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A prefeitura de São Paulo ampliou em dezembro de 2025, para R$ 143 milhões, o valor do contrato com a ONG Instituto Conhecer Brasil, ligada à produtora do filme “Dark Horse”, conforme documentos consultados pelo GLOBO em processos administrativos do município. Os pagamentos seguem ocorrendo neste ano mesmo depois de área técnica da prefeitura ter apontado uma “irregularidade grave” na prestação de contas de 2024, que a gestão diz já ter corrigido.
A Polícia Civil de São Paulo deflagrou operação nesta segunda-feira para apurar supostos desvios de verba pública por parte da ONG nessa contratação. A polícia investiga se parte dos recursos foi usada para custear o filme, que homenageia o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O contrato, válido até o fim de 2026, é destinado à instalação de pontos públicos de wifi na capital paulista. Antes do aditivo, a prefeitura de São Paulo já havia pago R$ 93,5 milhões ao Instituto Conhecer Brasil. Em dezembro, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) se comprometeu a destinar mais R$ 49,2 milhões à ONG ao longo de 2026 — um acréscimo, portanto, de 50% em relação ao valor pago até então. Neste ano, a prefeitura vem pagando R$ 4,1 milhões por mês à ONG.
O aditivo foi assinado pela secretaria municipal de Inovação e Tecnologia e pela presidente da ONG, Karina Ferreira da Gama, que também é dona da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme “Dark Horse”. A área técnica da secretaria, porém, apontou uma “irregularidade grave” na prestação de contas da ONG em 2024, e cobrou que fosse formalizada a devolução de quase R$ 1 milhão destinados de forma incorreta.
A maior parte deste valor correspondia a um pagamento duplicado feito pela ONG a um fornecedor, no valor de R$ 925 mil, que foi “glosado” pela prefeitura — isto é, não teve sua execução autorizada.
“Verifica-se que a Organização da Sociedade Civil não promoveu a restituição integral dos valores glosados dentro do exercício analisado, tampouco sanou todas as inconformidades apontadas pela área técnica. A permanência de valores expressivos pendentes de devolução caracteriza irregularidade grave na execução financeira da parceria, comprometendo a regularidade da prestação de contas”, disse o parecer dos técnicos da secretaria municipal, assinado em fevereiro deste ano.
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Em nota, a prefeitura de São Paulo disse que esses valores foram integralmente devolvidos pela ONG em 2025, e negou que o município tenha direcionado recursos para o filme em homenagem a Bolsonaro.
“Portanto, não há o que se falar em prejuízo à Prefeitura. O aditamento ao Termo de Colaboração mencionado pela reportagem teve como finalidade garantir a continuidade da prestação de serviços já em operação, com a manutenção dos 3.200 pontos (de wifi). Portanto, a administração repudia qualquer tentativa de criar relações entre ações do Município e a produção cinematográfica do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A produção do filme não recebeu recursos municipais”, disse a prefeitura.
O Instituto Conhecer Brasil apresentou à prefeitura um comprovante de restituição dos valores datado de julho de 2025. Essa devolução, porém, só foi registrada em processo administrativo da prefeitura em 22 de maio de 2026, depois de a área técnica da secretaria ter cobrado a “efetiva comprovação das restituições devidas” e a “formalização dos atos saneadores” na prestação de contas da ONG.
Nesse meio-tempo, o próprio secretário de Inovação e Tecnologia, Humberto de Alencar, decidiu aprovar a prestação de contas da ONG, em despacho datado de 11 de maio de 2026, mesmo antes de as falhas estarem formalmente sanadas.
A manifestação do secretário ocorreu dois dias antes de o portal The Intercept Brasil revelar a articulação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para captar R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, sob pretexto de financiar o filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Karina, a dona da ONG Instituto Conhecer Brasil, é ligada ao deputado federal Mario Frias (PL-SP), um dos responsáveis pelo filme. A empresária recebeu R$ 54 mil da campanha de Frias em 2022, sob a justificativa de ter prestado serviço de assessoria de imprensa ao então candidato.
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Após assumir o mandato, Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil, que usou parte dos recursos para subcontratar dirigentes do próprio instituto.
Uma das emendas foi destinada ao “projeto Jovem Empreendedor”, que a ONG de Karina afirma ser “voltado para crianças de 9 a 10 anos”. A outra destinação de Frias foi para o projeto “Lutando pela Vida”, que anuncia aulas de jiu-jitsu em Pirassununga (SP) para crianças e adolescentes. As prestações de contas desses projetos ainda não foram disponibilizadas.
Para coordenar este último projeto, a ONG de Karina contratou em fevereiro o professor de jiu-jitsu Rudyge Alex Scatolini. Ele receberá R$ 105 mil durante cerca de dois anos, segundo o contrato. Rudyge fazia parte da diretoria do Instituto Conhecer Brasil quando ela foi contratada pela prefeitura de São Paulo para a instalação dos pontos de wifi — na ocasião, ele foi listado como “1º membro do conselho fiscal” da ONG, que agora contratou seus serviços.
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Os recursos destinados por Mario Frias também levaram à subcontratação, pelo Instituto Conhecer Brasil, do publicitário Marcelo Machado. Ele é vice-presidente da Academia Nacional de Cultura, outra entidade dirigida por Karina.
Em um dos projetos que receberam emendas do deputado do PL, Karina subcontratou, por R$ 50 mil, a MM7 Comunica, empresa de Machado. A MM7 participou, em 2025, da organização do evento “The Connect Faith”, em São Paulo, comandado por Karina.
Questionada pelo GLOBO sobre os recursos destinados por Frias a ela própria e a seus aliados, Karina não respondeu. O deputado Mario Frias e Marcelo Machado não retornaram os contatos. A reportagem não localizou Rudyge Alex.
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