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Após três semanas de “distanciamento estratégico”, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), voltará a se encontrar com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente da República, durante a Marcha para Jesus, na quinta-feira (4), em São Paulo. A reunião se dará dias depois da investigação da Polícia Civil paulistana que teve como alvo o Instituto Conhecer Brasil (ICB), contratado para instalar pontos de Wi-Fi gratuito na capital. A ONG é de Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro.
A operação provocou incômodos nos bastidores do campo conservador. Além de trazer de volta à pauta as polêmicas sobre “Dark Horse”, a ação da polícia — comandada por Tarcísio — mirou também a própria gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP), responsável pelo contrato com o ICB. Nesta terça-feira (2), Tarcísio defendeu a autonomia da corporação.
– A operação da polícia é uma coisa que a gente não interfere. A polícia tem autonomia para fazer as suas investigações, para fazer as suas operações. É uma instituição de Estado. Havia uma investigação em curso, uma demanda do Ministério Público, e a polícia cumpriu essa demanda. Sempre vai ser assim. A polícia vai ser e sempre será uma instituição de Estado — falou, durante agenda em Rio Claro, no interior de São Paulo.
Um dia antes, Flávio afirmou que a investigação não diz respeito ao filme, o que ainda não foi descartado pela polícia. O senador afirmou esperar que “parte” da Polícia Civil de São Paulo não esteja “sendo usada para fins eleitoreiros”.

Flávio Bolsonaro diz que vai denunciar Lula ao STF por fala sobre enforcamento
“[Filhos do Bolsonaro] foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores. Por menos que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado”, disse Lula

Tarcísio defende operação que mirou produtora de ‘Dark Horse’ e gestão Nunes
Governador disse que ‘não interfere em operação da polícia’ e que a instituição é ‘de Estado’, e não de governo
— Eu só não quero crer que a gente está sendo vítima, mais uma vez, de uma pescaria probatória, de uma perseguição, porque, se vão fazer uma operação para investigar irregularidades em um determinado contrato, que é de um ano e meio, dois anos para trás, tudo bem, as pessoas vão ter que explicar, o que não tem absolutamente nada a ver com o filme — afirmou Flávio.
Até o fim da semana passada, o entorno de Flávio Bolsonaro dava como certa a ausência do senador na Marcha para Jesus de São Paulo. A mudança nos planos ocorreu após o anúncio, pelos Estados Unidos, da classificação do PCC e Comando Vermelho como organização terrorista, uma das bandeiras de Flávio e uma das tentativas de sua campanha para “virar a chave” e mudar a agenda. A confirmação de que Flávio virá ao evento foi noticiada pela CBN e confirmada pelo GLOBO.
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Nas últimas semanas, após a divulgação da visita de Flávio a Vorcaro, ocorreu uma espécie de “guerra fria” entre os núcleos de Flávio e Tarcísio. De um lado, Tarcísio reforçou o distanciamento estratégico da campanha do aliado com receio de se “contaminar” com “encrencas de terceiros”, nas palavras de um aliado do governador. A postura deu resultado perante a opinião pública, segundo avaliações internas, mas gerou novos focos de desconfiança e reclamação no grupo bolsonarista.
Do outro lado, segundo um amigo do senador que também é próximo do governador, o entorno de Flávio ficou incomodado com a falta de apoio do Tarcísio no caso. Viram nas falas de Tarcísio, nas últimas semanas, um “zagueiro que chuta a bola para a torcida, em vez de tocá-la e segurar o jogo”. Em duas oportunidades, sempre que questionado por jornalistas, Tarcísio disse que Flávio tinha esclarecimentos a prestar sobre o envolvimento com Vorcaro.
— Eu acho que tem muitas questões que ele mesmo precisa explicar — afirmou Tarcísio, na semana passada.
“Não foi um defensor de primeira linha, mas também não fez gol contra”, diz o mesmo interlocutor.
