar capital em companhias próximas a elas, seja como clientes, parceiras ou ambos.
Uma cesta de ações com exposição à OpenAI monitorada pela Bloomberg acumula alta de 33% no ano, bem acima dos 7,9% do S&P 500. A Marvell Technology, que desenvolve chips customizados para OpenAI e Anthropic, disparou 210%.
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O problema é que, uma vez que as startups mais responsáveis pelo avanço da IA tiverem ações negociadas em bolsa, os investidores tendem a desfazer muitas dessas posições indiretas e usar os lucros para comprar papéis de Anthropic, OpenAI ou SpaceX, segundo Nigel Green, diretor de investimentos da DeVere Group.
“Os investidores passaram anos comprando substitutos porque não podiam comprar os ativos diretamente”, disse Green. “Se eventualmente puderem ser donos da própria OpenAI, parte do valor de escassez associado a essa relação inevitavelmente muda.”
As vendas podem afetar as fabricantes de chips Nvidia e Broadcom, que foram protagonistas dos ganhos do S&P 500 nos últimos três anos.
E há ainda a Tesla. A montadora de veículos elétricos foi, desde seu IPO em 2010, o único caminho para os investidores de varejo apostarem no bilionário Elon Musk. Isso muda quando a SpaceX começar a ser negociada, previsto para esta sexta-feira. A SpaceX pode se tornar o veículo preferido para apostas em Musk, já que ele tem mais controle sobre a empresa e ela abriga a xAI, que Wall Street espera que seja a maior alavanca de crescimento do grupo.
Evidentemente, sempre há risco de os investidores recuarem diante de preços elevados para comprar ações de empresas ainda no prejuízo. A SpaceX, por exemplo, registrou prejuízo operacional de US$ 6,4 bilhões no ano passado e seria precificada a mais de 90 vezes a receita do mesmo período no preço-alvo de US$ 135 por ação. São números que representam risco real, mas com a oferta já sobredemandada, claramente não são algo que os investidores estão perdendo muito sono por ora.
“Não vai ser tudo flores”, disse Anthony Saglimbene, estrategista-chefe de mercado da Ameriprise. “Essas empresas estão abrindo capital num ambiente em que as expectativas são tão altas que não há margem para erros, e em tamanhos tão grandes que os investidores serão menos tolerantes nos próximos 12 meses.”
©️2026 Bloomberg L.P.