Petrobras aumenta a gasolina: como o subsídio do governo diminuirá o impacto na bomba

Reajuste para as distribuidoras, que seria de 18,68%, fica em 1,5% e faz com que seja reduzido o efeito previsto na inflação

Agência O Globo

Bomba de abastecimento de gasolina em posto de combustíveis REUTERS/Adriano Machado
Bomba de abastecimento de gasolina em posto de combustíveis REUTERS/Adriano Machado

Publicidade

A Petrobras anunciou um reajuste no preço da gasolina para as distribuidoras pela primeira vez desde o início da guerra no Oriente Médio, que ontem completou três meses. O aumento será de R$ 0,48 por litro e vale a partir de hoje, mas a estatal vai oferecer um abatimento de R$ 0,44 por litro, repassando a subvenção para o combustível aprovada pelo governo.

Assim, o reajuste será de apenas R$ 0,04, com o litro passando de R$ 2,57 para R$ 2,61, um aumento de 1,5%. Não fosse o subsídio federal, a alta seria de 18,68%.

Dessa forma, o impacto na inflação será pequeno. Nas contas de Fábio Romão, economista sênior da 4intelligence, havia expectativa de queda de 0,5% da gasolina no IPCA em junho; agora, ele calcula uma alta de 0,10%. Com o reajuste do combustível, a previsão para junho do índice usado na meta de inflação subiu de 0,33% para 0,36%. No ano, a projeção passou de 5,38% para 5,42%.

— Esse anúncio tirou uma dúvida de quanto a subvenção iria mitigar da alta. Ninguém estava colocando na planilha uma queda da gasolina, mas ter reduzido quase todo o aumento é uma boa notícia — afirma Romão.

Nos últimos meses, a gasolina vem subindo nas bombas. O IPCA mostrou alta de 4,59% em março e outro reajuste de 1,86% em abril, num movimento de mercado, segundo Romão. Para maio, que não absorve o reajuste de ontem, a expectativa é de queda de 2,20%. Mesmo com a mudança de sinal para junho, Romão projeta novas reduções no preço da gasolina nos postos nos próximos meses.

De janeiro a abril, o combustível já subiu 8,1%. Mas a previsão para o ano fechado é de 7,2%, afirma ele.

Continua depois da publicidade

— O arrefecimento da cotação do petróleo, com o pior momento do conflito no Oriente Médio aparentemente tendo passado, e a entrada da safra do etanol, que deve ter ficado 5% mais barato em maio, explicam essa projeção menor — diz Romão.

Segundo a Petrobras, como a gasolina C vendida nos postos é obtida a partir da mistura obrigatória de 70% de gasolina A e 30% de etanol anidro, a parcela da Petrobras na composição do preço final passará dos atuais R$ 1,80 para R$ 1,83 por litro, um aumento de R$ 0,03 a cada litro de gasolina C vendida nas bombas. Representantes do setor lembram que o repasse final ao consumidor vai depender se os postos vão absorver a queda ou aproveitar para recuperar margem.

Defasagem continua

Ontem, o preço do petróleo tipo Brent chegou a subir, mas fechou em queda de 0,61%, cotado a US$ 93,71 o barril, em meio a informações veiculadas pela imprensa internacional de que os Estados Unidos e o Irã teriam chegado a um acordo preliminar para estender o cessar-fogo entre os dois países e iniciar negociações sobre o programa nuclear da república islâmica.

O conflito, que começou em 28 de fevereiro, fez a cotação do petróleo tipo Brent (referência internacional) disparar de menos de US$ 70 para até US$ 120, o que levou a Petrobras a reajustar o diesel em R$ 0,38 por litro em março, para R$ 3,65. O gás natural encanado e o querosene de aviação também subiram, embora sigam fórmulas próprias de reajuste.

Mesmo com a alta da gasolina, a defasagem dos preços internos em relação ao mercado internacional continua em patamar elevado, segundo a Abicom, que reúne as importadoras. Ontem, a estatal cobrava em seus polos de distribuição R$ 1,37 por litro, valor 55% abaixo do praticado no exterior. O último movimento no preço da gasolina tinha sido em janeiro, quando o valor médio por litro caiu R$ 0,14 nas refinarias, para R$ 2,57.

Segundo Pedro Rodrigues, sócio da consultoria CBIE, o aumento da gasolina era necessário porque o preço está muito defasado; da mesma forma, avalia, faz sentido elevar todos os outros combustíveis, como diesel e gás. Segundo ele, para elevar os preços o governo precisou criar uma subvenção, o que, na prática, representa recursos do Tesouro ajudando a estatal e os consumidores de gasolina:

Continua depois da publicidade

— O dinheiro público da subvenção está sendo usado para ajudar o caixa da Petrobras, para que a companhia não precise reajustar preços.

Rodrigues avalia, contudo, que “o fato de aumentar é positivo, o que indica que o caixa da companhia vai sofrer menos”.

A presidente da estatal, Magda Chambriard, já havia afirmado, durante teleconferência de resultados, no início deste mês, que o reajuste da gasolina seria inevitável e ocorreria “já, já”. Ela, no entanto, havia explicado que a redução do preço do etanol, competidor da gasolina, estava impedindo um reajuste mais acelerado.

Continua depois da publicidade

Outros subsídios

O governo já criou subsídios para o diesel e GLP (gás de botijão), e a Petrobras parcelou a alta do querosene de aviação e renegociou com distribuidoras de gás encanado os contratos de reajuste para reduzir o impacto ao consumidor.

A subvenção de R$ 0,44 na gasolina prevê renúncia dos tributos federais PIS, Cofins e Cide. A medida vale pelos próximos dois meses, e depois será reavaliada. Em paralelo, o governo enviou ao Congresso um projeto de lei que autoriza o uso da arrecadação extra esperada na indústria de petróleo com a alta do preço internacional do barril.