Tarcísio e Flávio não vinham se falando desde o evento de lançamento da pré-campanha ao Senado de Guilherme Derrite, em 15 de maio, em Campinas (SP). Assim como Flávio não foi procurado pelo governador, ele não o procurou. Ao mesmo tempo, o senador, segundo interlocutores, não demonstrou incômodo com os posicionamentos do governador — as queixas circulam nos “andares mais baixos”. Como também mostrou O GLOBO, Tarcísio se incomodou por ter sido pego de surpresa com a proximidade entre o senador e o banqueiro preso. Nesse sentido, Flávio entende que cada um “defende a sua” e todos os lados se retraíram para se reposicionar diante da crise.
Distanciamento nas redes
O distanciamento de Tarcísio e Flávio é corroborado por números e datas. Levantamento da consultoria Bites mostra que o governador citou o senador apenas uma vez nas redes sociais desde junho do ano passado. A postagem, na última quinta (28), parabenizou Flávio pela “articulação firme e necessária” para que Trump classificasse PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas.
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Nem em encontros presenciais entre os dois Tarcísio marcava, mencionava ou citava o senador. Em 27 de fevereiro, por exemplo, quando Flávio esteve no Palácio dos Bandeirantes e anunciou o governador como seu coordenador de campanha no estado paulista, ambos compartilharam a mesma postagem, originada de Flávio, mas o governador não o marcou. Mais recentemente, os dois fizeram uma série de posts posando juntos na Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), mas em nenhum deles Tarcísio destaca Flávio no texto — preferiu destacar a força do agro. Procurado, o Palácio dos Bandeirantes não respondeu sobre o tema.
Quando o assunto é Jair Bolsonaro, como forma de comparação, a métrica de Tarcísio é outra. No mesmo período de 12 meses, ainda segundo a Bites, o ex-presidente foi citado 53 vezes pelo governador. Para um secretário do chefe do Executivo paulista, os números e as não-menções a Flávio são explicados pelo fato de ele não “dever” nada ao senador, mas apenas a Jair Bolsonaro, seu padrinho político. Porém, a partir do momento em que o ex-presidente tirou o governador do páreo federal, em dezembro, a “conta está paga e a dívida acabou ali”, avalia o assessor.
Para esse interlocutor, Tarcísio vai continuar “jogando na defensiva” e se esquivando de maiores problemas com os desdobramentos do caso Master. Outra fonte próxima de Tarcísio diz, inclusive, que o governador recebeu ligações cobrando uma manifestação pública em defesa do aliado, mas optou por não abordar o assunto nas redes sociais. Já para outra pessoa ligada à campanha do senador, Tarcísio está “aproveitando o momento” para “testar uma afastada” de Flávio, mas disse acreditar em um recuo, ao avaliar que o governador “precisa dos bolsonaristas”.
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Ao mesmo tempo em que é cobrado pelo entorno de Flávio , Tarcísio vem recebendo críticas no X por sua postura de “largar a mão” do aliado. Ainda segundo a Bites, há um aumento claro de cobranças contra o governador pelos próprios bolsonaristas. Isso aumentou nesta semana, depois que Tarcísio disse que Flávio precisa explicar a situação do Master.
– Nesta semana, cerca de mil tweets mencionaram Tarcísio e citaram Flávio, e aí finalmente se destacam perfis de direita cobrando o governador pela fala de que o senador devia se explicar. Alguns bolsonaristas fizeram equivalência do caso de Flávio com Vorcaro ao de Tarcísio com Ney Santos, ex-prefeito de Embu condenado e acusado de ser aliado do PCC – afirma André Eler, diretor da Bites.
Para o especialista, esse volume de cobranças não é tão grande, ainda parece estar restrito ao X e a contas bolsonaristas mais radicais.
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– Pode reforçar uma pressão sobre o governador, que estava fora do foco e que vem tendo menos atenção nos últimos meses – afirma Eler.