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Em setembro do ano passado, duas grandes empresas americanas quebraram quase ao mesmo tempo. A First Brands Group, fabricante de autopeças com passivo de US$ 11 bilhões, e a Tricolor Auto Group, financeira de veículos voltada a um público com restrições de crédito, com US$ 1 bilhão em dívidas. Ao não honrar compromissos com seus financiadores, as duas empresas sacudiram o mercado de private credit nos Estados Unidos – e os efeitos se espalharam rapidamente.
Os resgates nos BDCs – fundos do tipo Business Development Companies, que emprestam diretamente a empresas de médio porte – saíram de 1,5% por trimestre para 5% no quarto trimestre de 2024, e chegaram a 8,5% no primeiro trimestre de 2025. Alguns gestores acionaram os gates – mecanismos que limitam o volume de saques nos fundos a uma porcentagem do patrimônio (geralmente, 5%).
A cobertura negativa na imprensa americana intensificou a insatisfação de investidores que desejavam maior liquidez. Em maio, o jornal Financial Times noticiou que a captação do principal fundo de varejo da Blue Owl – a maior gestora global de private credit, com mais de US$ 300 bilhões sob gestão – caiu 95% em relação ao mesmo período do ano passado.
Oportunidade com segurança!
Nesse contexto, o Outliers InfoMoney convidou Fernando Cortez, representante da Blue Owl Capital no Brasil, para explicar o momento atual do private credit. “A gente não consegue enxergar os motivos que lideraram esse número de saques mais elevados no último trimestre”, afirmou Cortez aos apresentadores Clara Sodré, analista de fundos da XP, e Fabiano Cintra, head de fundos da XP.
O acionamento dos gates é um sinal de alarme?
A primeira questão que os investidores colocam é sobre os mecanismos de limitação de resgate – os gates. Na leitura de Cortez, a dúvida se deve a um problema de entendimento.
“O gate não é um recurso de emergência. Faz parte do desenho do produto, está previsto em regulamento”
O mecanismo, explica, existe para evitar que uma onda de saques force a venda de ativos ilíquidos a preço de liquidação – o que prejudicaria os próprios cotistas que permanecem no fundo. “É uma medida protetiva para o portfólio e para os investidores”, afirma.
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Cortez acrescenta um dado que, segundo ele, costuma ficar de fora da cobertura jornalística: a geração natural de caixa desses fundos. “Mais ou menos um terço desses portfólios são renovados, por ano, porque você tem o pagamento dos juros”, diz. “Só de pagamentos trimestrais que entram para o fundo [o principal de empréstimo direto da Blue Owl, de aproximadamente US$ 30 bilhões], a gente tem mais do que duas vezes o limite máximo de resgate.”
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Os fundamentos estão se deteriorando?
Segundo Cortez, a média de calotes da indústria de empréstimo direto americana nos últimos 13 anos foi de 2,7% ao ano, chegando a 4% ou 5% no pico da pandemia. “O índice atual está em torno de 1%, abaixo da média histórica”, afirma.
“A gente não consegue enxergar os motivos que lideraram esse número de saques mais elevados no último trimestre. Eu acho que é o comportamento do investidor reagindo a uma narrativa e a eventos pontuais e, talvez, um exagero a alguns pontos que não foram muito bem esclarecidos”
Na base de cotistas da Blue Owl, diz ele, o movimento foi duplo. “Os resgates foram muito concentrados em um grupo menor de investidores. Tivemos resgates mais elevados desse grupo e, por outro lado, investidores aproveitando esse ambiente para entrar no mercado. Para comprar barato.”
O private credit sofre com a disrupção da IA?
Uma das preocupações mais concretas levantadas por analistas e pela imprensa é a exposição dos fundos de private credit americanos a empresas de software – e o impacto que a inteligência artificial pode ter sobre a avaliação de seus valores de mercado e sobre a capacidade de refinanciamento quando os vencimentos se concentrarem, entre 2026 e 2028. O Financial Times apontou que software e tecnologia chegam a representar 50% de alguns portfólios de crédito da Blue Owl.
Cortez reconhece a elevação de risco no segmento de tecnologia, mas diz que ele não afeta por igual todos os sub-segmentos. A Blue Owl, afirma Cortez, prefere empresas de software integradas verticalmente e com produtos nichados, com barreiras de entrada mais alta e menor exposição à disrupção por ferramentas de inteligência artificial. “A IA tem afetado aplicações mais gerais, como programas de CRM, de contabilidade”, afirma.
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A exposição da Blue Owl a empresas desafiadas por IA tanto não é um problema, afirma Cortez, que o setor de software foi um dos destaques positivos da carteira nos últimos 12 meses, com crescimento de EBIDA e receita entre 10% e 13%.
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Olhando à frente, no entanto, não descarta pressões pontuais. “É possível que você tenha negociações mais duras de refinanciamento à frente e, talvez, casos de marcação para baixo. Isso acontece em qualquer mercado de crédito que cresce. Isso é saudável, isso faz parte do crescimento de qualquer indústria.”
O brasileiro deve olhar para private credit?
O estresse atual no mercado de private credit americano não é motivo para afastar o investidor pessoa física – nem o americano, nem o brasileiro. “No mundo dos investimentos, o único almoço grátis que a gente efetivamente tem, é a diversificação”, afirma. “Você consegue montar uma carteira razoavelmente diversificada com ativos locais e internacionais”.
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Ao concentrar os investimentos numa mesma geografia, a diversificação fica limitada. “Num momento de turbulência local, você tem o real se desvalorizando, a bolsa caindo, as taxas das NTNBs abrindo. O kit Brasil do investidor acaba andando tudo junto, para baixo”, afirma Cortez.
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Ao incorporar ativos internacionais de crédito privado à carteira, as correlações mudam. “São correlações, em grande parte, negativas”, diz o representante da Blue Owl. “Ao montar portfólios diversificados entre crédito Brasil e crédito lá fora, você fatalmente vai ver uma melhora na relação risco-retorno”.